A iniciativa do Clube dos Pensadores, abrir o blogue à participação das pessoas e dos convidados especiais, é noticia na página62.
Clube dos Pensadores

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Clube dos Pensadores

Agora que nos aproximamos do dia 11, mais que falar importa calar.
LUÍS GOURGEL SILVA
Agora que nos aproximamos do dia do referendo, mais que falar importa calar. Deixar as pessoas reflectir, pensar na opção que vão tomar, se votam SIM ou NÃO e ter consciência que no dia 11 não é só o aborto que vai a consulta, é também a instituição do referendo.VICENTE JORGE SILVA
Já escrevi dois artigos no “Diário de Notícias” em que explico as minhas razões para votar “sim”. Mas esta talvez seja uma oportunidade para resumir os motivos essenciais desse voto.
Portugal é o país da Europa onde mais abortos se praticam ilegalmente por ano, onde mais mulheres morrem por causa de abortos clandestinos e onde mais mulheres ficam mutiladas em consequência de abortos feitos em condições degradantes, sem um mínimo de higiene e segurança. E é também um dos últimos países da Europa onde, depois de sofrerem a humilhação do aborto clandestino, há mulheres que continuam a ser presas, julgadas e condenadas. É por isso que este problema não é só um problema do foro íntimo, mas um flagelo que exige uma decisão política. Essa responsabilidade é nossa, de cada um de nós e de todos os cidadãos. É por isso ainda que, desta vez, não pode haver o comodismo nem a refúgio da abstenção. Nem tão-pouco ambiguidades. Ao contrário do que já ouvi, não houve excessos do lado do SIM no último referendo. Houve desmotivação e confusão. Perdeu-se por míngua, não por excesso. É preciso que desta vez os sinais sejam claros. Quem é pelo SIM não tem que ter complexos, nem se deve deixar inibir ou condicionar. Firmeza de convicções e de argumentos. E ao mesmo tempo moderação, tolerância, respeito pela opinião contrária. LUÍS FILIPE MENEZES
Votarei tendencialmente NÃO no referendo sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas, por discordar da pergunta, e critico o partido pela falta de uma pergunta alternativa. Mas poderia votar SIM se a pergunta fosse formulada de uma outra forma, em relação a uma questão completamente diversa. Tenho pouco espaço para votar de outra forma. O PSD deveria ter proposto, na Assembleia da República, uma pergunta alternativa.Quando se colocou a questão de discutir a elaboração da pergunta no Parlamento, o PSD podia ter combatido por uma alternativa a esta pergunta, por uma formulação diversa desta questão. Não concordo com esta pergunta:"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, ser realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?".Enquanto médico,sustento que o Código Deontológico dos médicos se adequa ao pensamento da esmagadora maioria da classe.Mas também admito o referendo, não me repugna nada que os médicos sejam consultados sobre essas e outras matérias.
Considero a realização deste referendo manifestamente despropositada e a destempo. A questão do aborto não é prioritária no País e não se sentiam quaisquer movimentações ou apelos da chamada sociedade civil a este respeito. Uma vez mais, e agora com a cumplicidade dum Presidente da República eleito pela dita direita, uma certa esquerda consegue fazer o que quer e condicionar à sua vontade as decisões dos principais órgãos políticos do País. Neste contexto, e pela primeira vez na minha vida desde que tenho direito de voto, admiti abster-me. Fá-lo-ia por discordar da consulta e por considerar a pergunta falaciosa e enganadora. Ainda assim vou votar e vou votar Não. Poupá-los-ei aos argumentos que me conduzem a tal voto, mas sempre direi que me sinto revoltado com os fundamentalistas quer do Sim, quer do Não. Os primeiros, autênticos fascistas da extrema - esquerda, porque pretendem recuperar nesta ocasião a velha máxima do pós 25 de Abril, segundo a qual quem não era comunista era adepto do antigo regime; os segundos porque a coberto duma Igreja da era da Inquisição lançam anátemas indignos de quem proclama a paz, a compreensão, o perdão.
O referendo do próximo dia 11 de Fevereiro volta a trazer à sociedade portuguesa um conjunto de discussões de diferente natureza que tem por característica o aparecimento em ambos os lados – quer pelo sim, quer pelo não - de posições mais radicais, bem como de outras mais moderadas que se tocam, e acabam por se distinguir por meros elementos de sensibilidade pessoal e subjectiva.
Na semana passada participei, em Gaia, num debate do “clube dos pensadores” (animado pelo biólogo Joaquim Jorge) sobre este tema. Foi um debate vivo e muito participado, onde ficaram claras as razões porque é que a cultura é, de facto, um desafio nacional, e pode ser um trunfo global. Razões que as conclusões do recente relatório sobre “a economia da cultura na Europa”, encomendado e divulgado pela U.E., tornaram mais claras e prementes. Lembro apenas algumas:
DIOGO PACHECO DE AMORIM
Não, porque pela mesma razão que ciência me não pode dizer quando a vida está lá, ela não me pode também dizer quando a vida não está lá e, na dúvida, quem assume a responsabilidade de acabar com uma vida que pode estar lá? Eu, seguramente que não corro esse risco. Mas compreendo que a Esquerda, com a sua arrogância de quem tudo sabe e nada tem a aprender, esteja completamente inconsciente deste risco tão grave. Não, porque, para além do que a ciência possa vir ou não dizer, só encontro, na vida, dois momentos em que são detectáveis alterações qualitativas: na concepção, quando duas heranças genéticas se integram para constituir um património genético único, diverso de qualquer outro, e que se encontra na base de um indivíduo por isso mesmo ele também único e diverso de qualquer outro; na morte, com o regresso à indiferenciação. Entre estes dois momentos, só consigo ver alterações quantitativas e circunstanciais.Mas compreendo que a Esquerda, com o seu horror à diferença, faça tábua rasa desta evidência.Não, porque tenho uma cultura da vida: e uma promessa de vida, uma chama de vida, mesmo vacilante, com dez segundos, dez dias ou dez semanas é para proteger, para defender, e não para apagar. Esta é a cultura de vida que nasceu no Mediterrâneo e forjou a alma da Europa...quando a Europa tinha uma alma e sabia fazer mais do que meras contas de mercearia. E apagar uma vida, trémula ou firme, porque não se vislumbram "condições económicas ou sociais" para a manter acesa não passa de contas de mercearia. E sei do que falo: tinha já cinco filhos, e um orçamento que, na altura, se fizesse essas tais contas de mercearia, me dava para alimentar só um!Mas compreendo que a Esquerda, com a sua cultura de morte, o seu horror ao risco e o seu economicismo rasteiro, prefira o bem estar burguês tão adequado à sua alma burguesa. Não, finalmente, e independentemente disto tudo, porque não gosto de ser empurrado pelos dedos em riste do pregador Louçã e dos seus acólitos, marchando ao som das suas ordens guinchadas. Poderá mandar no eng Sócrates. Em mim, não, seguramente.
Não, porque pela mesma razão que ciência me não pode dizer quando a vida está lá, ela não me pode também dizer quando a vida não está lá e, na dúvida, quem assume a responsabilidade de acabar com uma vida que pode estar lá? Eu, seguramente que não corro esse risco. Mas compreendo que a Esquerda, com a sua arrogância de quem tudo sabe e nada tem a aprender, esteja completamente inconsciente deste risco tão grave. Não, porque, para além do que a ciência possa vir ou não dizer, só encontro, na vida, dois momentos em que são detectáveis alterações qualitativas: na concepção, quando duas heranças genéticas se integram para constituir um património genético único, diverso de qualquer outro, e que se encontra na base de um indivíduo por isso mesmo ele também único e diverso de qualquer outro; na morte, com o regresso à indiferenciação. Entre estes dois momentos, só consigo ver alterações quantitativas e circunstanciais.Mas compreendo que a Esquerda, com o seu horror à diferença, faça tábua rasa desta evidência.Não, porque tenho uma cultura da vida: e uma promessa de vida, uma chama de vida, mesmo vacilante, com dez segundos, dez dias ou dez semanas é para proteger, para defender, e não para apagar. Esta é a cultura de vida que nasceu no Mediterrâneo e forjou a alma da Europa...quando a Europa tinha uma alma e sabia fazer mais do que meras contas de mercearia. E apagar uma vida, trémula ou firme, porque não se vislumbram "condições económicas ou sociais" para a manter acesa não passa de contas de mercearia. E sei do que falo: tinha já cinco filhos, e um orçamento que, na altura, se fizesse essas tais contas de mercearia, me dava para alimentar só um!Mas compreendo que a Esquerda, com a sua cultura de morte, o seu horror ao risco e o seu economicismo rasteiro, prefira o bem estar burguês tão adequado à sua alma burguesa. Não, finalmente, e independentemente disto tudo, porque não gosto de ser empurrado pelos dedos em riste do pregador Louçã e dos seus acólitos, marchando ao som das suas ordens guinchadas. Poderá mandar no eng Sócrates. Em mim, não, seguramente.
professor universitário
Despenalização do Aborto até às 10 semanas? E a 11ª, 12ª em diante? Enfim…acho de facto interessante uma mulher não ser “condenada” por fazer tal acto até determinada data, mas se pensar fazê-lo depois já é uma homicida! Neste referendo não é isso que está em causa…
Eu votarei SIM, como já o fiz em 1998. Os partidários do NÃO tem utilizado (felizmente não todos) argumentos que em nada dignificam aquilo que devia ser o confronto de ideias racionais sobre o tema. Deixo aqui um exemplo lançado pela Plataforma Não Obrigada que trouxe para o debate e combate ao SIM um argumento que me repugna: o económico.
SANDRA MENDONÇA
Tenho uma amiga com 40 anos que nunca conseguiu engravidar. Já fez vários tratamentos, fertilizações, etc e sempre sem sucesso. Numa discussão acesa sobre o aborto, do qual ela é absolutamente contra e eu absolutamente a favor, cheguei à triste conclusão da razão que leva alguns portugueses a votarem contra o aborto ou em defesa da vida , da liberdade ou o que quer que lhe queiram chamar: A HIPOCRISIA!!!
Passo a explicar:
Ao justificar a sua opinião, a minha querida amiga, argumentava que não estava para pagar às outras mulheres para fazerem abortos, quando ela não conseguia sequer engravidar! Ao que eu argumentei, inteligentemente, achei eu, que só voltaria a discutir este assunto com ela, no dia em que ela tivesse a generosidade de adoptar uma criança.
Bem, a sua resposta foi, "Não vou ficar com o lixo que os outros deitam fora!"...Ficaram chocados ?! Eu também fiquei ! Mas não por muito tempo... Resolvi dissecar as palavras da minha amiga.
Ela tinha toda a razão! Era o que mais faltava, a coitada ter que ficar com o lixo dos outros! Verdade? Não é nada ético pensar assim, pois não? Pois não! Mas agora raciocinem comigo. Não são os portugueses os maiores defensores do embrião, do feto, da vida?! Não é tão estranho, então, que haja crianças em instituições, abandonadas, com fome, sem alguém que as ame incondicionalmente?
Então, quando saem da barriguinha da mãe, já não são vidas a proteger? Pois...uma criança dá trabalho, não é? Vamos pedir a esses senhores e senhoras por favor que dividam, dinheiro, afecto e tempo, com essas vidas que eles lutaram tanto para preservar! Ou será que agora que estão fora da barriguinha das mamãs, já são só mesmo, o lixo que os outros deitam fora?
web designer
JOÃO CONCEIÇÃO
Eu não concordo que se deva abortar, mas o aborto é um problema REAL, tal como é real a fragilidade humana, as pessoas perderem-se, errarem…e estamos cá nós com a obrigação de TUDO fazer para as ajudar!
Este é para mim o problema principal, ao contrário da HUMANIDADE (em potência) existente num embrião com menos de 10 semanas.
Dizer ‘Não’ humilha, nada faz, criminaliza...não sendo já penalização suficiente não se poder aceder aos recursos médicos, ou até a própria situação em que essas mulheres caíram?
Não basta a humilhação e a sua infelicidade…para o ‘Não’ é necessário castiga-las pela sua irresponsabilidade.
O ‘Não’ provoca dor física e emocional.
Mas há esperança, há os que ajudam e acreditam ('SIM'), e HÁ os que pensam que são mais que os outros ('Não').
A responsabilidade ensina-se com Amor e proximidade, e não com leis e distância. Educar e Amar não é o mesmo que proibir!
Se a questão é económica, de dinheiro, deve-se pagar a ajuda dada, de acordo com os rendimentos da "vítima" (ou criminosa) como lhe queiramos rotular.
As pessoas do 'Não' no fundo não têm esperança de se poder atingir a perfeição na LIBERDADE que o ‘SIM’ oferece.
O 'Não' apenas considera aqueles a quem a sorte bafejou, seja por terem mais amor e ou dinheiro, distinguindo entre cidadãos de 1a e de 2a categorias.
O 'SIM' permite a pessoa cometer um erro, é realista, porque VÊ o mundo em que vivemos…
Ninguém é a favor de matar, apenas a mãe, e fa-lo-á, mesmo apesar das hipocrisias que lhe impõem o 'Não'!! Ela até PODE estar errada…é tão fácil julgar!
Mas nem mesmo Jesus condenou Maria Madalena.
Só proíbe quem pensa que é Deus, e mais que os outros..., e até alguns padres já se revoltam contra toda esta inércia mental e concordam com o 'SIM'…
Ver http://publico.clix.pt/shownews.asp?id=1285028&idCanal=21
Os ideais 'Não' valem por si só…, eles atingem-se 'SIM' ajudando o próximo.
Defender o ‘SIM’ é lutar por um REAL cada vez melhor, e aí talvez possamos nos aproximar do sonho, do IDEAL, evoluir e ajudar,... e se há quem irá abusar da liberdade, só em liberdade terão hipótese de aprender e despertar a sua consciência.
Porque não se preocupam os defensores do 'Não' em combater o egoísmo, a ambição desmedida, o ódio, a ingratidão, a soberba, a solidão, a ignorância...tudo sentimentos que geram abortos. Talvez porque necessitariam de olhar e julgar mais para dentro de si, do que perseguir quem está lá fora…
O 'Não' varre o problema para debaixo do tapete, esconde, humilha, criminaliza, pois umas quantas criaturas têm altos IDEAIS quais PAPAS no período da Inquisição...
O problema aqui é a ajuda a VERDADEIRAS vítimas que recorrem a esta prática dolorosa; o reconhecimento da triste situação em que se encontram, que nem direito a ideais ou a sonhar têm.
Antes de se preocuparem com VIDA e ALMAS por concretizar, vejam que VIDA, que IDEAIS, que SONHOS permitimos aos nossos vizinhos, ao nosso irmão, ao nosso familiar, enfim qualquer um que pode cair na infelicidade, e na desgraça...
Quem se julgam alguns entre nós que nos gritam e impõem suas regras.
Também eu faço parte da sociedade e dos seus filhos!
Hoje reinam entre nós certos Senhores, mas apenas um o É, apenas UM reconheço.
Que a nossa pena recaia sobre o 'SIM' no dia 11, por pena da humanidade, por pena das misérias que todos os dias nascem no seio da sociedade devido às nossas limitações, à nossa ignorância, ao mal que está dentro de cada um de nós.
Porque podemos ensinar, mas não impedir, Voto 'SIM'!
A consciência toma-se por si só, não se impõe.
Anarquia é o que já existe! Porquê continuar a proibir, a não ajudar!?
Temos que ter esperança, fé, e fugir da tentação de sermos Deuses perante os nossos semelhantes.
As regras sempre orientaram os homens mas apesar das boas intenções, nem sempre são boas e NUNCA SÃO POR SI SÓ PERFEITAS!!.
Quem age e apregoa o ‘NÃO’ não ensina, não AMA, Ilude-se, vangloria-se, proclama-se, impõe-se.
Outros talvez não tenham tido a oportunidade e as suas condições para definir e segurar, enlear suas fragilidades numa condição responsável. Que fazer? Punir? Negar as condições necessárias!? Humilhar quem já se encontra humilhado? Tenham vergonha!
Porquê considerar apenas vencedores e responsáveis... e vencidos e subjugados?….Até quando seremos tão limitados?
Em vez de filosofarmos sobre almas que ainda não são deste mundo, preocupemo-nos e demos as mãos às que por cá andam!
Também eu sou tendencialmente pelo 'Não', mas como sou pragmático e respeito meu semelhante, voto ‘SIM'
Respeitemos a vida, principalmente a que existe...
Empresário / Informático, Póvoa Sta. Iria
No próximo dia 11 de Fevereiro os portugueses vão ser chamados, novamente, a manifestarem a sua opinião sobre a IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez). Há cerca de oito anos, no último referendo, ganhou o NÃO em votação não muito expressiva e, por isso, temos mais uma oportunidade, uma grande oportunidade, para que, com o nosso contributo, se resolva um problema. O aborto existe. Faz-se todos os dias. São milhares de mulheres que todos os anos decidem, por opção, em consciência, abortar. Só que tudo é feito na clandestinidade, às escondidas, sem condições de segurança, sem dignidade, de forma humilhante para a mulher. Pretende-se resolver este problema. Acabar com a vergonha nacional do aborto clandestino, inadmissível num país desenvolvido e moderno que continua a fingir que nada se passa. A sociedade portuguesa já despenalizou o aborto ao tolerar a situação. No entanto, num Estado de Direito não é aceitável que exista uma lei que criminaliza o aborto, ao contrário do que acontece na maioria dos países comunitários, e depois fica tudo no faz-de-conta. Não acontece nada. Não. Isto não é solução. O problema existe e é necessário resolvê-lo. Não se trata de liberalizar, não se trata de legalizar, não se trata de nada disso. Trata-se de dar às pessoas um ombro, um apoio, uma resposta, uma orientação e, sobretudo, zelar pela sua saúde. Trata-se de acabar com esta injusta humilhação. O aborto não é pertença de ninguém, de partidos, de poderes instituídos ou de religiões. É uma questão das pessoas, de todos e de cada um. Por isso, pelo respeito que tenho pelas pessoas, pelos jovens, pelos mais desfavorecidos, pelas mulheres, no próximo Domingo, voto SIM. Voto SIM porque o Sim não promove o aborto. O que o promove é a clandestinidade, isso é a liberalização selvagem. Quem está contra a vida é quem empurra a mulher para o aborto clandestino. Voto SIM porque o que está em causa no referendo é tão só e apenas se a investigação e até a prisão é a resposta que a sociedade dá à mulher que aborta. Voto SIM porque o problema tem que deixar de ser tratado por sistemas policial e judicial para passar a ser tratado nos sistemas da saúde e apoio social. A nossa aversão à mudança não pode permitir que se perca esta grande oportunidade. Por isso, voto Sim porque esta é também uma questão de liberdade e civilizacional.
Normalmente, muito antes de ser chegado o dia de colocar o papelinho dobrado em quatro dentro da urna, em eleições ou referendos, sei já qual vai ser o meu voto. Não preciso de debates nem de propagandas para tomar uma decisão e gabo-me de, até hoje, nunca me ter arrependido de votar em quem votei. Acho,contudo, que o referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, que vamos enfrentar no próximo dia 11 de Fevereiro, será uma das mais complexas decisões eleitorais da minha vida.Bem vistas as coisas, vote sim ou vote não, terei sempre razões para me arrepender. Se o sim ganhar, e considerando o nível cultural de uma população que faz do facilitismo um dos seus maiores defeitos, o aborto corre o risco de se transformar num método anticoncepcional radical, usado sem critério por quem se esqueceu do preservativo, da pílula ou, em última instância, da pílula do dia seguinte. Além disso, uma vitória do sim funcionará, igualmente, como uma tácita desresponsabilização do homem no processo reprodutivo. A mulher decide se aborta ou não, sem precisar de consultar o parceiro que forneceu o espermatozóide. Isto é, a lei passará a afirmar que, na reprodução, há células de primeira (os óvulos) e células de segunda (os espermatozóides). Estamos perante o feminismo levado às suas derradeiras consequências.Perante isto, posso votar não. Mas, ao fazê-lo, estarei a condenar à barra dos tribunais milhares de mulheres que, com as mais variadas e fundamentadas razões, decidiram não ter condições para trazer mais uma criança a este número. Estarei a condenar inúmeros casais a terem mais filhos do que aqueles que têm capacidade para sustentar. Estarei a ajudar inúmeros médicos, enfermeiras e parteiras a tornar ainda mais rica a mina de ouro do aborto clandestino. E estarei, em última instância, a dizer que a Lei é mais poderosa do que a Moral - o que me irrita profundamente.Restar-me-ia, perante um tal dilema, abster-me, deixando que outros decidam por mim. Fazê-lo, todavia, é um acto de insuportável cobardia que em momento algum aceitaria desempenhar. Se me abstivesse (ou votasse branco ou nulo),estaria a aceitar o papel do personagem do poema "A Indiferença", de Brecht- "agora levaram-me a mim, e quando percebi já era tarde".Não quero. Vou votar. Sim ou não, vou votar. Provavelmente a decisão será tomada no derradeiro instante, com a caneta na mão e o boletim à frente.Votarei e, tenho a certeza!, não me arrependerei do meu voto. MANUEL CARVALHO
Seja na democracia, no desenvolvimento ou na autonomização de uma verdadeira sociedade civil, é hábito nosso chegar tarde à História. Com a história da despenalização do aborto, não podia ser diferente. Desfasados do tempo, envolvemo-nos na pré-campanha como se de uma questão de vida ou de morte se tratasse. Batemos e rebatemos argumentos que outros europeus evocaram há 30 ou 40 anos: rediscutimos a moral pública e a liberdade individual, os limites do Estado e a influência da igreja, a biologia e o sistema nacional de saúde, a liberdade e a demagogia, o ser e o não ser. Não nos demos ainda conta de que tudo isto é retro, gasto, velho e relho, como o seria certamente o debate sobre as indulgências que levaram à Reforma, a pureza dos cristãos novos, o saber se a velocidade do vapor faz mal à vista ou se um dia D. Sebastião vai ou não regressar um dia no seu cavalo entre o nevoeiro.
Entre as exclusivas interpretações da vida do “não” e a reclamação do direito exclusivo de as mulheres mandarem na sua barriga dos que apelam ao “sim” sobra uma sensação de vacuidade e de arcaísmo que nem os que dos dois lados se esforçam por encarar racionalmente o problema são capazes de superar. Porque nada disto faz sentido, porque tudo isto deveria ter sido irremediavelmente resolvido há décadas. Perante o atraso, o Referendo parece uma dor que tem se suportar até que a ferida cure. E só curará quando Portugal (ou a Irlanda) deixar de ser uma excepção moralista e radicalmente conservadora, quando o país aceitar que o pretenso determinismo da moral católica não determina nem pode determinar em absoluto o sentido da existência de cidadãos livres e responsáveis no seio de uma sociedade e de um Estado laicos. Apesar do aborto ser um flagelo traumático e de a sua descriminalização implicar sobre ele o olhar frio das leis, a alternativa só pode ser pior.
Mesmo sabendo que haverá sempre quem conteste a realidade nua e crua dos factos, quem persista em recusar a realidade e o presente, confortemo-nos com a ideia que este Referendo pode apagar esta triste manifestação de anacronismo por uns anos. Se sim, seremos ao menos poupados à triste sina de viver dias como estes, em que sentimos no meio de um debate que cruelmente nos mostra como estamos desfasados da História.