09/02/2007

VISÃO

A iniciativa do Clube dos Pensadores, abrir o blogue à participação das pessoas e dos convidados especiais, é noticia na página62.

Clube dos Pensadores

SEMANÁRIO


Hoje está nas bancas um artigo de Joaquim Jorge no jornal Semanário intitulado "YES".
Também está publicado um artigo de Luís Gourgel Silva " A Campanha" no Primeiro de Janeiro.
Clube dos Pensadores

A CAMPANHA

Agora que nos aproximamos do dia 11, mais que falar importa calar.

LUÍS GOURGEL SILVA


Agora que nos aproximamos do dia do referendo, mais que falar importa calar. Deixar as pessoas reflectir, pensar na opção que vão tomar, se votam SIM ou NÃO e ter consciência que no dia 11 não é só o aborto que vai a consulta, é também a instituição do referendo.

A Campanha do referendo à despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), decorreu como se esperava:

1) Nos "media", grande parte os oradores foram políticos, juristas, médicos, teólogos e padres. Na televisão e na rádio, reinou a guerra de audiências com debates constantes, com a confusão que já estamos habituados onde vale tudo. Extremaram-se opiniões, esgrimiram-se argumentos, aproveitou-se para retirar dividendos políticos propondo soluções incoerentes, hipócritas e demagógicas, como a prestação de serviço cívico, pagamento de coimas ou multas como penalização, a quem pretende praticar a interrupção voluntária da gravidez. Nos jornais, publicaram-se artigos diversos, os opinion makers de serviço “deram o seu contributo” em prol da causa que mais acreditam. Tanta informação e desinformação só serviu para baralhar, e neste caso ganha o NÃO.

2) Na Net, aqui pode-se encontrar de tudo um pouco, apoiantes do SIM, do NÃO é como na farmácia há-os para todos os gostos. No entanto, sempre prestam melhor serviço público que a televisão, veja-se o caso do blog clubedospensadores@blogspot.com que abriu o seu sítio de opinião a defensores do SIM e do NÃO, de forma a esclarecer e a explicar ambos pontos de vista. Aqui ganha o “NIM”.

3) Nas localidades e junto das populações, promoveram-se debates, sessões de esclarecimento, criaram-se movimentos cívicos, mobilizaram-se os aparelhos partidários. Por parte do SIM, oprimiu-se a palavra Aborto e substitui-se por IVG, numa manobra de marketing e para não ferir susceptibilidades. Tentou-se explicar que todos são a favor da vida e que apenas se quer que as mulheres não sejam condenadas. Que se pretende acabar com o flagelo do aborto clandestino e que as mulheres e as famílias que tomam uma decisão tão dramática e dolorosa, sejam atendidas com dignidade, por técnicos de saúde. Por parte do NÃO recorreu-se a prospectos com imagens chocantes, fez-se inquéritos às crianças sobre a vida sexual dos pais, tentou-se criar a confusão entre despenalização e liberalização, arrastou-se o tema da IVG para uma questão de impostos, usou-se o extremismo das palavras quando a razão e os argumentos já não chegavam, fizeram-se comparações infelizes com os actos de terrorismo, que ainda estão bem presentes na memória de todos nós. No entanto, o povo hoje em dia não se deixa levar com duas cantigas e após o flop do referendo de 1998, este não está disposto a cair no mesmo erro duas vezes, e por isso mobiliza-se para o SIM à despenalização.

Como dizia George Orwell “… num tempo em que a mentira e o engano imperam, dizer a verdade é ser-se revolucionário.” por isso em Portugal caso o NÃO ganhe, além de não haver educação sexual nas escolas, apesar do planeamento familiar não funcionar, caso se faça um aborto por razões sociais e económicas, ainda se vai preso. Vale a pena pensar nisto…
Gestor

08/02/2007

PORQUE VOTO "SIM"

VICENTE JORGE SILVA


Já escrevi dois artigos no “Diário de Notícias” em que explico as minhas razões para votar “sim”. Mas esta talvez seja uma oportunidade para resumir os motivos essenciais desse voto.

1 – A lei actual é discriminatória, cruel e humilhante para as mulheres que, em desespero de causa, se vêem forçadas a recorrer ao aborto em condições degradantes e de sórdida clandestinidade. O “não” não oferece respostas a essa realidade gritante. O “sim” permite, pelo menos, a essas mulheres, normalmente as de mais fracos recursos económicos e em situação de maior vulnerabilidade afectiva e psicológica, encontrar amparo, aconselhamento e protecção médica adequada para enfrentar uma gravidez indesejada.

2 – O “não” baseia-se num dogma que, independentemente de ser respeitável em função das crenças daqueles que o perfilham, escamoteia a realidade do aborto clandestino e as desigualdades sociais que o favorecem (não consta que as mulheres das chamadas classes altas ou médias altas tenham sido sujeitas ao vexame de ser julgadas em tribunal por terem praticado um aborto).

3 – Não é legítimo impor as nossas crenças religiosas e éticas aos demais e torná-las uma regra universal, um padrão de superioridade moral indiscutível e, ainda por cima, uma norma legal de um Estado laico. O “sim” preserva a liberdade de cada um – neste caso, de cada mulher – enquanto o “não” desrespeita e condiciona essa liberdade a crenças e valores que não são universalmente reconhecidos.

4 – O “não” é inoperante e inconsequente. Pretende manter o crime de aborto na lei, mas para alívio de consciência das suas almas mais sensíveis propõe que se apaguem os vestígios desse crime, descriminalizando o aborto sem quaisquer prazos (enquanto o “sim” limita essa opção às dez semanas de gravidez). Isso é uma aberração jurídica insustentável num Estado de direito democrático – e não creio que exista uma tal situação em qualquer outro país do mundo.

SIM À DESPENALIZAÇÃO DA IVG

MANUEL ALEGRE

Portugal é o país da Europa onde mais abortos se praticam ilegalmente por ano, onde mais mulheres morrem por causa de abortos clandestinos e onde mais mulheres ficam mutiladas em consequência de abortos feitos em condições degradantes, sem um mínimo de higiene e segurança. E é também um dos últimos países da Europa onde, depois de sofrerem a humilhação do aborto clandestino, há mulheres que continuam a ser presas, julgadas e condenadas. É por isso que este problema não é só um problema do foro íntimo, mas um flagelo que exige uma decisão política. Essa responsabilidade é nossa, de cada um de nós e de todos os cidadãos. É por isso ainda que, desta vez, não pode haver o comodismo nem a refúgio da abstenção. Nem tão-pouco ambiguidades. Ao contrário do que já ouvi, não houve excessos do lado do SIM no último referendo. Houve desmotivação e confusão. Perdeu-se por míngua, não por excesso. É preciso que desta vez os sinais sejam claros. Quem é pelo SIM não tem que ter complexos, nem se deve deixar inibir ou condicionar. Firmeza de convicções e de argumentos. E ao mesmo tempo moderação, tolerância, respeito pela opinião contrária.

Dizia Voltaire que não é a tolerância que constitui um perigo para a ordem pública, mas sim a intolerância. Vai longe o tempo em que Galileu foi condenado por afirmar uma evidência. Vai igualmente longe o tempo em que Portugal esteve na vanguarda do espírito moderno. Chegou a altura, nesta matéria, de deixarmos de ser uma das poucas excepções na Europa, para que amanhã não se diga, como outrora disse Antero, “enquanto as outras nações subiam, nós baixávamos.”A Terra move-se. E é preciso que Portugal também se mova.

Entendo que o SIM é a resposta que assegura a liberdade qualquer que seja o sentido do seu exercício. Porque se o Tribunal Constitucional já deliberou no sentido da conformidade de uma resposta afirmativa com o modo como a nossa Constituição consagra a inviolabilidade da vida humana, a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, tal como formulada na pergunta a referendo, é legítima face ao direito - que é do que neste debate se trata. Assim, tanto é legítima a liberdade de quem pretenda interromper a gravidez no quadro indicado, como a liberdade de quem a pretenda prosseguir.

É porque considero que não há que recusar a qualquer pessoa o exercício de uma liberdade legítima, é porque defendo a igual dignidade destes dois modos de encarar a liberdade, que voto SIM e apelo ao SIM, no próximo dia 11 de Fevereiro.

TENDENCIALMENTE NÃO

LUÍS FILIPE MENEZES


Votarei tendencialmente NÃO no referendo sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas, por discordar da pergunta, e critico o partido pela falta de uma pergunta alternativa. Mas poderia votar SIM se a pergunta fosse formulada de uma outra forma, em relação a uma questão completamente diversa. Tenho pouco espaço para votar de outra forma. O PSD deveria ter proposto, na Assembleia da República, uma pergunta alternativa.Quando se colocou a questão de discutir a elaboração da pergunta no Parlamento, o PSD podia ter combatido por uma alternativa a esta pergunta, por uma formulação diversa desta questão. Não concordo com esta pergunta:"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, ser realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?".Enquanto médico,sustento que o Código Deontológico dos médicos se adequa ao pensamento da esmagadora maioria da classe.Mas também admito o referendo, não me repugna nada que os médicos sejam consultados sobre essas e outras matérias.

REFERENDO

MANUEL MONTEIRO

Considero a realização deste referendo manifestamente despropositada e a destempo. A questão do aborto não é prioritária no País e não se sentiam quaisquer movimentações ou apelos da chamada sociedade civil a este respeito. Uma vez mais, e agora com a cumplicidade dum Presidente da República eleito pela dita direita, uma certa esquerda consegue fazer o que quer e condicionar à sua vontade as decisões dos principais órgãos políticos do País. Neste contexto, e pela primeira vez na minha vida desde que tenho direito de voto, admiti abster-me. Fá-lo-ia por discordar da consulta e por considerar a pergunta falaciosa e enganadora. Ainda assim vou votar e vou votar Não. Poupá-los-ei aos argumentos que me conduzem a tal voto, mas sempre direi que me sinto revoltado com os fundamentalistas quer do Sim, quer do Não. Os primeiros, autênticos fascistas da extrema - esquerda, porque pretendem recuperar nesta ocasião a velha máxima do pós 25 de Abril, segundo a qual quem não era comunista era adepto do antigo regime; os segundos porque a coberto duma Igreja da era da Inquisição lançam anátemas indignos de quem proclama a paz, a compreensão, o perdão.

Triste realidade pois que nos leva por vezes a sentir pena do estado da democracia.
Aproveito para saudar a iniciativa, nesta recolha de opiniões.

PORQUE NÃO

DIOGO FEYO

O referendo do próximo dia 11 de Fevereiro volta a trazer à sociedade portuguesa um conjunto de discussões de diferente natureza que tem por característica o aparecimento em ambos os lados – quer pelo sim, quer pelo não - de posições mais radicais, bem como de outras mais moderadas que se tocam, e acabam por se distinguir por meros elementos de sensibilidade pessoal e subjectiva.
Estou perfeitamente convencido que apenas sectores marginais da nossa sociedade são favoráveis ao aborto sem qualquer limite em razão de tempo ou fundamento. Passado este pressuposto cumpre entrar na discussão da actualidade. São vários os pressupostos pelos quais se argumenta. Entre os mais relevantes encontra-se o da saúde pública; o jurídico; o civilizacional; e, por fim, o dos valores.

O critério da saúde pública surge devido ao flagelo do aborto clandestino que a todos deve preocupar. Aquilo que está totalmente por provar é que esta chaga não continue a surgir, na estrita medida em que na sua base não está tanto uma qualquer determinação do nosso Código Penal, mas antes uma questão social que se manterá independentemente de qualquer modificação legal.

A questão jurídica é também interessante. É muito estranho que os principais defensores da Constituição e da sua imutabilidade sejam precisamente aqueles que mais depressa se esqueçam das suas determinações quanto ao valor vida e à sua inviolabilidade (aconselho, a este nível, a leitura dos vários votos de votos de vencido dos juízes do Tribunal Constitucional, quanto a esta matéria). Por outro lado, há a questão de direito penal. É que a despenalização não tem de tecnicamente passar por uma solução em que se deixa de forma geral e abstracta nas mãos de uma mulher a possibilidade, dentro de um certo prazo, de por fim à vida de um feto independentemente das razões de tal opção. Esta liberdade tem de estar relacionada com uma ideia de responsabilidade. Aproveito aliás para relembrar que não existe uma só mulher presa em Portugal pela prática de aborto, pelo que se deve colocar a questão nos termos em que fiz e não num plano demagógico que apenas serve para criar focos de demagogia na nossa sociedade.
Também se considera que a opção pelo sim é mais moderna, de acordo com os padrões de civilização actuais, sendo várias vezes utilizado o argumento que apenas a Polónia e a Irlanda têm uma legislação tão “restritiva” como a nossa. Quero começar por dizer que uma legislação favorável à vida (bem na linha progressista e humanista nacional) não tem de ser vista como “restritiva”. O grande resultado das legislações mais “modernas” tem apenas sido o do aumento do número de abortos praticados, precisamente o contrário de uma sociedade moderna onde há vários meios contraceptivos, formas de educação sexual e acompanhamento da maternidade.
Para terminar, a questão a que se podia resumir o meu testemunho: a dos valores em causa. Por um lado, a vida humana, por outro a defesa de questões socialmente relevantes como a defesa da mulher. Entre os dois pratos tendo para a defesa da vida. Faço-o por uma questão de sensibilidade. E é com sensibilidade que, independentemente das campanhas, a maioria dos portugueses vão votar.

RESCALDO DA VISITA DE CARRILHO

CULTURA – UM DESAFIO NACIONAL, UM TRUNFO GLOBAL

Na semana passada participei, em Gaia, num debate do “clube dos pensadores” (animado pelo biólogo Joaquim Jorge) sobre este tema. Foi um debate vivo e muito participado, onde ficaram claras as razões porque é que a cultura é, de facto, um desafio nacional, e pode ser um trunfo global. Razões que as conclusões do recente relatório sobre “a economia da cultura na Europa”, encomendado e divulgado pela U.E., tornaram mais claras e prementes. Lembro apenas algumas:

- que o volume de negócios na área da cultura e da criação foi de 654 mil milhões de euros no ano estudado (em 2003), sendo superior, por exemplo, ao dos sectores automóvel, bem como ao das novas tecnologias;

- que a sua contribuição para o pib comunitário foi, nesse mesmo ano, de 2,6%, superior ao dos sectores imobiliário (2,1%), alimentar, bebidas e tabaco (1,9%) ou têxtil (0,5%);

- que na área cultural e criativa o crescimento do valor acrescentado foi, no período 1999/2003, de 19,7%, quando o da média global no resto da economia foi de 7,4%;

- que a cultura e a criação representam 3,1% do emprego nos 25 países da U.E., tendo crescido 1,85% no período (2002/2004) em que, globalmente, ele diminuiu na União Europeia.

Estes são alguns dados da maior relevância, que exigem agora um esforço no sentido de se avançar para propostas concretas que aproveitem, potenciem e dinamizem o papel da cultura e da criação no reforço da competitividade da economia da U.E. no mundo. É urgente dar este passo – e talvez seja possível dá-lo no âmbito da Presidência portuguesa da U.E., no 2º semestre de 2007, se houver capacidade para avançar com medidas que o possam viabilizar.

Vivemos um período em que, à crítica fácil, é preciso preferir a proposta construtiva – e, assim, contribuir para fazer de novo da política cultural uma autêntica prioridade política.

Manuel Maria Carrilho

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Manuel Maria Carrilho acedeu a elaborar um documento escrito, para o Clube dos Pensadores, aquando da sua passagem a 22/01/2007. Esta atitude tocou-me sobremaneira, mostrando elevação, sensibilidade, diria até simpatia e interesse por este projecto,a que não é alheio a excelente plateia. Abstendo-se de tomar posição sobre o Aborto no nosso blogue, fê-lo sobre o debate.
Obrigado MMC.
Joaquim Jorge

NÃO

DIOGO PACHECO DE AMORIM


Não, porque pela mesma razão que ciência me não pode dizer quando a vida está lá, ela não me pode também dizer quando a vida não está lá e, na dúvida, quem assume a responsabilidade de acabar com uma vida que pode estar lá? Eu, seguramente que não corro esse risco. Mas compreendo que a Esquerda, com a sua arrogância de quem tudo sabe e nada tem a aprender, esteja completamente inconsciente deste risco tão grave. Não, porque, para além do que a ciência possa vir ou não dizer, só encontro, na vida, dois momentos em que são detectáveis alterações qualitativas: na concepção, quando duas heranças genéticas se integram para constituir um património genético único, diverso de qualquer outro, e que se encontra na base de um indivíduo por isso mesmo ele também único e diverso de qualquer outro; na morte, com o regresso à indiferenciação. Entre estes dois momentos, só consigo ver alterações quantitativas e circunstanciais.Mas compreendo que a Esquerda, com o seu horror à diferença, faça tábua rasa desta evidência.Não, porque tenho uma cultura da vida: e uma promessa de vida, uma chama de vida, mesmo vacilante, com dez segundos, dez dias ou dez semanas é para proteger, para defender, e não para apagar. Esta é a cultura de vida que nasceu no Mediterrâneo e forjou a alma da Europa...quando a Europa tinha uma alma e sabia fazer mais do que meras contas de mercearia. E apagar uma vida, trémula ou firme, porque não se vislumbram "condições económicas ou sociais" para a manter acesa não passa de contas de mercearia. E sei do que falo: tinha já cinco filhos, e um orçamento que, na altura, se fizesse essas tais contas de mercearia, me dava para alimentar só um!Mas compreendo que a Esquerda, com a sua cultura de morte, o seu horror ao risco e o seu economicismo rasteiro, prefira o bem estar burguês tão adequado à sua alma burguesa. Não, finalmente, e independentemente disto tudo, porque não gosto de ser empurrado pelos dedos em riste do pregador Louçã e dos seus acólitos, marchando ao som das suas ordens guinchadas. Poderá mandar no eng Sócrates. Em mim, não, seguramente.

Não, porque pela mesma razão que ciência me não pode dizer quando a vida está lá, ela não me pode também dizer quando a vida não está lá e, na dúvida, quem assume a responsabilidade de acabar com uma vida que pode estar lá? Eu, seguramente que não corro esse risco. Mas compreendo que a Esquerda, com a sua arrogância de quem tudo sabe e nada tem a aprender, esteja completamente inconsciente deste risco tão grave. Não, porque, para além do que a ciência possa vir ou não dizer, só encontro, na vida, dois momentos em que são detectáveis alterações qualitativas: na concepção, quando duas heranças genéticas se integram para constituir um património genético único, diverso de qualquer outro, e que se encontra na base de um indivíduo por isso mesmo ele também único e diverso de qualquer outro; na morte, com o regresso à indiferenciação. Entre estes dois momentos, só consigo ver alterações quantitativas e circunstanciais.Mas compreendo que a Esquerda, com o seu horror à diferença, faça tábua rasa desta evidência.Não, porque tenho uma cultura da vida: e uma promessa de vida, uma chama de vida, mesmo vacilante, com dez segundos, dez dias ou dez semanas é para proteger, para defender, e não para apagar. Esta é a cultura de vida que nasceu no Mediterrâneo e forjou a alma da Europa...quando a Europa tinha uma alma e sabia fazer mais do que meras contas de mercearia. E apagar uma vida, trémula ou firme, porque não se vislumbram "condições económicas ou sociais" para a manter acesa não passa de contas de mercearia. E sei do que falo: tinha já cinco filhos, e um orçamento que, na altura, se fizesse essas tais contas de mercearia, me dava para alimentar só um!Mas compreendo que a Esquerda, com a sua cultura de morte, o seu horror ao risco e o seu economicismo rasteiro, prefira o bem estar burguês tão adequado à sua alma burguesa. Não, finalmente, e independentemente disto tudo, porque não gosto de ser empurrado pelos dedos em riste do pregador Louçã e dos seus acólitos, marchando ao som das suas ordens guinchadas. Poderá mandar no eng Sócrates. Em mim, não, seguramente.

professor universitário

Claro que NÃO!

CRISTIANA GONÇALVES

Despenalização do Aborto até às 10 semanas? E a 11ª, 12ª em diante? Enfim…acho de facto interessante uma mulher não ser “condenada” por fazer tal acto até determinada data, mas se pensar fazê-lo depois já é uma homicida! Neste referendo não é isso que está em causa…

Vamos ter bom senso…este referendo não vai trazer consequências positivas à sociedade e às mulheres portuguesas, muito pelo contrário!

Vamos pensar com calma…porque é que o Governo em vez de estourar dinheiro em fazer abortos não cria formas de ajudar as mães e as crianças que nascem? Porquê? A solução é abortar? Matar? Muitos têm vindo a dizer que esta palavra tem sido usada com muita frequência por quem defende o NÃO! Mas o incrível é que esta palavra se adequa de modo perfeito à situação, é isso que acontece quando uma mulher faz um aborto…ela mata o seu próprio filho ou filha. Não vamos tapar esta realidade como se tapa o sol com a peneira!

Muitos dizem que será uma forma saudável para ajudar a saúde dessas mulheres e dessas crianças! Não o é…não acredito que uma jovem adolescente de 12, 13, 14 anos se dirija ao hospital para fazer um aborto, com o conhecimento dos pais, não o fará certamente, e assim o aborto clandestino continuará a existir. Se abortar não é um acto condenável então porque é que tantas mulheres o irão continuar a fazer “às escondidas”?

Uma das coisas mais surpreendentes para mim…é ouvir da boca do Primeiro-Ministro de Portugal dizer: “se o não ganhar a lei não se altera!”. Mas então esta questão que tanto se tem vindo a falar é para quê afinal? Existam tantas soluções! É pena e triste observar alguém que diz tanto tentar fazer por Portugal estar irredutível quanto à sua decisão! Mas se tudo correr bem o Sr. Eng.º Sócrates não será Primeiro-Ministro durante os próximos 20 anos…

Todos as que aqui deixaram o seu depoimento seja ele do NÃO ou do SIM, tiveram a liberdade para o fazer, uma consequência de um dia a mãe de cada um, não os ter retirado do seu ventre…

Coordenadora do Portal da Juventude de Gaia

SIM, POR AMOR À VIDA

NUNO LINHARES

Eu votarei SIM, como já o fiz em 1998. Os partidários do NÃO tem utilizado (felizmente não todos) argumentos que em nada dignificam aquilo que devia ser o confronto de ideias racionais sobre o tema. Deixo aqui um exemplo lançado pela Plataforma Não Obrigada que trouxe para o debate e combate ao SIM um argumento que me repugna: o económico.
E o direito a maternidade assumida e consciente depois do nascimento?
Quem tem o direito de condenar uma mulher que opta por não pôr um filho no mundo porque sabe que não o pode criar?

A actual lei não atenta contra a dignidade da mulher expondo de forma desumana na praça pública?
Eu voto SIM porque acredito em dois pressupostos que considero fundamentais:
- A despenalização não é sinónimo de desresponsabilização
- Qualquer que seja a futura decisão da mulher fará sempre POR AMOR À VIDA.

bancário e membro fundador do Clube

A despenalização do IVG : esperança...




DANIEL BRAGA

Mais importante do que o voto de cada um de nós pelo SIM ou pelo NÃO no referendo sobre a despenalização do aborto até às 10 semanas, é o contributo que todos podemos e devemos dar, de uma forma cívica e consciente, para que,a partir de agora seja possível a criação de condições para que mais mulheres não sofram a humilhação e a vergonha por um acto que voluntariamente nunca o fariam, e que deixem também de sofrer na pele o estigma que as marcará para sempre. Para que tal não aconteça, é necessário que substituamos no nosso vocabulário a palavra crime por mais planeamento familiar, mais e melhor aconselhamento médico e um maior acompanhamento das equipas de psicólogos e psquiatras a essas mesmas mulheres, muitas delas em gravidezes consideradas de risco. Um qualquer vão de escadanão pode nem deve ser solução para o para o problema da interrupção de uma gravidez que, por um qualquer motivo de força maior, não é desejada pela mulher.Mas também proponho que se reflicta sobre o reverso da medalha, isto é, não se tratando de aborto livre a pedido da mulher (contra o qual também me insurjo) o que fazer perante a tomada de uma decisão?A mulher decide e...ponto final?E decide porquê?Com a conivência do companheiro?E se decide sózinha, qual a posição do companheiro?Concordará? É certo que o corpo é da mulher, mas o filho foi gerado por ambos....E porque terá de ser forçosamente assim?E se ela,mesmo contra a vontade do companheiro, decide abortar?Que sequelas físicas e psíquicasficarão de uma tal decisão?A decisão de uma tal importância não deverá ser discutida, ponderada e partilhadaentre todos os intervenientes primeiros (a mulher, o companheiro, a família e as equipas de acompanhamento e aconselhamento)?E qual o papel do Estado?Porquê punir e não prevenir e ajudar? E não menos importante...o que foi destruído (não a coisa humana como alguém desagradavelmente lhe chamou), sendo já uma vida ou não, não teve hipótese de escolha e foi posto perante a não possibilidade irremediável de ser um dia um bébé passando por todas as etapas de vida e crecimento a que tem direito? E se fosse eu? Ou você?....Reflictamos um pouco e com o nosso voto consciente e responsável procuremos todos encontrar uma caminho e uma solução de dignidade.

professor

REFERENDO - A HIPOCRISIA

SANDRA MENDONÇA


Tenho uma amiga com 40 anos que nunca conseguiu engravidar. Já fez vários tratamentos, fertilizações, etc e sempre sem sucesso. Numa discussão acesa sobre o aborto, do qual ela é absolutamente contra e eu absolutamente a favor, cheguei à triste conclusão da razão que leva alguns portugueses a votarem contra o aborto ou em defesa da vida , da liberdade ou o que quer que lhe queiram chamar: A HIPOCRISIA!!!

Passo a explicar:

Ao justificar a sua opinião, a minha querida amiga, argumentava que não estava para pagar às outras mulheres para fazerem abortos, quando ela não conseguia sequer engravidar! Ao que eu argumentei, inteligentemente, achei eu, que só voltaria a discutir este assunto com ela, no dia em que ela tivesse a generosidade de adoptar uma criança.
Bem, a sua resposta foi, "Não vou ficar com o lixo que os outros deitam fora!"...Ficaram chocados ?! Eu também fiquei ! Mas não por muito tempo... Resolvi dissecar as palavras da minha amiga.

Ela tinha toda a razão! Era o que mais faltava, a coitada ter que ficar com o lixo dos outros! Verdade? Não é nada ético pensar assim, pois não? Pois não! Mas agora raciocinem comigo. Não são os portugueses os maiores defensores do embrião, do feto, da vida?! Não é tão estranho, então, que haja crianças em instituições, abandonadas, com fome, sem alguém que as ame incondicionalmente?

Então, quando saem da barriguinha da mãe, já não são vidas a proteger? Pois...uma criança dá trabalho, não é? Vamos pedir a esses senhores e senhoras por favor que dividam, dinheiro, afecto e tempo, com essas vidas que eles lutaram tanto para preservar! Ou será que agora que estão fora da barriguinha das mamãs, já são só mesmo, o lixo que os outros deitam fora?

web designer

Contra a ilusão do ‘Não’, vote ‘SIM’ porque devemos ajudar…

JOÃO CONCEIÇÃO


Eu não concordo que se deva abortar, mas o aborto é um problema REAL, tal como é real a fragilidade humana, as pessoas perderem-se, errarem…e estamos cá nós com a obrigação de TUDO fazer para as ajudar!
Este é para mim o problema principal, ao contrário da HUMANIDADE (em potência) existente num embrião com menos de 10 semanas.

Dizer ‘Não’ humilha, nada faz, criminaliza...não sendo já penalização suficiente não se poder aceder aos recursos médicos, ou até a própria situação em que essas mulheres caíram?
Não basta a humilhação e a sua infelicidade…para o ‘Não’ é necessário castiga-las pela sua irresponsabilidade.
O ‘Não’ provoca dor física e emocional.

Mas há esperança, há os que ajudam e acreditam ('SIM'), e HÁ os que pensam que são mais que os outros ('Não').

A responsabilidade ensina-se com Amor e proximidade, e não com leis e distância. Educar e Amar não é o mesmo que proibir!

Se a questão é económica, de dinheiro, deve-se pagar a ajuda dada, de acordo com os rendimentos da "vítima" (ou criminosa) como lhe queiramos rotular.

As pessoas do 'Não' no fundo não têm esperança de se poder atingir a perfeição na LIBERDADE que o ‘SIM’ oferece.

O 'Não' apenas considera aqueles a quem a sorte bafejou, seja por terem mais amor e ou dinheiro, distinguindo entre cidadãos de 1a e de 2a categorias.
O 'SIM' permite a pessoa cometer um erro, é realista, porque VÊ o mundo em que vivemos…

Ninguém é a favor de matar, apenas a mãe, e fa-lo-á, mesmo apesar das hipocrisias que lhe impõem o 'Não'!! Ela até PODE estar errada…é tão fácil julgar!

Mas nem mesmo Jesus condenou Maria Madalena.

Só proíbe quem pensa que é Deus, e mais que os outros..., e até alguns padres já se revoltam contra toda esta inércia mental e concordam com o 'SIM'…
Ver http://publico.clix.pt/shownews.asp?id=1285028&idCanal=21

Os ideais 'Não' valem por si só…, eles atingem-se 'SIM' ajudando o próximo.
Defender o ‘SIM’ é lutar por um REAL cada vez melhor, e aí talvez possamos nos aproximar do sonho, do IDEAL, evoluir e ajudar,... e se há quem irá abusar da liberdade, só em liberdade terão hipótese de aprender e despertar a sua consciência.

Porque não se preocupam os defensores do 'Não' em combater o egoísmo, a ambição desmedida, o ódio, a ingratidão, a soberba, a solidão, a ignorância...tudo sentimentos que geram abortos. Talvez porque necessitariam de olhar e julgar mais para dentro de si, do que perseguir quem está lá fora…

O 'Não' varre o problema para debaixo do tapete, esconde, humilha, criminaliza, pois umas quantas criaturas têm altos IDEAIS quais PAPAS no período da Inquisição...

O problema aqui é a ajuda a VERDADEIRAS vítimas que recorrem a esta prática dolorosa; o reconhecimento da triste situação em que se encontram, que nem direito a ideais ou a sonhar têm.

Antes de se preocuparem com VIDA e ALMAS por concretizar, vejam que VIDA, que IDEAIS, que SONHOS permitimos aos nossos vizinhos, ao nosso irmão, ao nosso familiar, enfim qualquer um que pode cair na infelicidade, e na desgraça...

Quem se julgam alguns entre nós que nos gritam e impõem suas regras.

Também eu faço parte da sociedade e dos seus filhos!

Hoje reinam entre nós certos Senhores, mas apenas um o É, apenas UM reconheço.

Que a nossa pena recaia sobre o 'SIM' no dia 11, por pena da humanidade, por pena das misérias que todos os dias nascem no seio da sociedade devido às nossas limitações, à nossa ignorância, ao mal que está dentro de cada um de nós.

Porque podemos ensinar, mas não impedir, Voto 'SIM'!

A consciência toma-se por si só, não se impõe.

Anarquia é o que já existe! Porquê continuar a proibir, a não ajudar!?

Temos que ter esperança, fé, e fugir da tentação de sermos Deuses perante os nossos semelhantes.
As regras sempre orientaram os homens mas apesar das boas intenções, nem sempre são boas e NUNCA SÃO POR SI SÓ PERFEITAS!!.

Quem age e apregoa o ‘NÃO’ não ensina, não AMA, Ilude-se, vangloria-se, proclama-se, impõe-se.

Outros talvez não tenham tido a oportunidade e as suas condições para definir e segurar, enlear suas fragilidades numa condição responsável. Que fazer? Punir? Negar as condições necessárias!? Humilhar quem já se encontra humilhado? Tenham vergonha!
Porquê considerar apenas vencedores e responsáveis... e vencidos e subjugados?….Até quando seremos tão limitados?

Em vez de filosofarmos sobre almas que ainda não são deste mundo, preocupemo-nos e demos as mãos às que por cá andam!

Também eu sou tendencialmente pelo 'Não', mas como sou pragmático e respeito meu semelhante, voto ‘SIM'

Respeitemos a vida, principalmente a que existe...


Empresário / Informático, Póvoa Sta. Iria

Sim.


MARTA AZEVEDO
Sim, concordo com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas.
Convém dizer que nenhuma mulher, faz um aborto por leviandade, e principalmente que nenhuma mulher o faz de animo leve. Nenhuma mulher com alternativa credivél, se priva de ter um filho, mas é dificil, e muitas vezes esta parece a solução mais fácil e mais rápida. Em duas horas e com o valor de alguns jantares o "problema" fica resolvido. Nenhuma mulher esqueçe se o fizer, e vai haver momentos em que essa imagem vai estar sempre presente. Naquela data, no miudo loiro que troca o olhar connosco, na amiga grávida, no Natal, no referendo... E, mesmo as que o façam por impulso, dias vai haver, em que até essas mulheres se vão lembrar de que já o fizeram. Porque francamente há coisas que não se esqueçem, e um aborto, é uma delas, mesmo que tenha sido essa a nossa escolha.Nem sempre fazemos as escolhas acertadas, mas, não será penalização suficiente essa memória (mesmo para os que não acreditam no inferno - há sempre a nossa consciência). E, mesmo que muitas façam do aborto um meio de contracepção, pelos erros de uns - que espero cada vez menos - devem pagar todos? Além disso, sejemos francos, quem quer fazer um aborto, vai continuar a faze-lo, ainda que sem condições dignas...
Ninguém mereçe penalização maior que passar pela situação de ter que escolher entre ter um filho ou não, em determinado momento....
E porque a lei é descriminatória, e a nossa vida muitas vezes também.


membro do clube

07/02/2007

INEQUIVOCAMENTE SIM…

NARCISO MIRANDA

No próximo dia 11 de Fevereiro os portugueses vão ser chamados, novamente, a manifestarem a sua opinião sobre a IVG (Interrupção Voluntária da Gravidez). Há cerca de oito anos, no último referendo, ganhou o NÃO em votação não muito expressiva e, por isso, temos mais uma oportunidade, uma grande oportunidade, para que, com o nosso contributo, se resolva um problema. O aborto existe. Faz-se todos os dias. São milhares de mulheres que todos os anos decidem, por opção, em consciência, abortar. Só que tudo é feito na clandestinidade, às escondidas, sem condições de segurança, sem dignidade, de forma humilhante para a mulher. Pretende-se resolver este problema. Acabar com a vergonha nacional do aborto clandestino, inadmissível num país desenvolvido e moderno que continua a fingir que nada se passa. A sociedade portuguesa já despenalizou o aborto ao tolerar a situação. No entanto, num Estado de Direito não é aceitável que exista uma lei que criminaliza o aborto, ao contrário do que acontece na maioria dos países comunitários, e depois fica tudo no faz-de-conta. Não acontece nada. Não. Isto não é solução. O problema existe e é necessário resolvê-lo. Não se trata de liberalizar, não se trata de legalizar, não se trata de nada disso. Trata-se de dar às pessoas um ombro, um apoio, uma resposta, uma orientação e, sobretudo, zelar pela sua saúde. Trata-se de acabar com esta injusta humilhação. O aborto não é pertença de ninguém, de partidos, de poderes instituídos ou de religiões. É uma questão das pessoas, de todos e de cada um. Por isso, pelo respeito que tenho pelas pessoas, pelos jovens, pelos mais desfavorecidos, pelas mulheres, no próximo Domingo, voto SIM. Voto SIM porque o Sim não promove o aborto. O que o promove é a clandestinidade, isso é a liberalização selvagem. Quem está contra a vida é quem empurra a mulher para o aborto clandestino. Voto SIM porque o que está em causa no referendo é tão só e apenas se a investigação e até a prisão é a resposta que a sociedade dá à mulher que aborta. Voto SIM porque o problema tem que deixar de ser tratado por sistemas policial e judicial para passar a ser tratado nos sistemas da saúde e apoio social. A nossa aversão à mudança não pode permitir que se perca esta grande oportunidade. Por isso, voto Sim porque esta é também uma questão de liberdade e civilizacional.

Referendo sobre o aborto



Quintino Oliveira

Cá estamos nós no dia 11 de Fevereiro perante mais um referendo sobre o aborto, verificamos, assim, que não é um problema de hoje, mas tenho esperança que, agora, seja resolvido de vez.Acabemos com a criminalização da mulher. Portugal é o país da Europa onde mais abortos se praticam ilegalmente por ano, onde mais mulheres morrem por causa de abortos clandestinos, realizados sem um mínimo de higiene e segurança. Acho que chegou o momento de sermos uma das poucas excepções da Europa.Não será pior deixar avançar uma gravidez indesejável?Liberdade não será permitir quem pretenda interromper a gravidez, como a liberdade de quem a pretenda prosseguir?Não sejamos como alguns que dizem que vão votar Não, mas que não querem a penalização da mulher.Não estou de acordo, com o que tem sido dito por apoiantes do Não, no que se refere ao aumento do número de abortos feitos por mulheres no caso de o Sim vencer. Pois noutros países tem acontecido precisamente o contrário, como por exemplo a França e a Holanda.Acho que no dia 11 vai acabar o egoísmo do Não ao aborto e vencerá o Sim, que embora, não seja sempre a favor do aborto, permitirá que este seja efectuado, por quem assim o entender, de forma legal e em condições de higiene e segurança e sem a mulher sentir a humilhação de um aborto clandestino.Por pensar assim, é que no dia 11 de Fevereiro vou votar Sim e faço daqui um apelo para que, quem não quer a penalização da mulher e pretenda a liberdade de quem quer interromper voluntariamente a gravidez ou livremente a prosseguir vote Sim.

engenheiro

PELO SIM , PELO NÃO

FREDERICO VALARINHO

Normalmente, muito antes de ser chegado o dia de colocar o papelinho dobrado em quatro dentro da urna, em eleições ou referendos, sei já qual vai ser o meu voto. Não preciso de debates nem de propagandas para tomar uma decisão e gabo-me de, até hoje, nunca me ter arrependido de votar em quem votei. Acho,contudo, que o referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, que vamos enfrentar no próximo dia 11 de Fevereiro, será uma das mais complexas decisões eleitorais da minha vida.Bem vistas as coisas, vote sim ou vote não, terei sempre razões para me arrepender. Se o sim ganhar, e considerando o nível cultural de uma população que faz do facilitismo um dos seus maiores defeitos, o aborto corre o risco de se transformar num método anticoncepcional radical, usado sem critério por quem se esqueceu do preservativo, da pílula ou, em última instância, da pílula do dia seguinte. Além disso, uma vitória do sim funcionará, igualmente, como uma tácita desresponsabilização do homem no processo reprodutivo. A mulher decide se aborta ou não, sem precisar de consultar o parceiro que forneceu o espermatozóide. Isto é, a lei passará a afirmar que, na reprodução, há células de primeira (os óvulos) e células de segunda (os espermatozóides). Estamos perante o feminismo levado às suas derradeiras consequências.Perante isto, posso votar não. Mas, ao fazê-lo, estarei a condenar à barra dos tribunais milhares de mulheres que, com as mais variadas e fundamentadas razões, decidiram não ter condições para trazer mais uma criança a este número. Estarei a condenar inúmeros casais a terem mais filhos do que aqueles que têm capacidade para sustentar. Estarei a ajudar inúmeros médicos, enfermeiras e parteiras a tornar ainda mais rica a mina de ouro do aborto clandestino. E estarei, em última instância, a dizer que a Lei é mais poderosa do que a Moral - o que me irrita profundamente.Restar-me-ia, perante um tal dilema, abster-me, deixando que outros decidam por mim. Fazê-lo, todavia, é um acto de insuportável cobardia que em momento algum aceitaria desempenhar. Se me abstivesse (ou votasse branco ou nulo),estaria a aceitar o papel do personagem do poema "A Indiferença", de Brecht- "agora levaram-me a mim, e quando percebi já era tarde".Não quero. Vou votar. Sim ou não, vou votar. Provavelmente a decisão será tomada no derradeiro instante, com a caneta na mão e o boletim à frente.Votarei e, tenho a certeza!, não me arrependerei do meu voto.

PRECISAMOS DE DESCANSO

MANUEL CARVALHO


Seja na democracia, no desenvolvimento ou na autonomização de uma verdadeira sociedade civil, é hábito nosso chegar tarde à História. Com a história da despenalização do aborto, não podia ser diferente. Desfasados do tempo, envolvemo-nos na pré-campanha como se de uma questão de vida ou de morte se tratasse. Batemos e rebatemos argumentos que outros europeus evocaram há 30 ou 40 anos: rediscutimos a moral pública e a liberdade individual, os limites do Estado e a influência da igreja, a biologia e o sistema nacional de saúde, a liberdade e a demagogia, o ser e o não ser. Não nos demos ainda conta de que tudo isto é retro, gasto, velho e relho, como o seria certamente o debate sobre as indulgências que levaram à Reforma, a pureza dos cristãos novos, o saber se a velocidade do vapor faz mal à vista ou se um dia D. Sebastião vai ou não regressar um dia no seu cavalo entre o nevoeiro.
Entre as exclusivas interpretações da vida do “não” e a reclamação do direito exclusivo de as mulheres mandarem na sua barriga dos que apelam ao “sim” sobra uma sensação de vacuidade e de arcaísmo que nem os que dos dois lados se esforçam por encarar racionalmente o problema são capazes de superar. Porque nada disto faz sentido, porque tudo isto deveria ter sido irremediavelmente resolvido há décadas. Perante o atraso, o Referendo parece uma dor que tem se suportar até que a ferida cure. E só curará quando Portugal (ou a Irlanda) deixar de ser uma excepção moralista e radicalmente conservadora, quando o país aceitar que o pretenso determinismo da moral católica não determina nem pode determinar em absoluto o sentido da existência de cidadãos livres e responsáveis no seio de uma sociedade e de um Estado laicos. Apesar do aborto ser um flagelo traumático e de a sua descriminalização implicar sobre ele o olhar frio das leis, a alternativa só pode ser pior.
Mesmo sabendo que haverá sempre quem conteste a realidade nua e crua dos factos, quem persista em recusar a realidade e o presente, confortemo-nos com a ideia que este Referendo pode apagar esta triste manifestação de anacronismo por uns anos. Se sim, seremos ao menos poupados à triste sina de viver dias como estes, em que sentimos no meio de um debate que cruelmente nos mostra como estamos desfasados da História.