21/06/2015

Os cereais no Alentejo - 3



Miguel Mota 
Para concluir a série de artigos sobre o que considero importante para, eventualmente, permitir cultivar economicamente trigo no Alentejo – e não só no Alentejo, mas principalmente nesta província – (Linhas de Elvas de 21-5 e de 4-6-2015), tratarei hoje do problema das rotações das culturas, ou seja, a sequência de espécies vegetais a cultivar no mesmo terreno ao longo de um certo número de anos.
Antigamente, depois de ter sido criada a Federação Nacional dos Produtores de Trigo (FNPT), a única cultura de que o agricultor sabia que teria toda a sua produção vendida e a preço conhecido era o trigo. Por essa razão, particularmente no Alentejo, era dada grande ênfase a essa cultura. As rotações eram geralmente pobres. Não eram raros os casos em que, a uma cultura de trigo, apenas com fertilização mineral, se seguiam um ou mais anos de pousio, só algumas vezes revestido com uma forragem, para voltar a fazer trigo. Nalguns casos, entre o trigo e o pousio, ainda se fazia um ano de aveia, para aproveitar os restos da fertilização. Este sistema, durante algumas décadas, reduziu grandemente o nível de fertilidade de muitos solos. Havia algumas honrosas excepções, mas não eram muitas.
Como o trigo é uma esgotante, eu acredito que, rotações das culturas em que entrem mais abundantemente plantas melhoradoras, como as leguminosas, possam elevar o nível de fertilidade do solo de forma a aumentar significativamente a produção de trigo. Há bons exemplos a demonstrá-lo. No III Congresso Internacional de Lupinus (o género a que pertencem os tremoços), um agrónomo americano descreveu ensaios com Lupinus angustifolius, o tremoço de folha estreita, que existe espontâneo em Portugal. Dos seus resultados concluiu que “aquela cultura  seria económica, mesmo deitando fora a colheita”. A razão é que a melhoria da fertilidade do solo causava um bom aumento na cultura que se seguia.
Em Portugal têm sido feitos vários estudos de rotações. Todos são valiosas contribuições mas ainda é necessário fazer muito e penso que falta, para o sequeiro alentejano, um ensaio de grande amplitude e com variadas composições, que dê uma informação precisa e economicamente quantificada, para poder ser usada em larga escala. Em Elvas, na Estação de Melhoramento de Plantas, na década de 1950, alguns ensaios mostraram a espectacular diferença que se conseguia com o incremento da cultura de algumas espécies forrageiras que, além de permitirem um grande aumento do número de ovelhas por hectare, aumentavam o nível de fertilidade do solo.
Há algumas décadas, fiz uma tentativa para a realização de um ensaio em larga escala, de grandes dimensões e com uma equipa multidisciplinar. Cada talhão do ensaio teria 100 metros de comprimento e uma largura que desse, com folga, para uma ceifeira ou ceifeira debulhadora, para as culturas serem mecanizadas. Com talhões desta dimensão e o número de repetições que o estatístico considerasse adequado, o erro experimental seria mínimo. Isto exige um campo com 150 metros de largura e 300 a 400 metros de comprimento, que não é difícil encontrar no Alentejo. Abordei a Fundação Eugénio de Almeida que, pela voz do seu então Administrador Delegado, dispensava a área necessária. Tudo o mais teria de ser do Projecto.
Contactei vários colegas, da Universidade de Évora e de outras instituições como a Estação Agronómica Nacional e a Estação de Melhoramento de Plantas, alguns dos quais estavam interessados em fazer parte da equipa. Essa equipa incluiria especialistas de cultura de cereais e forragens, química do solo, fitopatologia, nematologia, estatística, economia e mais alguns que se considerassem necessários. As rotações, a delinear em pormenor, começariam com uma bianual, trigo-forragem. Depois, uma série de combinações, a terminar com uma de cinco anos em que os primeiros quatro anos seriam de forragem seguidos de um de trigo. O campo seria acompanhado pelos diversos especialistas ao longo do ano, para recolha dos dados que considerassem necessários.
Ao fim deste ciclo de cinco anos já deveria haver informação muito valiosa mas, naturalmente, deveria ser continuado por outros cinco anos, para confirmação e ampliação dos dados. O objectivo era determinar o valor económico de cada rotação pois, como já vimos, uma cultura pode não dar lucro, mas deixar o solo mais rico, a beneficiar a cultura seguinte.
Abordei várias entidades para obter financiamento para o projecto, mas nenhuma se mostrou receptiva. Os resultados deste tipo de investigação, generalizados a muitos milhares de hectares, produzem retorno de várias vezes o valor neles investido. Ou seja, rendem juros que os nossos economistas não sabem que existem, mas são reais.
Calculando por baixo e considerando uma rotação que dê anualmente mais 100 € por hectare do que a que o agricultor usa actualmente – acredito que se consegue muito mais – e que é aplicável a uns 50.000 hectares, o PIB seria aumentado em 5 milhões de euros todos os anos.

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