12/06/2007

JUVENTUDE OU JUVENTUDES ? ( II )


Guacira Maciel



Entendo de fundamental importância sejam observados os momentos em se deve considerar o fenômeno “juventude” no singular e/ou no plural; entretanto, o seu universo, seja como for, precisa ser entendido de forma mais abrangente, apontar para a dilatação dos seus horizontes e estimular a utopia.
Entendo que educar e aprender, precisa ser, além de um ato político, um ato de prazer. Aqui gostaria de tomar como referência, um filósofo do Renascimento e um homem que mais que qualquer outro está presente nas propostas de educação que, entendemos contemporânea: o monge Erasmo de Roterdã. Na verdade ele é mais conhecido por sua famosa e fantástica obra “Elogio da Loucura”, uma sátira altamente sutil, à sociedade européia do séc. XVI (qualquer dia falaremos sobre ela). Mas sua proposta para uma educação pública é absolutamente atual, em se tratando de metodologia e visão conceitual de educação; a obra à qual me refiro é “De Pueris”.
Apesar de ter sido um educador das elites, tendo, inclusive, o seu trabalho pedagógico publicado sido dedicado a Henrique de Borgonha, filho de Adolfo, príncipe de Veers, ele declarou que seu maior interesse era atingir em sua proposta, a grande quantidade dos que não tiveram a sorte de ter um preceptor nem a condição de freqüentar cursos particulares, que eram privilégio dos “apaniguados” da fortuna. Trouxe aqui este sábio filósofo, para enfatizar o que hoje consideramos fundamental à educação e achamos ser fruto das nossas “mentes brilhantes”: o estímulo ao prazer de aprender; para isso ele considerava importante a “descontração pedagógica” e defendia uma educação pautada na leveza, vez que entendia ser a Arte fundamental e questionava: “que de mais ameno que as fábulas dos poetas? elas têm o condão de cativar os ouvidos infantis”. Fala ainda que amar o educando era condição primordial e que “sob essa condição a criança aprende com maior receptividade [...] por isso convém que o preceptor, de algum modo, saiba fazer-se criança...” Erasmo também entendeu ser importante que o trabalho pedagógico estivesse ligado a um contexto, pois aconselhava que, às histórias, “sentenças breves e dinâmicas” fossem acrescentadas, além de também propor que “por isso sejam as histórias transformadas em desenhos [...] muitas crianças se distraem com pinturas de caçadas. Naquela oportunidade calha bem falar das espécies de árvores, ervas e quadrúpedes. Assim, aprendem de modo ameno, como se estivessem brincando”.
Entretanto, o que mais me espanta na proposta pedagógica de Erasmo, vem ao encontro do assunto que me trouxe aqui, a questão da valorização do conhecimento informal construído pelo jovem, fora da escola e o protagonismo juvenil, numa primeira instância, evidenciado pela necessidade de expressar-se à sua maneira, à maneira da sua “tribo”, do seu grupo de pertença. Ela fala que o educador não tinha a função de “plasmar” o aprendizado espontâneo que a criança/jovem já havia construído e sim, ir ao encontro daquela potencialidade, ajudando-o a enriquecer, a reconstruir, e ressignificar, conforme entendemos hoje, através da aprendizagem escolar. Inclusive o termo que usa em latim é o verbo “excolere”, que significaria “fazer sair pelo trato”, ou seja o educador acolhendo o que o jovem já sabe, e de onde deriva o termo “escola”.
Quero finalizar, com a sensível palavra do “mestre” sobre como ele entendia um professor: “...a cujo regaço possa confiar teu filho como o nutriz ao seu espírito a fim de que, a par do leite, sorva o néctar das letras...”


escritora e educadora em Salvador da Bahia