13/06/2007

OTA: a volta do bom senso?


Mário Russo

As mais recentes notícias sobre a posição do ministro Mário Lino, na Assembleia da República, admitindo pela primeira vez que o governo vai encomendar ao LNEC um estudo comparativo entre Alcochete e a OTA, vêm dar razão àqueles que se opunham ao facto consumado. Com efeito, não se percebia porque um governo que pretende construir um novo aeroporto para a capital do país (obra para mais de 50 anos) não a queira realizar nas melhores condições técnicas, ambientais e económicas, só porque eram outros a indicar a localização. Se o governo tivesse oposição à construção de um novo aeroporto para a capital, justificaria a sua insistência, mas não. Toda a oposição deu de barato que um novo aeroporto seria necessário. Por isso, tendo já este apoio, só uma manifestação de autismo e autoritarismo poderia justificar a posição até aqui assumida pelo PM José Sócrates e do seu ministro das obras públicas. A iniciativa da CIP, ou do seu presidente, não pode deixar margem para dúvidas face à qualificação e idoneidade dos responsáveis pelo estudo. Só espero que não apareça um iluminado que venha contestar porque um dos coordenadores do estudo é o Prof. Carlos Borrego, antigo ministro do Ambiente de um governo do PSD. Valeu a pena insistir no combate à insensatez governativa pela opção OTA, mas não podemos desarmar. Gostaria de saber, por exemplo, o que o governo vai fazer ao estudo apresentado pela CIP.
A mensagem que se quis fazer passar de que a opção OTA era técnica, não é correcta, porque na verdade era uma legítima opção política, só que não era suportada tecnicamente, pese embora haver um estudo prévio de incidências ambientais que o governo teima em referir como justificativo da localização. A chantagem ambiental sobre a margem sul do Tejo deve também ser denunciada, designadamente os corredores ecológicos muito vagos e a existência do aquífero da península de Setúbal (está a 150 m de profundidade) e que, curiosamente, margina os terrenos da OTA. A localização do novo aeroporto, seja qual for, é que não é problema para a engenharia. Na OTA, mesmo com os movimentos astronómicos de terras, as obras de desvio e entubamento dos dois rios e da ribeira, da barragem de protecção contra inundações, não constituem obstáculo para a engenharia civil nacional. A incógnita é a que preço ambiental e financeiro. Certamente que não serão os 3.1 mil milhões anunciados, mas provavelmente o dobro. Um desperdício de dinheiro quando o país se defronta diariamente com o encerramento de unidades diversas pelo país fora e estrangeiro a título de racionalização da despesa. Bem-vindo o bom senso e o recuo do governo, que espero ser real e próprio dos estadistas e não um subterfúgio para um ataque final.

engenheiro, membro e bloguista do clube