26/02/2016

As cheias e a erosão dos solos



Miguel Mota 
O solo agrícola é algo muito precioso. É ele que está na base da agricultura, seja um pequeno canteiro de alfaces ou uma floresta. Leva dezenas ou centenas ou milhares de anos a formar, mas pode ser destruído em pouco tempo. Há que tudo fazer para o conservar e melhorar.
A área agrícola tem vindo a sofrer reduções muito grandes, com o incremento das áreas ocupadas pelas construções para habitação, indústria, estradas, caminhos de ferro e aeroportos. As recentes cheias, que assolaram várias regiões do país, vieram lembrar outro mal, que é a degradação do solo agrícola em consequência da erosão a que tem estado sujeito.
Aquelas imensas quantidades de água da cor de chocolate arrastam para o mar muitas toneladas da parte mais preciosa do solo de onde foi arrancada.
A melhor forma de combate, para evitar ou reduzir os males das cheias, é actuar sobre toda a bacia de recepção, a área onde cai a água que se vai acumular nas zonas mais baixas, a caminho para um rio ou o mar. Esse combate visa que toda ou parte da água caída nessa área se infiltre no solo. Nas zonas montanhosas, é normalmente possível com a arborização, de forma a conseguir reter a água. Também são úteis, para reter a água e reduzir a sua velocidade, as pastagens de montanha, quando é possível instala-las. Note-se que estas ações têm interesse económico, além da sua importância para evitar ou atenuar as cheias. E a água que se infiltra vai aumentar os aquíferos, um outro ponto importante. As lavouras segundo as curvas de nível são outra forma de evitar o escorrimento superficial.
Por várias vezes lembrei – e outros também o fizeram – que é muito importante a arborização da serra do Algarve, uma faixa de cerca de 100 km de comprimento e 20 km de largura, que vai da serra de Monchique até perto da fronteira com Espanha. Quase toda descarnada, apenas com alguns pontos arborizados é, em grande, parte pouco ou nada produtiva e incapaz de reter a água. Disso muito se ressentem os aquíferos da zona baixa, uma faixa de cerca de 20 km de largura. Monchique, a única parte bem arborizada, é uma boa indicação do que pode ser o resultado da arborização.
Quando, apesar do que se fizer, ainda muita água corre em ribeiras, especialmente com grande inclinação, há processos de correcção torrencial, para atenuar a velocidade  da água. No século XX Portugal teve um especialista nessa técnica, o Engenheiro Silvicultor Mário Galo, que deu um bom contributo para a correcção torrencial, através de pequenas barragens de lajes.

Naturalmente, quando a precipitação é muito intensa em curtos períodos ou é muito prolongada, como já tivemos este ano de 2016, mesmo com as melhores técnicas é impossível evitar muitos males.

2 comentários:

  1. Sr. Miguel MOTA. Muito boa noite. Eu estarei talvez desactualizado das novidades na agricultura em Portugal. Aprecio a sua chamada de atenção para a florestação, da Serra De Monchique. Eu quando vou a Portugal sempre que posso planto uma arvore. Até ja levei daqui castanheiros enxertados. Plantei-os. Dois dias depois de volta a Suissa passei la para lhes desejar bom crescimento. Ja la nao estavam. Em Portugal é assim ou se rouba ou se mete o Fogo e queima-se tudo. Arborizar a serra de Monchique ou uma qualquer outra para que ?
    Sr. MOTA se a saude e as finanças lhe permitirem faça o trajecto que lhe vou sugerir: Há pouco tempo foi com o meu camion levar os moveis de duas familias suissas que foram para aí vivêr (enganados)uma em Portimao outra em Faro. Para conhecêr o sul da Espanha que nao conhecia a 1° vêz fui por Cordoba, Sevilha e Vila Real de S Antonio.
    A 2° fiz Salamanca, Caceres, Badajoz.
    Sr. Mota vá até Caceres e depois desça até Sevilha e volte a Portugal por VRSAntonio.
    So lhe peço que olhe para o que verá de um e outro lado da estrada em Espanha e depois em Portugal.
    Amanha começa em Paris a Feira da Agricultura. Sabe quantos agricultores franceses se suicidam por ano ? entre 600 e 800.
    Sabe quantas Escolas superiores de Agricultura existem aqui na Suissa ? quase cada Cantão têm uma e não tem lugar para tantos alunos candidatos.
    Ainda hoje estive com um Filho de um diplomata Australiando que chegou a Suissa para se formar em engenharia agricola. Mas aqui quem péga na enchada são os portugueses.
    O Sr.Mota Da-se conta que o unico Engenheiro agricola de sua referencia é um Homem do passado. Até pensei que o Sr ia falar de Sousa Veloso. Parece-me que Amilcar CABRAL também obteu uma formação de Engenheiro Agricola.
    O Povo português é um povo desnaturado.
    Olhe à sua volta Sr Mota e vêja se consegue compreendêr alguma coisa: AS florestas queimadas, os rios poluidos, a cabeça dos poluidos políticos que nos governam mais poluida que o Tejo no Caia Ou o Vouga em Cacia. Essas leisitas à esquerda e a direita, que nem têem direita nem esquêrda.
    Com o que vejo e analiso aqui por estes lados, eu penso que não é uma cheia mas sim uma tromba de agua que vai levar tudo pela frente erosível ou não.
    Escreva uma crónica à volta da sua viagem.
    Nelson Fernandes
    Genébra 26.02.16

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  2. Agradeço o seu comentário, Sr. Nelson Fernandes. Há muito que sei como está a diferença entre a agricultura portuguesa e a espanhola. No "Linhas de Elvas" de 24 de Abril de 2014 publiquei o artigo “Agricultura de Portugal e agricultura de Espanha” em que mostro bem essa diferença
    Durante umas décadas, Portugal teve governos que se dedicaram à tarefa de destruir a agricultura. O máximo da intensidade ocorreu no governo PS de Sócrates. Ao mesmo tempo, espalhava-se a ideia que Portugal não tinha condições para fazer agricultura e essa era considerada para desaparecer. Todos os governos, desde o PS de 1995, têm um ministro a que chamam da Economia, mas não é. É só de parte da economia, ou seja, comércio e indústria. Consideravam que agricultura e pescas eram para acabar e muito fizeram para isso. Considero um crime, que custou ao país uma fortuna fabulosa, talvez maior que a monstruosa dívida, acumulada desde 2005.
    A ministra Ascensão Crista, da coligação que governou de 2011 a 2015, travou a destruição e tomou algumas medidas que foram suficientes para ter a agricultura a crescer bem mais do que os outros sectores. E os que clamavam que Portugal não tinha condições para a agricultura, passaram a considera-la de grande importância económica.
    Na serra que separa o Algarve do Baixo Alentejo, Monchique é a única parte bem arborizada. Era assim que devíamos ter todo o resto.
    Miguel Mota



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