08/12/2015

Quanto vai durar o Governo de esquerda?



Os três partidos que vão apoiar o Governo de António Costa (PS, PCP e BE, porque Os Verdes são um adereço) têm naturezas diferentes e têm motivações diferentes.
Comecemos pelas motivações.
A motivação do PS é a sobrevivência do seu líder – e, à boleia desta, conseguir uns milhares de lugares pelo país fora. Toda aquela gente que foi varrida dos lugares há 4 anos tem esperança de regressar.
Por isso, nunca tive dúvidas de que a coligação à esquerda seria aprovada pela esmagadora maioria do Partido Socialista. Quem se filia nos partidos do centrão tem sempre em vista conseguir um lugarzinho público…
A motivação do BE é diferente. Os bloquistas não estarão à espera de muitos lugares. O seu objetivo é outro: é uma espécie de ‘certificação de importância’. Tendo crescido muito eleitoralmente, o BE quer agora ter estatuto, quer ser reconhecido pelo regime. E também é evidente que Catarina Martins está deslumbrada pela importância que ganhou, parecendo encandeada pelos flashes das câmaras dos fotógrafos e pela atenção mediática.
A motivação do PCP é outra ainda. Tendo sido ultrapassado pelo Bloco de Esquerda nas eleições, agarra-se a esta entrada na área do poder como a uma boia de salvação. O PCP estava em risco de se tornar irrelevante em termos parlamentares – e assim torna-se de repente decisivo em qualquer votação. A queda do Governo depende dele.
Estas são as motivações dos três partidos. Outra coisa diferente é a sua natureza.
A natureza do PS é a de um partido burguês. Fundado por um bon vivant chamado Mário Soares, é profundamente anti-comunista na sua génese. Inscreviam-se no PS aquelas pessoas da oposição ao Estado Novo que não queriam nada com o Partido Comunista. O PS é herdeiro do Partido Republicano, que se distingue radicalmente dos comunistas.
Além disso, ao contrário do PCP, o PS não é um partido operário. É um partido, como se disse, da burguesia, e a sua força decorre do voto e não da presença nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, etc. É um partido de eleitores, que vale pelo número de pessoas que nele votam em cada eleição.
O BE é também um partido de eleitores, mas com estruturas muitíssimo mais frágeis do que o PS. Não tem implantação operária, nem sindical, nem nada. Ora, um partido de esquerda sem implantação operária é um fenómeno conjuntural. Vive muito de lideranças pontuais e do seu mediatismo. Ontem era Francisco Louçã, hoje é Catarina Martins. A sua votação é um carrocel. Já esteve à frente do PCP, já desceu muito abaixo, voltou a subir, pode voltar a baixar. Depende do momento. Aposta tudo na queda do PS e em atrair parte do seu eleitorado mais à esquerda.
O PCP é totalmente diferente dos outros dois. Esse, sim, tem implantação operária. Não é um partido de eleitores mas um partido de militantes e de células. Mantém uma estrutura leninista. Não vale sobretudo pelos votos mas pela sua influência na Intersindical e na implantação nas comissões de trabalhadores, nos sindicatos, etc. Não quer aparecer nas manchetes, como Catarina Martins, quer ter influência no mundo do trabalho.
Por isso, a sua força ultrapassa em muito o seu resultado eleitoral, ao contrário do BE, que depende inteiramente dele.
Ora, como é que estes 3 partidos vão funcionar no apoio a um Governo?
O PS vai apoiar o Governo até ao fim, como é óbvio, porque é um Governo seu e porque, quando cair, lá se vai António Costa e lá se vão os lugares.
O BE também vai esticar ao máximo a continuidade do Governo. Só existindo no Parlamento, com pouca influência fora dele, o BE vai tentar levar o mais longe possível a legislatura. E quando esta acabar, vai atirar as culpas para o PS. Porque o seu objectivo é canibalizar o PS, visto que o eleitorado do PCP é muito estável e disciplinado.
A maior incógnita é o PCP. O qual, ao contrário dos outros dois, não vai transigir nos princípios. A maleabilidade táctica dos comunistas é muito pequena. Como Jerónimo já disse, vai votar tudo o que, no seu entender, for a favor dos portugueses, e recusar tudo o que for contra. Ora isto vai provocar, mais cedo ou mais tarde, a queda do Governo, porque obrigatoriamente surgirão medidas que o PCP considerará serem ‘contra os portugueses’ e votará contra.
Assim, prevejo que António Costa vá ver-se muitas vezes entalado entre as exigências de Bruxelas e a inflexibilidade dos comunistas. E a corda partirá por um lado ou por outro. O PCP recusar-se-á obstinadamente a aprovar certas medidas -- e Bruxelas acabará por partir a louça, os juros começarão a subir e a situação tornar-se-á insustentável.
Pelo que tenho observado, duvido que a coligação dure mais de um ano. Note-se que o PS tem de negociar medida a medida, lei a lei, com o PCP e com o BE. Isto é esgotante. E quando as coisas aquecerem começam as greves, as manifestações da CGTP, etc., criando muito mal-estar na coligação. O ódio entre comunistas e socialistas regressará. E quem procurará retirar dividendos dos estilhaços será, como se disse, o Bloco de Esquerda.
Quando o Governo cair, o PCP ficará como dantes e o PS verá o seu eleitorado encolher brutalmente. Porque nessa altura ninguém confiará no Partido Socialista. Os eleitores moderados já não cairão noutra -- e votarão no PSD. Os esquerdistas votarão no BE. E o PS só ficará com os históricos, com os fieis, que não são muitos.

José António Saraiva 
director Sol 

2 comentários:

  1. Os partidos de esquerda encontrarao a forma de sanar as diferencas. Chama-se a isso dialogo, coisa que a coligacao de direita nunca soube executar. E a esquerda, sabera' manter-se junta pois, tem o interesse da Nacao, como forca motriz. Que alternativas restam? Voltar a' PaF?

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  2. O sr parece mais uma vidente do que o director dum jornal...
    Quanto aos partidos de esquerda, entenda, que precisam menos de lições de democracia que os de direita, esses sim, têm um sentido único espezinhar sem dó nem piedade.
    Há medicamentos em falta nas farmácias mas que eu saiba para a azia não faltam...

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