17/05/2015

CARTA DO ALUNO AO PROFESSOR

Senhor Professor, Sou obrigado a escrever-lhe, nesta data, depois de ter escutado, com toda a atenção, a aula de História, que nos deu sobre a Revolução de Abril de 1974. Li todos os apontamentos que tirei na aula e os textos de apoio que me entregou para me preparar para o teste, que o Senhor Professor irá apresentar-nos, na próxima semana, sobre a Revolução dos Cravos. Disse o Senhor Professor que a Revolução derrubou a ditadura salazarista e veio a permitir o final da Guerra Colonial, com a conquista da Liberdade do Povo Português o dos Povos dos territórios que nós dominávamos e que constituíam o nosso Império. Afirmou ainda que passámos a viver em Democracia e que iniciámos uma nova política de Desenvolvimento, baseada na economia de mercado. Informou-nos também que a Censura sobre os órgãos de Comunicação Social terminara e que a PIDE/DGS, a Polícia Política do Estado Fascista acabara, dando a possibilidade aos Portugueses de terem liberdade de expressão, opinião e pensamento. Hoje, todos eles podem exprimir as suas opiniões nos jornais, rádio, televisão, cinema e teatro, sem receio de serem presos. Disse igualmente que Portugal era um país isolado no contexto internacional e que agora fazemos parte da União Europeia e temos grande prestígio no mundo. Que somos dos poucos países da União a cumprir, na íntegra, os cinco critérios de convergência nominal do Tratado de Maastricht para fazermos parte do pelotão da frente com vista ao Euro. Li os textos de apoio do Professor Fernando Rosas, onde me informam que os Capitães de Abril são considerados heróis nacionais, como nunca houvera antes na nossa história, e que eles são os responsáveis por toda a modernidade do nosso país, pois se não tivesse acontecido a memorável Revolução, estaríamos na cauda da Europa e viveríamos em grande atraso, em relação aos outros países, e num total obscurantismo. Tinha já tudo bem compreendido e decorado, quando pedi ao meu pai que lesse os apontamentos e os textos para me fazer perguntas sobre a tal Revolução, com vista à minha preparação para o teste, pois eu não assisti ao acontecimento histórico, por não ter ainda nascido, uma vez que, como sabe, tenho apenas dezasseis anos de idade. Com o pedido que fiz ao meu pai, começaram os meus problemas pois ele ficou horrorizado com o que o Senhor Professor me ensinou e chamou-lhe até mentiroso porque conseguira falsificar a História de Portugal. Ele disse-me que assistira à Revolução dos Cravos dos Capitães de Abril e que vira com «os olhos que a terra há-de comer» o que acontecera e as suas consequências. Disse-me que os Capitães foram os maiores traidores que a nossa História conhecera, porque entregaram aos comunistas todo o nosso império, enganando os Portugueses e os naturais dos territórios, que nos pertenciam por direito histórico. Que a Guerra no Ultramar envolvera toda a sua geração e que nela sobressaíra a valentia dum povo em armas, a defender a herança dos nossos maiores. Que já não existia ditadura salazarista, porque Salazar já tinha morrido na altura e que vigorava a Primavera Marcelista que, paulatinamente, estava a colocar Portugal na vanguarda da Europa. Que hoje o nosso país, conjuntamente com a Grécia, são os países mais atrasados da Comunidade Europeia. Que Portugal já desfrutava de muitas liberdades ao tempo do Professor Marcelo Caetano, que caminhávamos para a Democracia sem sobressaltos, que os jovens, como eu, tinham empregos assegurados, quando terminavam os estudos, que não se drogavam, que não frequentavam antros de deboche a que chamam discotecas, nem viviam na promiscuidade sexual, que hoje lhes embotam os sentidos. Disse-me também que ele sabia o que era Deus, a Pátria e a Família e que eu sou um ignorante nessas matérias. Aliás, eu nem sabia que a minha Pátria era Portugal, pois o Senhor Professor ensinou-me que a minha Pátria era a Europa. O meu pai disse-me que os governantes de outrora não eram corruptos e que após o 25 de Abril nunca se viu tanta corrupção como actualmente. Também me disse que a criminalidade aumentara assustadoramente em Portugal e que já há verdadeiras máfias a operar, vivendo à custa da miséria dos jovens drogados e da prostituição, resultado do abandono dos filhos de pais divorciados e dum lamentável atraso cultural, em virtude de um Sistema Educativo, que é a nossa maior vergonha, desde há mais vinte anos. Eu fiquei de boca aberta, quando o meu pai me disse que a Censura continuava na ordem do dia, porque ele manda artigos para alguns jornais e não são publicados, visto que ele diz as verdades, que são escamoteadas ao Povo Português, e isso não interessa a certos órgãos de Comunicação Social ao serviço de interesses obscuros. O meu pai diz que o nosso país é hoje uma colónia de Bruxelas, que nos dá esmolas para nós conseguirmos sobreviver, pois os tais Capitães de Abril reduziram Portugal a uma «pobreza franciscana» e que o nosso país já não nos pertence e que perdemos a nossa independência. Perguntei-lhe se ele já ouvira falar de Mário Soares, Almeida Santos, Rosa Coutinho, Melo Antunes, Álvaro Cunhal, Vítor Alves, Vítor Crespo, Lemos Pires, Vasco Lourenço, Vasco Gonçalves, Costa Gomes, Pezarat Correia... Não pude acrescentar mais nomes, que fixara com enorme sacrifício e trabalho de memória, porque o meu pai começou a vomitar só de me ouvir pronunciar estes nomes. Quando se sentiu melhor, disse-me que nunca mais lhe falasse em tais «sacanas de gajos», mas que decorasse antes os nomes de Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Diogo Cão, D. João II, D. Manuel I, Bartolomeu Dias, Afonso de Albuquerque, D. João de Castro, Camões, Norton de Matos, porque os outros não eram dignos de ser Portugueses, mas estes eram as grandes e respeitáveis figuras da nossa História. Naturalmente que fiquei admirado, porque o Senhor Professor nunca me falara nestas personagens tão importantes e apenas me citara os nomes que constam dos textos do Professor Fernando Rosas. Senhor Professor, dada a circunstância do meu pai ter visto, ouvido, sentido e lido a Revolução de Abril, estou completamente baralhado, com o que o Senhor me ensinou e com a leitura dos textos de apoio. Eu julgo que o meu pai é que tem razão e, por isso, no próximo teste, vou seguir os conselhos dele. Não foi o Senhor Professor que disse que a Revolução nos deu a liberdade de opinião? Certamente terei uma nota negativa, mas o meu pai nunca me mentiu e eu continuo a acreditar nele. Como ele, também eu vou pôr uma gravata preta no dia 25 de Abril, em sinal de luto pelos milhares de mortos havidos no nosso Império, provocados pela Revolução dos Espinhos, perdão, dos Cravos. O Senhor disse-me que esta Revolução não vertera uma gota de sangue e agora vim a saber que militantes negros que serviram o exército português, durante a guerra, que o Senhor chamou colonial, foram abandonados e depois fuzilados pelos comunistas a quem foram entregues as nossas terras. Desculpe-me, Senhor Professor, mas o meu pai disse-me que o Senhor era cego de um olho, que só sabia ler a História de Portugal com o olho esquerdo. Se o Senhor tivesse os dois olhos não me ensinaria tantas asneiras, mas que o desculpava porque o Senhor era um jovem e certamente só lera o que o Professor Fernando Rosas escrevera. A minha carta já vai longa, mas eu usei de toda a honestidade e espero que o Senhor Professor consiga igualmente ser honesto para comigo, no próximo teste, quando o avaliar. Com os meus respeitosos cumprimentos O seu aluno

5 comentários:

  1. Estimado " ALUNO" a sua "CARTA" esta simplesmente Excelente. Bravo !!!
    NMF

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  2. Caro aluno. O seu pai faz como muito incapazes da sociedade fazem: culpam os outros. Sobretudo quando a democracia, nao se faz num momento so' - mantem-se.
    Depois, a culpa e' dos outros e com a frustracao, ate' se passa a desejar a ditadura outra vez. A' espera que uma figura sinistra, decida a nossa vida. Da' menos trabalho.
    Quanto a ser religioso, depende da educacao que cada um da aos seus filhos. Culpa dos comunistas, e' que nao deve ser. Alem do mais, os comunistas nunca estiveram em nenhum governo, destas muitas decadas em que destruiram o herario publico. Por isso, o seu pai esta' descontente com estas politicas? Ele que use o voto e mude o destino do Pais. Que acorde!

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  3. Caro aluno, se tem só dezasseis anos e tem um pai assim o melhor é de facto continuar a estudar com quem sabe e conhece a história, pois o seu pai só soma ódio e vingança sobre aqueles que libertaram este país duma ditadura - seja salazarista ou marcelista - ignóbil e que transformou o nosso querido país numa quinta de meia dúzia de famílias e de milhões de famintos e miseráveis, sem água, sem luz e sem o mínimo básico para viver e disso sei eu que o vivi na pele numa aldeia recôndita do meu querido concelho de Amarante. Sabe o meu jovem amigo que nesse tempo de que o seu pai tem saudades mais de 90% das habitações não tinha sequer uma sanita quanto mais água canalizada.....sabe o meu jovem amigo que nesse tempo um homem com 60 anos (sexagenário) era já considerado um velho e não servia para nada e que quando chegavam a essa idade iam pedir com um saco às costas pois quase ninguém tinha reformas e sabe o meu jovem aimgo que grande parte dos recèm nascidos morriam logo no parto quantas das vezes com as suas próprias mâes sem qualquer assistência pois as parteiras eram as avós ou a vizinha habilidosa. E sabe o meu jovem amigo que se estivesse a conversar com mais que 2 amigos e algum "bufo" (informador da PIDE ou DGS depois do Marcelo) o denunciasse você ia parar à Rua do Heroísmo onde era espancado e maltratado pelo simples facto de ter sido denunciado mesmo que estivesse a falar de futebol....Se o seu pai tem saudades desse tempo diga-lhe como jovem que é que não quer tal regime e que com todos os defeitos que este tem - repare que os comunistas já não participam no no Governo desde 1976 e mesmo em 1974/75/76 sempre estiveram em minoria nos mesmos e foi de facto depois que eles saíram que o nosso país e os seus trabalhadores perderam muito de que Abril e os seus capitães tinham prometido dar. Por isso e se quer de facto melhorara este país ajude a que eles regressem e nos ajudem a sair do buraco em que os sucessivos governos do PS/PSD/CDS nos meteram...tenha uma boa semana. António Magalhães-Canelas-Vila Nova de Gaia-tlm: 967570718

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  4. Até pensei, que tinha escrito este texto e não me recordava!!!
    Parabéns ao pai do aluno, e ao aluno pelo pai que tem!!

    Hercília Oliveira

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    1. Com pais destes nem sequer poderíamos ter este salutar diálogo. Eu pelo menos já tinha um PIDE à porta pra me levar até à Rua do Heroísmo e me ensinar as "boas maneiras" à moda fascista ou seja "porrada" indiscriminada como aconteceu a muito boa gente entre os quais alguns amigos meus. Por isso aconselho ao jovem que repita muitas vezes 25 de ABRIL SEMPRE! fascismo NUNCA MAIS! António Magalhães

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