08/01/2015

O potencial agrícola de Portugal




Miguel Mota
Embora a ministra Assunção Cristas tivesse dado a volta às ideias que vigoravam em Portugal em relação à agricultura, ainda por aí anda muita gente que só fala nas dificuldades naturais – a que se juntam as artificiais... – para justificar uma pobre agricultura ou para desculpar muitos insucessos
Passemos em revista algumas das dificuldades. Concordo que são reais e é pena que existam. Mas temos de viver com elas e, em vez de cruzar os braços e lamentarmo-nos, procuremos corrigi-las ou tirar partido delas.
Muitos dos solos de Portugal são ácidos e inconvenientes para variadas culturas. É verdade. Mas a acidez do solo corrige-se com a calagem, a aplicação de algum material alcalino, que até pode ser calcário moído.
 Muitos solos sofrem erosão. É algo de que se queixam desde a Campanha do Trigo, sem nada fazerem para a combater. E há variados processos, sem ser preciso deixar a terra a mato. Que me recorde, apenas vi fazer bom combate à erosão, na década de 1950, nas herdades do Eng.º agrónomo Sardinha de Oliveira.
Muitos dos solos portugueses têm escassa matéria orgânica. Isso foi consequência de rotações paupérrimas, esgotantes, durante muitos anos, sem que os agricultores se apercebessem disso. Depois de um pousio, de um ou mais anos, apenas algumas vezes revestido, cultivava-se trigo, que normalmente só levava fertilização mineral. Algumas vezes ainda se fazia, depois, um ano de aveia, para aproveitar os restos.
O Alentejo ainda hoje sofre desse mal.  A solução é a utilização de rotações com maior predominância de leguminosas. Ao fim de alguns anos, o nível de fertilidade melhora. Temos alguns bons exemplos desse facto e nunca me esqueço do trabalho de um americano, apresentado em França, no III Congresso Internacional de Lupinus, em 1984. Lupinus é o género botânico a que pertencem os tremoços, da família das  Leguminosas. O agrónomo americano que apresentou um estudo de rotações que incluíam o Lupinus angustifolius, o tremoço de folha estreita, espontâneo em Portugal, declarou: “esta cultura seria económica, mesmo deitando fora a colheita”. A razão era por ter deixado a terra mais fértil, o que se refletia na produção da cultura seguinte.
Outro problema é a drenagem. Ainda vemos, nos invernos muito chuvosos, vastas áreas alagadas, o que, especialmente para os cereais, é responsável por uma asfixia das raízes, que não se desenvolvem em profundidade. No Alentejo, quase sem primavera – passa-se rapidamente de um tempo frio e chuvoso para um quente e seco – este problema é grave e explica, como bem demonstrou o Eng.º Sardinha de Oliveira, porque é que a produção de trigo era melhor nos anos de inverno pouco chuvoso. Se a terra for drenada, por qualquer dos processos existentes, esse mal deixa de existir.
Com o regadio, há muito maior controle sobre as culturas e o recente alargamento da área regada, com o Alqueva, permitiu aumentar significativamente as nossas produções, especialmente de algumas culturas.

Se tivéssemos a Holanda e a Holanda é que fosse dona deste bocadinho da Europa, não me admirava que tivéssemos um pântano e invejássemos este país à beira mar plantado, com o seu bom clima, que lhe permite obter tão saborosos frutos.

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