11/11/2014

Ana Drago e Daniel Oliveira, uma Esquerda consequente no Clube dos Pensadores



Mário Russo
O Clube dos Pensadores recebeu a convite de Joaquim Jorge dois Pensadores incómodos ao “status quo” instalado. Ana Drago e Daniel Oliveira, gradas figuras que estiveram na origem da criação e ascensão meteórica do Bloco de Esquerda dissertaram sobre as inquietações de uma democracia doente em Portugal. Ana Drago iniciou o debate explicando as razões da sua divergência com o BE e o porquê de se ter demitido, invocando o seu passado estudantil e de lutas sociais, pela inquietação pelo rumo que a política portuguesa tem vindo a trilhar nos últimos três anos, com uma visível degradação da qualidade de vida em termos sociais, económicos e o esfrangalhamento dos laços de solidariedade e de liberdade que caracterizam uma democracia participativa e de liberdade. Por isso considera que Portugal vive uma emergência nacional que exige uma regeneração da vida política de modo a reconstruir esses laços de solidariedade e de liberdade que exigem disponibilidade para o diálogo, que vincou não ser uma coligação, mas caminhar e dialogar com quem é contrário. Só que a direção do BE não é da mesma opinião e por essa razão optou por sair e lutar pelo que é um ideal dos seus tempos de juventude por achar que é mais justo e necessário.
O seu discurso é franco, simpático e sobretudo, transparente, firme e convicto. Irradia simpatia, o que é uma faceta importante para as lutas políticas que diz estar preparada para encetar. Para já em diálogo com o “Partido Livre” fundado por um antigo companheiro Bloquista, Rui Tavares.
Daniel Oliveira é a expressão da força da natureza. Fleumático e contundente. Muito objetivo no que diz ser o essencial da sua luta e disponibilidade e generosidade em dar um pouco de si para regenerar a política e a democracia que se faz e vive em Portugal, que está em crise. Teceu argumentos que explicam, em parte, este estado de coisas, extensivo à Europa e contrariou a ideia feita de que todos os políticos são iguais, que são incompetentes e que são corruptos. Pretende lutar para que esta percepção não seja uma realidade na vida portuguesa. Está disponível para combater a ideia feita de que a situação nacional e o caminho levado pelo Governo PPC é inevitável, com o discurso de que Portugal para sair da crise tinha de empobrecer, executando à risca o programa político de governo feito pela Troika, como bons alunos executores das políticas tecidas pelos credores, traindo as promessas e os votos em quem os elegeu com promessas. Daniel Oliveira não concorda com outra das ideias que se quer fazer crer, que é o novo deus, “os mercados”, que são uma entidade divina, que pensa, que não gosta, que não quer, que impõe. É o discurso do medo.
Recusar o discurso da inevitabilidade e do medo e aprender a dizer não à Europa, que em vez de ser parceira é, afinal, punidora, é que é o caminho da soberania. O poder social é capaz de contrariar o que é inevitável imposto por outros.
A sua disponibilidade para discutir o triplo vértice do problema nacional: (i) o tratado orçamental; (ii)  a dívida externa e (iii) o Estado social, não abdica deste último, ou seja, nem mais um corte à educação, à saúde e às pensões. Sobram, por isso, dois vértices e aí é que se centra a discussão de como fazer esse equilíbrio.
Ambos acham que a dívida, como está, é impagável e para se ser sério é preciso reestruturar, como quase todos acham, com exceção da teimosia de PPC e mais uns quantos que se lhe seguem, tentando iludir a opinião pública que reestruturar é não pagar. Na verdade não está em causa não pagar, mas a forma como se deve fazer. A responsabilidade é partilhada entre devedor e credor. É, pois, uma questão de ética.
Ana Drago fez referência ao levantamento de consciência popular do 15 de Setembro mas que se esfumou pela fragilidade social portuguesa, ao contrário de Espanha em que os movimentos sociais se organizaram e estruturaram e já têm força política traduzida em votos. Em Portugal, quando emergem lideranças nos movimentos sociais, os partidos políticos tratam de os cooptar, silenciando-os de seguida ao dilui-los na turba existente (digo eu). Foram várias as perguntas da plateia que tornou o debate muito rico e vivo, numa sala completamente à pinha.
Quer Ana Drago, quer Daniel Oliveira, foram uma agradável surpresa para este escriba, porque tinha-os em conta de contestatários do poder mas sem ambição por ele, o que os tornaria inconsequentes. São generosos na sua luta, porque querem que o retorno de uma participação cívica ativa e em liberdade seja materializado em garantias sociais fundamentais para cimentar a solidariedade e os laços sociais numa sociedade mais justa e livre e sem medo.
Ambos prometeram a Joaquim Jorge que voltariam a este fórum logo que se constituíssem candidatos… num futuro próximo. Parabéns Joaquim Jorge, este debate fortaleceu mais a marca CdP e parabéns aos convidados.

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