05/07/2014

A Perda do Poder de Compra



Miguel Mota 
É certamente normal que qualquer povo deseje sempre melhorar o seu nível de vida. Isso é o que tem sucedido nos países que podem e sabem ter governos que desenvolvem a economia e, além de aumentarem a produção, melhoram a distribuição da riqueza, de forma a diminuir o fosso entre pobres e ricos. Em Portugal, desde o governo de Guterres, tem sucedido o inverso e a grande maioria da população – a chamada “classe média”, que fica entre os indigentes (pobres) e os de avultados proventos (ricos) – tem visto o seu poder de compra descer, descida que foi acelerada enormemente desde 2005.
Tem sido declarado por dirigentes vários que muitos portugueses se endividaram exageradamente e sem pensar. Daí resultou não serem capazes de cumprir os seus compromissos, especialmente para com os bancos. O que esses dirigentes escondem é que, na enorme maioria dos casos, esses portugueses pediram empréstimos que eram compatíveis com o seu nível de proventos. É óbvio que, ao sofrerem o maior corte de sempre no seu poder de compra, muitos deixaram de poder cumprir os seus compromissos.
Não pretendo dar a ideia de ser uma pessoa que sabe tudo. Mas, perante o que se me afigura serem erros elementares (alguns verdadeiramente clamorosos), que nem sempre vejo denunciados e ainda menos acompanhados do que podia e devia ser feito, algo tenho escrito. E não só sobre matérias em que, por dever profissional, é minha obrigação ter alguma competência – a investigação científica, o ensino e a agricultura – mas até noutras de que não sou especialista nem nunca pratiquei, como é o caso da política. Chamar “democracia” a um sistema em que meia dúzia de ditadores “ditam” aos portugueses em quem é que eles têm “licença” de votar, para eleger deputados é algo que não compreendo. A democracia é, por definição, o sistema em que o poder reside nos cidadãos e não apenas numa ou num reduzido número de pessoas. Sendo eu o detentor do poder, considero que a mais importante liberdade é a de delegar esse poder, para legislar e governar, em quem eu desejar. Essa era, para mim, na outra ditadura, a falta de liberdade mais importante pois, embora os cidadãos se pudessem candidatar a deputados, os entraves à propaganda e eventuais manipulações faziam com que apenas fosse eleita a lista da União Nacional. Muito mais importante do que aquela estúpida censura e falta de liberdade de expressão de que, obviamente, também não gostava. Aos portugueses chega-lhes a liberdade de expressão (que inclui o “direito” de insultar e apedrejar) para se considerarem em democracia. Então, se se queixam do governo que elegeram, só têm de se queixar de não ter eleito um melhor.
Em nada incomoda os portugueses só poderem candidatar-se a deputados se estiverem nos altos postos de um partido ou se fizerem um novo partido. Nem se fala na alteração dos Artigos 149º e 151º da Constituição, como já propus, para haver eleições livres.

Ao que tudo indica, a grande maioria dos portugueses vai continuar a perder ainda mais o seu já baixo poder de compra. A excepção é a minoria de ricos, que vai continuar a engordar as suas fortunas, num escandaloso aumento do leque salarial.

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