12/01/2013

O que o relatório do FMI mostrou

Quando ouvi pela primeira vez falar do relatório do FMI fiquei boquiaberto e até com uma ponta de revolta tal a forma como foram anunciadas pelo radialista um conjunto de “ordens” do tal FMI.

Depois tive acesso ao original “RETHINKING THE STATE—SELECTED EXPENDITURE REFORM OPTIONS” e constatei que não era exatamente assim. Entretanto fui ouvindo vários responsáveis de todos os quadrantes e a maioria demolia o relatório, demonizando-o. O desejo de muitos era o de matar o mensageiro. Muitas vozes crispadas e outras pouco hábeis a lidar com o resultado do relatório.

Cheguei a algumas conclusões interessantes: (i) O FMI apresentou um relatório simplista e sem profundidade que seria reprovado se fosse feito por portugueses, mas como é estrangeiro e escrito em estrangeiro, vale uns milhões as 75 páginas, pese embora alguns rácios interessantes para começo de conversa; (ii) o Governo comunica mal com o país. E neste caso não há desculpa para que um responsável, um jovem secretário de Estado, tido como uma sumidade, gozar ao dizer que o relatório do FMI era excelente, com um cardápio de horrores, e, finalmente, (iii) um PS estridente, aos berros e com gritos de guerra que demonstrou que está a léguas de poder governar.


Quanto ao relatório do FMI, se preciso fosse algo para demonstrar que não são sábios nem pitonisas em oráculos gregos, este relatório é prova inequívoca. Fizeram um diagnóstico nos 12 dias que cá passaram e, a pedido do Governo, fizeram o relatório para que fosse considerado uma bíblia e eliminasse a discussão política, mas é superficial sobretudo na avaliação do diagnóstico e duvidoso na receita que propõe.
O Governo tem em mãos uma tarefa séria, que é ajustar as receitas do país à despesa, que teima em manter-se fora do que é considerado razoável. Só que estamos a viver uma crise profunda, com falta de confiança generalizada e numa espiral recessiva que se agrava a cada medida de austeridade proposta, seja pelo governo ou pelas troikas e UE. Neste quadro depressivo era suposto que o Governo, que não foi apanhado de surpresa, pois até marcou a conferência de imprensa, devia serenar o povo. O relatório é mais uma peça para nós percebermos o que temos e eventualmente que receitas podem ser tomadas. Tinha de reduzir o relatório à sua dimensão.

O PS, partido da alternância, em vez de ficar sereno e desmistificar soluções propostas no relatório, considerou como se o documento fosse um decreto lei aprovado pelo governo, sem perguntar a este se era.
O PS demostrou que também não está preparado para suceder a este governo, pois vai continuar a afundar ainda mais o país. É um dilema sem solução, ou uma impossibilidade matemática: um governo mau com uma oposição alternativa ainda pior.

O FMI utiliza rácios de despesas em percentagens do PIB, comparando situações de 2000 com 2010. É pouco sério fazê-lo, porque se a opção na Europa é por um Estado Social mais alargado do que é o estipulado na América, a sua manutenção conduz a uma percentagem do PIB que varia com o estado da economia, ou seja, em 2000 a economia portuguesa estava muito melhor que em 2010, logo, o custo do estado social era menor em % do PIB que em 2010, com uma economia débil, considerando custos iguais nesta manutenção. Outras receitas do FMI são primárias e conhecidas, que mostra que os técnicos não conhecem o país.
No entanto, é preciso fazer alguma coisa. Não adianta querer impostos baixos e ao mesmo tempo máximos benefícios sociais sem ter suporte financeiro. É pois aqui que se deve discutir sem ameias. Como financiar este sol na eira e chuva no nabal, eis a questão. E o PS não percebeu ainda que se ganhar as eleições, como se prevê, vai ficar atado às promessas irresponsáveis e populistas que está a fazer com a sua recusa em encarar o problema de frente. Pena que não perceba que não poderá cumprir e será castigado severamente antes dos 100 dias do estado de graça.

No essencial, ao contrário das receitas de excel do FMI, os cortes, quando tiverem de ser feitos, têm de ser seletivos e não a eito, sem critério que não seja reduzir, por reduzir. Aliás, o FMI mostra desnorte ao considerar que foi erro subavaliar a receita de austeridade e no entanto não aprende nada e receita mais austeridade, transformando Portugal numa China na Europa ou uma Albânia. Erro crasso.
Acrescenta-se austeridade e pobreza para resolver uma crise, que só vai-se agravar. Pode parecer que é razoável fazerem-se os cortes sugeridos para resolver o problema do défice, mas tal não é verdade. Neste momento cortar salários e benefícios é matar ainda mais a economia do país. Só o governo pode gastar mais e alavancar a economia, mesmo à custa de endividamento. Quando a economia arrancar, os privados farão o seu papel e o Estado idem, iniciando a cura de emagrecimento. Agora, fazer o que o FMI sugere, como tem feito, é matar o país. Estaremos cada vez mais pobres e sem volta a dar. E ainda por cima o Governo é teimoso.
Mário Russo