17/01/2013

Bento XVI tem uma ideia medieval do papado

Mário de Oliveira 
 Quando se concluiu o Concílio Vaticano II, H. Küng desencadeou um movimento histórico na Igreja por um maior engajamento na vida quotidiana do povo de Deus, a chamada massa dos fiéis. Surgiu uma nova sensibilidade pela justiça e pelos direitos individuais na Igreja, que iria crescer para 1 bilião de católicos em todo o mundo, com missões de activismo em muitos dos países mais pobres do planeta.

De volta à Universidade de Tübingen, Küng, natural da Suíça, e Ratzinger, que havia crescido na escuridão nazista da sua Alemanha natal, logo se viram em desacordo acerca das mudanças radicais na Igreja, num debate teológico que ecoaria em toda a Europa e a Igreja global.

Agora, durante o 50º aniversário do Vaticano II, Küng, um renomado académico internacional, e Ratzinger, conhecido como Papa Bento XVI, estão ainda mais em desacordo. Das muitas questões que os dividem, Küng vê a tentativa de conter a Leadership Conference of Women Religious dos EUA como um sinal de miopia, uma falha de visão. "Você não pode dizer que Joseph Ratzinger não tem fé", diz Küng. “Ele é absolutamente contra a liberdade. Só quer obediência". Faz uma pausa e acrescenta: "Ele é contra o paradigma do Vaticano II. Tem uma ideia medieval do papado". "Muitas irmãs norte-americanas, agora atacadas, são mais instruídas e mais corajosas do que inúmeros clérigos homens", sublinha, com naturalidade. “A Cúria Romana está a tentar tudo para as condenar".
A lendária batalha intelectual entre Küng e Ratzinger reflecte as divisões na Igreja em geral. Sua separação começou logo após o Vaticano II. Durante as revoltas estudantis de 1968, Ratzinger ficou horrorizado, quando os estudantes irromperam na sua sala de aula. Nesse mesmo ano, a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, que condena o uso da pílula contraceptiva  esbarra com enormes protestos de leigos, teólogos como Küng e até mesmo bispos dispersos. Ratzinger virou para a direita, abraçando a continuidade institucional. Küng atacou a infalibilidade papal, como um acidente da história, desprovida de significado teológico genuíno.

Küng vê a crise dos abusos do clero e a repressão contra a organização das lideranças das irmãs norte-americanas como sintomas de uma estrutura patológica de poder. Na sua opinião, o impacto sobre a autoridade moral e as finanças da Igreja é uma crise que rivaliza com a Reforma Protestante.

Ao contrário de Ratzinger, Küng tornou-se um teólogo amado e altamente influente com um grande fluxo de escritos, incluindo um livro crítico sobre a infalibilidade papal. O Vaticano reagiu com uma investigação doutrinal e a suspensão da licença de Küng para ensinar teologia em 1979. Mas na Universidade de Tübingen, uma instituição pública que remonta a 1477, Küng tinha segurança no trabalho. Ainda como padre, ele se tornou um pária para os católicos ortodoxos e um herói intelectual para os fiéis em geral, enquanto continuava a publicar e a falar publicamente.

Enquanto os processos da congregação doutrinal alvejavam mais teólogos, como o norte-americano Charles Curran e o brasileiro Leonardo Boff, Küng comparava Ratzinger ao Grande Inquisidor de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski – o sinistro monge que diz a Jesus que as massas devem ser subjugadas por superstição, para que a religião mantenha o seu poder.

Na edição francesa do seu novo livro, A Igreja ainda tem salvação?, Küng garante: "A Inquisição Romana continua a existir", com métodos de tortura psicológica e o uso de muitos manuais de coação nos dias de hoje". Ao mesmo tempo, anuncia sua aposentação, para este ano, 2013, quando completa 85 anos. Entretanto, a sua casa forrada de livros de Tübingen continuará a hospedar a fundação que ele lançou. Para um homem de um idealismo tão feroz, a sua presença é um retrato vivo de serenidade.