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| Mário de Oliveira |
De volta à
Universidade de Tübingen, Küng, natural da Suíça, e Ratzinger, que havia
crescido na escuridão nazista da sua Alemanha natal, logo se viram em desacordo
acerca das mudanças radicais na Igreja, num debate teológico que ecoaria em
toda a Europa e a Igreja global.
Agora,
durante o 50º aniversário do Vaticano II, Küng, um renomado académico
internacional, e Ratzinger, conhecido como Papa Bento XVI, estão ainda mais em
desacordo. Das muitas questões que os dividem, Küng vê a tentativa de conter a Leadership Conference of Women Religious
dos EUA como um sinal de miopia, uma falha de visão. "Você não pode dizer
que Joseph Ratzinger não tem fé", diz Küng. “Ele é absolutamente contra a
liberdade. Só quer obediência". Faz uma pausa e acrescenta: "Ele é
contra o paradigma do Vaticano II. Tem uma ideia medieval do papado". "Muitas
irmãs norte-americanas, agora atacadas, são mais instruídas e mais corajosas do
que inúmeros clérigos homens", sublinha, com naturalidade. “A Cúria Romana
está a tentar tudo para as condenar".
A lendária batalha
intelectual entre Küng e Ratzinger reflecte as divisões na Igreja em geral. Sua
separação começou logo após o Vaticano II. Durante as revoltas estudantis de
1968, Ratzinger ficou horrorizado, quando os estudantes irromperam na sua sala
de aula. Nesse mesmo ano, a encíclica Humanae
Vitae, do Papa Paulo VI, que condena o uso da pílula contraceptiva esbarra
com enormes protestos de leigos, teólogos como Küng e até mesmo bispos
dispersos. Ratzinger virou para a direita, abraçando a continuidade institucional.
Küng atacou a infalibilidade papal, como um acidente da história, desprovida de
significado teológico genuíno.
Küng vê a
crise dos abusos do clero e a repressão contra a organização das lideranças das
irmãs norte-americanas como sintomas de uma estrutura patológica de poder. Na
sua opinião, o impacto sobre a autoridade moral e as finanças da Igreja é uma
crise que rivaliza com a Reforma Protestante.
Ao contrário
de Ratzinger, Küng tornou-se um teólogo amado e altamente influente com um
grande fluxo de escritos, incluindo um livro crítico sobre a infalibilidade
papal. O Vaticano reagiu com uma investigação doutrinal e a suspensão da
licença de Küng para ensinar teologia em 1979. Mas na Universidade de Tübingen,
uma instituição pública que remonta a 1477, Küng tinha segurança no trabalho.
Ainda como padre, ele se tornou um pária para os católicos ortodoxos e um herói
intelectual para os fiéis em geral, enquanto continuava a publicar e a falar
publicamente.
Enquanto os
processos da congregação doutrinal alvejavam mais teólogos, como o norte-americano
Charles Curran e o brasileiro Leonardo Boff, Küng comparava Ratzinger ao Grande
Inquisidor de Os Irmãos Karamazov, de Dostoiévski – o sinistro monge que diz a
Jesus que as massas devem ser subjugadas por superstição, para que a religião
mantenha o seu poder.
Na edição
francesa do seu novo livro, A Igreja
ainda tem salvação?, Küng garante: "A Inquisição Romana continua a
existir", com métodos de tortura psicológica e o uso de muitos manuais de
coação nos dias de hoje". Ao mesmo tempo, anuncia sua aposentação, para
este ano, 2013, quando completa 85 anos. Entretanto, a sua casa forrada de
livros de Tübingen continuará a hospedar a fundação que ele lançou. Para um
homem de um idealismo tão feroz, a sua presença é um retrato vivo de
serenidade.

