15/01/2013

Artigo de opinião no jornal Público

O PROTESTO EM MUDANÇA

 A duração e a dureza desta crise económica empurrou milhares de cidadãos para a rua por variadas razões : desemprego , perda de direitos , etc. Mas a mais importante é que o protesto é a única forma de se conseguir mudar este estado de coisas.

Com o protesto de 15 de Setembro parou-se a TSU e tem-se conseguido algumas conquistas em diversas áreas. Os cidadãos mostram-se indignados e já vêm alimentando este clamor há algum tempo de diversas formas. Este grito de revolta está a acontecer por sectores: estivadores, médicos , professores , militares, etc.

Este estado de espírito já vem do tempo do governo de José Sócrates , por cortes sistemáticos e falta de expectativas . Este clamor tem uma novidade : é transversal e vê-se na rua pessoas de todos os estratos sociais , ex-classe média e muitas pessoas que votaram PP ou PSD.

No fundo é um cocktail explosivo de gente de todas as classes , idades e profissões ,pois trata-se de um movimento social difuso com um sentimento de indignação profundo pela deterioração económica e social, que enfrenta um poder politico cada vez menos representativo.

Por outro lado este movimento social já percebeu e está a tomar consciência que para melhorar as coisas já não chegam os partidos , sindicatos e instituições.

As pessoas não se sentem representadas , este é o sentimento de desencanto da sociedade . Mas também acham que para além de protestar é preciso apresentar soluções e dizer que há alternativas que se podem pôr em prática para melhorar as coisas sem que seja excessivamente pesado para a sociedade, assim como atenuar determinadas medidas inevitáveis.

A manifestação de 15 de Setembro mostrou que há uma necessidade imperiosa e urgente de mudar o sistema político. As pessoas não se revêem nestes dirigentes partidários e querem mudança, para quem os governa ou tem a responsabilidade dos destinos do país. Foi um sinal e apontar um caminho , a sociedade está pior que há ano e meio e os cortes vão chegando aos pilares intocáveis do Estado: as bases do estado social , saúde, educação , pensões e desemprego.

Depois de cinco anos de crise económica a situação é insustentável para cada vez mais gente . A instituição família tem sido o sustentáculo de não haver maior descalabro , funciona como almofada , para ajudar os parentes numa entreajuda exemplar.

Parte do ajuste para reduzir o défice está realizado mas agora querem fazer uma purga no sector público.

O descontentamento grassa , fica-se com a sensação que o descontentamento é de toda a gente menos do governo. Tem-se a firme certeza que a austeridade não é repartida por todos , uns poucos ganham cada vez mais , ao contrário da maioria que está cada vez mais pobre.

O sistema político está manietado por interesses económicos e há uma grande frustração de muitos que votaram no PP e PSD convencidos que tinham a chave para a saída da crise.

A situação está-se a agudizar , à medida que a crise vai afectando cada vez maior número de pessoas , há uma tomada de consciência que é preciso fazer algo, porque não há elementos que nos façam pensar que isto vai melhorar , antes pelo contrário.

A democracia representativa está a falhar redondamente e a crise nos partidos é também um dos elementos que está na base destes protestos.

O protesto recruta cada vez mais sectores da população tradicionalmente menos activos , tanto jovens , como adultos e idosos.

A base de apoio da coligação governamental PSD/PP está-se a esfumar rápida e de forma contundente .

Umas das novidades a reter das sondagens é a queda de popularidade do governo ( PSD/PP)que não se traduz na ascensão do principal partido da oposição ( PS):

O ano de 2013 será de grandes conflitos e de perdas de peso dos partidos políticos e a porta está aberta aos extremismos .

Todos estes protestos e mobilização de rua não vão ter retorno e está na forja um novo modelo de sociedade.

Este despertar das pessoas mostram que tem toda a razão,porém é uma miséria de razão.

Este governo não tem remédio é uma carcaça dos pés à cabeça. Viver actualmente é resistir e uma das formas de resistir é a capacidade de indignação, criar novas de formas de protesto.e de reivindicação.

Como diz Stéphane Hessel é preciso « uma verdadeira insurreição pacífica»

Biólogo, fundador do Clube dos Pensadores