Mário Russo
Hoje não falo de política, mas de sentimentos, pois é um dia triste para mim e minha família porque partiu a Nina, uma gata vadia que um dia nos conquistou a todos e se transformou numa criatura meiga e de profunda dedicação.
Os meus filhos foram, há uns bons anos, os responsáveis directos pelo resgate de uns gatitos abandonados, quase cegos, um atropelado e em dificuldades, que tiveram guarida e salvação cá em casa. Depois de tratamentos, esterilizações, etc., ficaram em excelente estado e vivem alegremente, sendo boas companhias.
Uma gata que teimava em frequentar o nosso quintal era normalmente escorraçada para não se habituar, até que um dia pariu uma ninhada numa caixa de cartão que estava pronta para ir para o contentor. Ao detectar tal situação, coloquei a caixa protegida com uma placa num terreno nas imediações da casa, debaixo de uma árvore, na expectativa de que a natureza fosse o seu refúgio.
Era inverno e aos chuviscos da manhã, seguiu-se o agravamento do tempo e à noite vimos da varanda a gata a transportar os filhotes, um a um, para os nossos anexos junto à churrasqueira, porque a tempestade e o frio que se abatera estavam a pôr em perigo a ninhada. A galhardia desta operação comoveu-nos e com alguns cuidados, transformamos o local em alcofa para a sobrevivência dos gatinhos.
Nesse dia decidi que a gata seria adoptada. Era valente e corajosa. Quando os lindos gatitos cresceram foram doados a amigos, com excepção de um que ficou com a mãe (Nina) cá em casa. A Nina sempre foi uma mãe extremosa, contrariando a opinião do veterinário que deles cuida, que dizia que com a idade o normal era deixar de ligar aos filhos. Aliás, a Nina adoptou os outros gatos como seus e estava sempre atenta.
De tanto ser escorraçada das casas que invadia, era uma gata desconfiada do ser humano e pouco amigável, porém foi-se adaptando e, também contra a corrente de pensamento, ficou tão reconhecida que se transformou numa criatura tão dócil que embaraçava os conceitos do próprio veterinário, que o surpreendia pela meiguice. Só faltava falar, diziam os meus filhos, e com razão. Respondia ao nosso chamamento, como o fazem os cães.
Tinha 9 anos e de súbito uma crise de insuficiência renal irreversível venceu-a. O médico fez tudo para salvá-la, mas apesar das 2 semanas de tratamento, ela recusou-se a viver mais. Ainda veio para casa, mas não se alimentava, por mais esforço que fizéssemos, como aliás nos preveniu o veterinário. Ela despediu-se de nós com o seu profundo olhar meigo e um miado que parecia uma prece.
Por isso estamos tristes, porque partiu alguém que aprendemos a amar e que nos ensinou que não há impossíveis e nos fez boa companhia por alguns anos. Mostrou tantas vezes o que os humanos não são capazes de fazer, de serem reconhecidos e solidários. Quantas vezes não a contemplava apreciando o seu comportamento altivo, a sua doçura e modo como tratava os gatos que ela perfilhou. Se fosse poeta faria uma ode a Nina, para ser cantada. Assim, fica aqui o meu testemunho de gratidão por tê-la tido em nosso convívio alguns anos.
Adeus Nina.

