29/04/2010

Clube dos Pensadores: 4 anos a pensar o país


O aniversário dos 4 anos do CdP foi celebrado na tradição da melhor maneira de estar do Clube com um debate sem tema pré-definido. Joaquim Jorge convidou Luís Filipe Menezes, Diogo Feyo e António Ribeiro para dissertarem sobre o que entendessem, bem como a um conjunto de personalidades, que não poderiam estar todas na mesa, como salientou JJ, para darem um testemunho.
A abrir a sessão, foram lidas mensagens muito elogiosas ao CdP e a JJ, de alguns dos ilustres membros honorários, como Santana Lopes, Manuel Maria Carrilho, Alberto João Jardim, Manuel Alegre, Francisco Ferreira, Garcia Pereira, entre outros.

LFM abriu as hostilidades e começou por lembrar que o país estava sob a pressão de especuladores financeiros dos mercados, fazendo crer que somos iguais à Grécia em termos da situação económica, mas que o país não é tão mau como esses especuladores pretendem fazer crer. O país terá de cerrar fileiras naquilo que é essencial, elevando a sua auto-estima. Recordou uma vez mais, que falta ao país eleger um desígnio nacional, tal como D. João II e depois o Marquês de Pombal, fizeram.

Portugal preparou-se para a democracia, para a economia social de mercado e para o euro nas décadas de 70, 80 e 90, mas por impulsos tácticos. Deu resultados, mas conjunturais, como se constata. Depois LFM elencou os grandes eixos competitivos por que Portugal se deve bater: a língua como expoente a ancorar o nosso humanismo histórico, potenciando ligações fortes a Angola e Brasil e aos restantes países de expressão oficial portuguesa, fazendo de charneira de ligação da Europa à África e à América Latina. Portugal deve constituir-se a plataforma de ligação da Europa ao mundo, construindo as pontes necessárias. Qualificar os recursos humanos, nomeadamente impulsionando a aprendizagem do inglês e do espanhol, porque a economia de proximidade é um dos vectores a potenciar ao máximo, pois um mercado de mais 45 milhões jamais poderá ser esquecido.

Diogo Feyo também falou da crise, que começa na própria União Europeia, e deu exemplos da instabilidade política de vários países, da Bélgica ao Reino Unido, passando pela Itália e Holanda, tal como em Portugal em que o PM não tem sabido tomar decisões em contexto de minoria. Mas também sob o ponto de vista económico a UE está em crise, patenteada até por fenómenos naturais, como foi o caso do vulcão na Islândia, que mostrou não estar preparada para estas eventualidades. O recente ataque ao euro e consequente valorização do dólar, evidenciam a falta de estratégia europeia, ditada pelos países mais ricos e poderosos.
Salientou Diogo Feyo que Portugal tem de ser um bom aluno orçamental, cumprindo o que estipula e que ao Norte, depauperado e deprimido, falta-lhe coragem para assumir estratégias que envolvam as empresas e as suas iniciativas, acreditando-se no seu potencial.

Já António Ribeiro, Juiz Desembargador e ex- Secretário de Estado da Justiça, felicitou o CdP e em especial a plateia e todos os que se prestam a debater o país. Salientou que a falta de desígnio de que falou LFM não se resume a Portugal, mas a toda a Europa, em contraste com a visão que os pais desta grande comunidade de Estados tiveram ao fundá-la, e até mesmo mais recentemente com Helmut Koll, F. Mitterrand e Jaques Delors, tinham uma visão solidária e um desígnio para a Europa. Hoje são políticos de plástico, sem visão, sem entusiasmo.

Falta aos portugueses acreditarem em si mesmos. Faltam ideias porque o sistema político afasta as pessoas da vida política, com exemplos de falta de ética que levam à falta de moral para exigir em tempos de dificuldade e crise, como a actual, para propor sacrifícios ao povo, como fez a Irlanda, que baixou salários. Fez ainda a comparação da atitude perante a crise, dos sindicatos que patrocinaram greves salariais, evidenciando um autismo e irresponsabilidade perante factos.

JJ fez uma pequena resenha do que é o CdP, dizendo que primeiro estranha-se e depois entranha-se magicamente neste conceito. O Clube é plural, sem hierarquias, em que não se cobra cotas, nem se pede nada a ninguém. Quem quiser colabora, mas é livre. Falou da degradação da democracia por culpa da fraca qualidade dos agentes políticos, agravada pela falta de debate e de participação cívica do povo, como a que o CdP teima em contrariar.
Aproveitou para falar de dificuldades que pessoalmente tem sentido com as invejas e incompreensões que o Clube gera em alguns poderes instituídos, porque ousou pensar e descobrir novas fronteiras do pensamento e que não está só. Terminou com um provérbio africano “se queres ir depressa vai sozinho, mas se quiseres ir longe, vai acompanhado”, e ele, JJ, quer ir longe.

Seguiu-se o testemunho de vários convidados da plateia, desde o Reitor da Universidade Lusófona que disse que o CdP lhe lembrou a criação da primeira licenciatura em ciência política em Portugal há 30 anos, para dar mais classe à classe política. Felicitou o JJ e o CdP pelo seu percurso cívico. Paulo Morais foi sintético e disse que o CdP é um Clube de resistentes e que neste momento é algo precioso de que o país necessita. Gomes Fernandes felicitou o CdP e Gaia, pois ambos estão no mapa, um colocado pelo JJ e o outro por LFM logo que chegou à presidência da Câmara. É um Clube de Agitadores do pensamento e das consciências, à semelhança do Clube dos Poetas Mortos, que estavam bem vivos. Aqui pensa-se o que não se consegue fazer no interior dos partidos.
Carlos Oliveira congratulou-se pelo optimismo que perpassou no debate com ideias da saída e de união no essencial num momento de crise.

Carlos de Brito, ex-ministro e presidente dos SMTC do Porto e dirigente da Ordem dos Engenheiros, lembrou que é preciso não deixar morrer este Clube, como aconteceu com outros, dada a importância do debate livre. Recordou que em tempos de crise não se pode esperar por soluções longínquas, como a educação e qualificação dos RH, mas agir já. Lembrou o que Sarkozy solicitou a eminentes economistas, que à volta do PIB definissem um outro parâmetro que evidenciasse mais a realidade de cada país, emergindo Portugal em 20º lugar no Índice de Felicidade, o que para Carlos de Brito evidencia que os portugueses devem apostar em si próprios, ter auto-estima que os levem a ultrapassar esta crise e já.
Albino Almeida falou da educação, como é natural, pois é presidente da Associação Nacional de Pais e elencou alguns dos desígnios, designadamente no Norte, como a energia e ambiente, entrando em novas tecnologias para se ultrapassar a crise.

O signatário deste resumo, salientou que o sucesso deste CdP centra-se num tripé imbatível, a qualidade da plateia, os convidados de grande nível e a perspicácia e mestria de JJ em identificar os temas do momento, convencer os convidados a deslocarem-se a Gaia para debater assuntos da maior importância e colocá-los na imprensa. No entanto, com todas estas qualidades e ao fim de 4 anos, o CdP não tem de provar mais nada a ninguém, pelo contrário, tem de fazer passar recomendações e ou reflexões do muito que se debate, aproveitando essa nata para que o país/governo/poderes tome conhecimento e não morra na sala de debate.
Luis Miguel em nome da plateia lembrou a importância do CdP e das pessoas que dele gostam, relegando para o desconhecimento os detractores que por vezes aparecem no Blog. Salientou o nível dos debates e a participação cívica que se mantém ao longo de tantos debates e que os mesmos têm importância na formação da consciência cívica.

Seguiu-se uma conferência de imprensa com os muitos órgãos da imprensa presentes, que foi uma das novidades que a fervilhante mente de JJ inventou. Seguiu-se a confraternização com o corte do bolo de aniversário e o champanhe da ordem numa noite que poderia durar mais algumas horas, tal a satisfação patenteada pelos presentes.

Mário Russo