20/06/2009

Fim da Escola de Belgais e do sonho de Maria João Pires


Mário Russo

Maria João Pires é um génio da música erudita. Uma pianista fabulosa (tenho vários CDs). Toca Frederic Chopin como ninguém). Gosta do campo e da vida simples. Criou uma casa da música em Belgais, a uns 15 a 20km de Castelo Branco para dedicar às artes e em especial à música fora dos roteiros tradicionais.

Ganhou o reconhecimento internacional pelo seu enorme talento e muito respeito por este gesto em prol da educação.

Teve apoio do estado e de diversas instituições para a sua constituição. Ultimamente era apoiada pelo Ministério da Educação com 170 mil € anuais para suportar os 40 alunos do 1º ciclo que ali estudavam. Este sonho de Maria João Pires (MJP) está a um passo de acabar e levou-a a rumar para a Bahia, Brasil, onde pretende criar uma escola similar. Educação pela arte. Uma ideia excelente.

Mas porque não deu certo em Portugal e tivesse levado a uma profunda desilusão? Será que os portugueses são tão avessos à presença das artes na educação ou à acção de pessoas genuinamente boas como é o caso de MJP?

Parece-me que não. Pessoalmente lamento o sucedido, mas previsível desde a primeira hora, pelo menos para mim, que sempre vi neste gesto de MJP uma grandeza de espírito altruísta, mas pouco sustentado nos seus fundamentos. MJP confundiu Portugal com a Alemanha, onde viveu muitos anos e foi fatal. Ela não percebeu isso.

Instalar-se no interior profundo de Portugal pode ter vantagens pessoais, mas não para suportar financeiramente um projecto caro como este e uma forma inversa de ser elitista (projecto maravilhoso para meia dúzia).

Não tinha escala para ter rentabilidade económica. Um génio da música não se prende com estas minudências e foi este o pecado mortal. MJP queria ajudar crianças desfavorecidas, pois bastaria ir para a cintura de Lisboa ou Porto e não teria 40, mas 4000.

O que o Ministério pagava por cada criança 4250€ anuais, valor superior ao que o Estado paga por ano para financiar o ensino superior em Portugal (2500,00€/aluno). Ora se com este apoio não consegue (e é verdade) suportar este projecto, diz tudo sobre os seus fundamentos económicos e financeiros. Um génio da música não é um génio da gestão. É duro, mas é a verdade.

Pode questionar-se se não é uma visão pequena. Mas creio que não. Ingénua é a visão de que no meio do nada se conseguia manter um projecto elitista e muito caro. MJP não merecia este desfecho, mas só tem de se penitenciar pela escolha do local para instalar aquele conceito de projecto. O custo da interioridade fica aqui bem demonstrado e implacável.

O Estado português não pode gastar com alunos do 1º ciclo do ensino básico uma verba daquelas, sob pena de profunda distorção e injustiça para com os milhares desafortunados deste país.

Ouvi vozes mediáticas responsabilizarem o governo pelo fracasso deste projecto. Também tenho condenado este governo por muitas coisas que não concordo, mas alto lá, só falta dizer que a revolta dos iranianos contra a fraude das suas recentes eleições é culpa de Sócrates.