150 MILHÕES DE PESSOAS IGNORADAS NA CIMEIRA EU-ÁFRICA
Pedro Laranjeira
Uma Cimeira mega-evento! Sem dúvida, quase Guiness, não fora a reunião anual da Assembleia Geral das Nações Unidas. Um orgulho para Portugal. O ponto mais alto do impressionante currículo de Sócrates!
Focados em Lisboa os olhos de meio mundo... que o outro meio tem sobrancerias que ainda acham que globais são eles, que as chaves do céu lhes pertencem...
No entanto, participaram na Cimeira quase metade das representações da ONU, dois continentes, duas organizações multi-nacionais e ainda vinte observadores convidados.
A latitude de assuntos é gigantesca. Quem teve medo que o não fosse ficou logo a saber que se tinha enganado na cerimónia de abertura.
Uma Cimeira destas é palco de discussão de tudo!
De tudo?...
Não, infelizmente!
Toda aquela representação representa mil e quinhentos milhões de representados.
A frase não é mau português, é intencional: porque quem não pode lutar pelos seus direitos tem que o fazer através de representantes, daí a seriedade da representação e a responsabilidade de quem representa.
É o caso das vítimas, seja de pobreza ou catástrofes, de tráfico ou exploração. É o caso dos que ficaram sem nada, dos refugiados, dos escravizados, dos doentes.
É o caso dos que não têm força, ou meios, para lutar por uma integração digna na sociedade.
Ninguém se lembra nunca que nesta situação estão... os deficientes!
São dez por cento da população mundial. São dez por cento da população portuguesa, mais de dez por cento da população africana.
Essa é uma carência transversal a todas as carências: também sofrem de fome onde a fome existe, também são ignorados ou explorados onde os regimes ignoram o bem estar dos seus povos, também são vítimas de violação de direitos humanos, também são refugiados... com a única diferença que têm, além de todos esses e cumulativamente com todos esses, um problema acrescido: o das suas deficiências.
São uma fatia da sociedade que precisa de uma atenção especial que lhes permita partilhar com os outros essa sociedade.
Todos os esforços humanitários, todas as boas intenções de todas as cimeiras, são de louvar e promover!
Mas dez por cento da humanidade vai ficando cada vez mais de fora, mesmo dos melhores resultados das melhores intenções... só porque precisa duma abordagem diferente!
Seria porventura desejável construir um mundo sem fome, sem miséria, sem iliteracia... fora do qual ficasse a sua décima parte?...
A segurança, a boa governação, os direitos humanos, o problema dos refugiados, as migrações, a democratização dos regimes são metas de bíblica importância, mas transversais a todas elas são as necessidades especiais de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo – só em Portugal são um milhão – que precisam que reparem nelas e as integrem.
Se não o fizermos, deficientes somos nós, por não sabermos reconhecer as diferenças e o nosso papel obrigatório, como seres humanos e cidadãos, em relação a elas!
É um grande, grande, trabalho necessário que as sociedades têm que aprender rapidamente a fazer, sob pena de estarem a votar à exclusão multidões que têm os mesmos direitos que nós, à semelhança do que antes se fez com os escravos, com outros povos, com as mulheres – deixemos que a História nos ensine os erros e o caminho de os evitar, antes de se transformaram numa luta social e num erro de humanidade!
Não basta falar nos problemas dos flagelos mundiais, é preciso incluir neles mais este, urgente, actual, vital!
Voltando à Cimeira: há mais deficientes em África que a soma de todas as vítimas de desastres, naturais ou políticos, mencionadas todos os dias em todo o mundo – esta “vítima” também o é, ainda por cima com abordagens que precisam de ser diferentes, porque os problemas o são também.
A Cimeira EU-África não tocou no assunto...
Porque será que ninguém gosta de falar de deficientes?...
Focados em Lisboa os olhos de meio mundo... que o outro meio tem sobrancerias que ainda acham que globais são eles, que as chaves do céu lhes pertencem...
No entanto, participaram na Cimeira quase metade das representações da ONU, dois continentes, duas organizações multi-nacionais e ainda vinte observadores convidados.
A latitude de assuntos é gigantesca. Quem teve medo que o não fosse ficou logo a saber que se tinha enganado na cerimónia de abertura.
Uma Cimeira destas é palco de discussão de tudo!
De tudo?...
Não, infelizmente!
Toda aquela representação representa mil e quinhentos milhões de representados.
A frase não é mau português, é intencional: porque quem não pode lutar pelos seus direitos tem que o fazer através de representantes, daí a seriedade da representação e a responsabilidade de quem representa.
É o caso das vítimas, seja de pobreza ou catástrofes, de tráfico ou exploração. É o caso dos que ficaram sem nada, dos refugiados, dos escravizados, dos doentes.
É o caso dos que não têm força, ou meios, para lutar por uma integração digna na sociedade.
Ninguém se lembra nunca que nesta situação estão... os deficientes!
São dez por cento da população mundial. São dez por cento da população portuguesa, mais de dez por cento da população africana.
Essa é uma carência transversal a todas as carências: também sofrem de fome onde a fome existe, também são ignorados ou explorados onde os regimes ignoram o bem estar dos seus povos, também são vítimas de violação de direitos humanos, também são refugiados... com a única diferença que têm, além de todos esses e cumulativamente com todos esses, um problema acrescido: o das suas deficiências.
São uma fatia da sociedade que precisa de uma atenção especial que lhes permita partilhar com os outros essa sociedade.
Todos os esforços humanitários, todas as boas intenções de todas as cimeiras, são de louvar e promover!
Mas dez por cento da humanidade vai ficando cada vez mais de fora, mesmo dos melhores resultados das melhores intenções... só porque precisa duma abordagem diferente!
Seria porventura desejável construir um mundo sem fome, sem miséria, sem iliteracia... fora do qual ficasse a sua décima parte?...
A segurança, a boa governação, os direitos humanos, o problema dos refugiados, as migrações, a democratização dos regimes são metas de bíblica importância, mas transversais a todas elas são as necessidades especiais de milhares de milhões de pessoas em todo o mundo – só em Portugal são um milhão – que precisam que reparem nelas e as integrem.
Se não o fizermos, deficientes somos nós, por não sabermos reconhecer as diferenças e o nosso papel obrigatório, como seres humanos e cidadãos, em relação a elas!
É um grande, grande, trabalho necessário que as sociedades têm que aprender rapidamente a fazer, sob pena de estarem a votar à exclusão multidões que têm os mesmos direitos que nós, à semelhança do que antes se fez com os escravos, com outros povos, com as mulheres – deixemos que a História nos ensine os erros e o caminho de os evitar, antes de se transformaram numa luta social e num erro de humanidade!
Não basta falar nos problemas dos flagelos mundiais, é preciso incluir neles mais este, urgente, actual, vital!
Voltando à Cimeira: há mais deficientes em África que a soma de todas as vítimas de desastres, naturais ou políticos, mencionadas todos os dias em todo o mundo – esta “vítima” também o é, ainda por cima com abordagens que precisam de ser diferentes, porque os problemas o são também.
A Cimeira EU-África não tocou no assunto...
Porque será que ninguém gosta de falar de deficientes?...
director da revista Perspectiva
É uma honra para mim e para o clube ter o director desta publicação
distribuida com o jornal Público mensalmente.O nível continua a elevar-se e este blogue já é um referência . Já tinhamos a
Teresa Goulão agora O Pedro Laranjeira.Obrigado.








2 Pensamento(s):
prezado senhor, bom dia.
Nossa! QUASE PERDI O FÔLEGO COM O SEU TEXTO! Não tanto pelo sério jornalista que me foi, aqui, referido pelo Jorge,mas pelo calibre de humanidade e coragem. Realmente, as necessidades do OUTRO já não têm muita importância num mundo cujo nível de competitividade está apagando em nós,os resquícios de HOMEM. Vamos gradativamente nos acostumando e nos adequando à essa perda, como se fora etapa natural e esperada, no caminho da evolução própria desse SER. Será que têm razão, alguns pensadores contemporâneos, quando dizem que estamos realizando um processo simbiótico com a máquina e "evoluindo" fora de NÓS MESMOS? Em sendo assim, não estaríamos perdendo para a máquina,que em sua evolução,já pode até tomar decisões e, não muito longe, desenvolver e expressar sentimentos?
Com perplexidade,com medo, mesmo, observo o comportamento desse "homem"...que importam os que têm necessidades especiais? tem-se a impressão que compõem um grupo que já nasce excluído pela natureza e, assim, seriam aqueles que não entram na competição!...bom, não? pra quê falar deles, se nem existem??
Bem, eu lhe falaria horas, se pudesse, mas o Jorge me mataria (risos).
Obrigada,
Guacira.
Caro Pedro Laranjeira,
Concordo plenamente com a abordagem feita à Cimeira, que sem dúvida foi um sucesso, mesmo que se discorde que a presença de ditadores possa manchar o ambiente. Fracasso seria não fazer nenhuma referência séria à forma despótica e sem respeito pelos direitos humanos que esses ditadores praticam contra seus povos. Fracasso seria até não fazê-la só porque meia dúzia de ditadores queriam vir (Mugabe à cabeça), porque seria dar-lhes uma importância mundial que não têm. Sócrates está de parabéns.
Mas sem dúvida que os grandes esquecidos têm sido os deficientes e, perdoe-me, sobretudo os verdadeiros escravos que podem ser mais de 30 milhões no mundo (3 vezes a população de Portugal), sem direito a dispor da sua vida e da sua alma. Gente tratada de forma infra-humana, sem documentos, sem rostos, sem direitos mínimos. Trabalham até à morte. Só lhes dão alguma comida para que possam produzir no trabalho. Quando adoecem são deitados literalmente ao lixo. Escravos por quem não há um partido político, uma ONG, um sindicato, que reivindique uma migalha de humanidade.
Eles estão aí, permitindo comprarmos coisas a preços tão baixos que a única pergunta é: como é possível? … é assim, com escravos, quando muitos de nós julgavam que tinham acabado há 200 e tal anos ou, ainda, que só no tempo de Roma é que os havia.
Parabéns pelo alerta desta aguda e dura realidade esquecida.
Mário Russo
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