15/11/2007

REFLEXÕES SOBRE A NOSSA IMPRENSA



Mário Russo



A imprensa em qualquer país deve ser livre, plural e responsável. Nos regimes ditatoriais tal não se observa, porém, à sua importância devem-se muitas das conquistas democráticas no mundo. Tem uma missão de divulgação da informação e da cultura ao maior número de pessoas, suscitando o debate e participação comunitária.

As suas formas: escrita, radiodifundida e televisionada, praticamente chegam a todo o lado e, por esse desiderato, quando muitos desafios se colocam às modernas sociedades neste novo século, a participação responsável e partilhada dos cidadãos só pode ser efectiva se devidamente estribada na informação e no conhecimento dos temas candentes do nosso tempo, como dizia Edgar Morin.

Questões fundamentais nos assolam sem respostas muito nítidas. O Estado, inventado no século passado para justificar a Nação, não tem o valor de outrora. A própria autoridade do Estado é posta em causa pela acção da imprensa, quando desencadeia a resolução de problemas, antecipando-se à acção dos governos no mesmo problema.

Esta importância acrescida dos “media” deverá ter reciprocidade em termos de maturidade e responsabilidade. Com efeito, chegamos ao ponto em que só é verdade o que passa na televisão. E não é exagero, senão vejamos o caso do massacre de Santa Cruz, em Timor, onde morreram dezenas de pessoas às mãos sanguinárias de um regime que, com o beneplácito de todos, ceifou centenas de milhares de cidadãos inocentes, sem apelo e sem uma lágrima sequer.

Outro exemplo é Foz Côa. Sempre existiram figuras rupestres na região. Os pastores as conheciam, bem como muita gente, no entanto só tiveram destaque porque passou na televisão, tendo o governo Guterres actuado de imediato, mais face à grande mediatização, paralisando a construção de uma barragem, do que uma responsável discussão, pois tratava-se de uma questão estratégica - a da água e da energia, que ainda hoje faz sentido discutir.

São exemplos de questões que devem mesmo ser discutidas na “praça pública”, de forma responsável e não superficial e sensacionalista para impressionar auditórios e para vender audiências, como tantas vezes acontece.

Questões tão sérias como: a globalização e como nos prepararmos para ela. Será que as nossas empresas estão preparadas para a concorrência? A poluição generalizada do solo, das águas e da atmosfera e as alterações climáticas. Os riscos de erosão que atingem cerca de 68% das terras do nosso país, cotando-se como o que está em maior perigo em toda a Europa. Os grandes projectos “de regime” anunciados por Sócrates, não serão motivo para de desenvolver uma discussão séria?

A questão da demografia, por defeito no nosso país, e em excesso na África, Ásia e América Latina, não nos deverá preocupar?

Infelizmente só alguns bons jornais e algumas estações de rádio é que cumprem esta função (in)formadora. Onde está a imprensa televisiva, aquela que chega a mais pessoas? Tem primado pela exploração sensacionalista de notícias alarmistas, violentas e grotescas, com raras e honrosas excepções.



Por tudo isto não é surpresa que o Clube dos Pensadores seja uma referência de participação cívica, onde Joaquim Jorge tem sabidamente seleccionar temas de grande actualidade, animando debates em que não só têm voz aqueles convidados que já a têm, como também, e sobretudo, uma plateia de pessoas sem vez passa a ter voz.


engenheiro , professor no PV , membro do clube e frequente no blogue