mtO Director da Revista “LIRE”, escreve no último número, um texto delicioso que eu abaixo reproduzo, sobre o prazer da escrita.
E lembrei-me, do ritual das férias. Sempre que saíamos de casa, a meio das férias, íamos a um quiosque, daqueles que tinham um mostruários que rodava e escolhíamos um postal da praia, E escrevíamos para a avó, para as amigas, para as tias mais chegadas.
Escrevíamos depois de jantar, e o texto era sempre um pouco o mesmo. Que estávamos bem, que o tempo era a cacimbada do costume, que tínhamos saudades e que as férias estavam a ser boas.
E depois lá íamos por na caixa de correio. Aqui, admito, havia sempre um compasso de espera, já que eu nunca fui de postais , logo no dia seguinte, andavam, algum tempo, no saco da praia, porque a fila na estação dos correios para comprar selos, metia medo.
Escrevíamos também cartões sempre que saiamos alguns dias para fora de Portugal – ainda não se chamavam Short breaks – e durante a ida anual a Fátima. Hoje, tenho dentro de uma caixa de laca chinesa preta, muitos cartões, escritos por uma letra miudinha, por uma letra longa e por uma letra irregular., Os meus tesouros.
Hoje mantenho esse ritual. Escolho com gosto os postais de férias, escrevo, vou á estação dos correio (admito que alguns dias após os ter escrito), compro os selos e envio. E lá em casa, faço questão – leia – se, obrigo a escrever cartas ás amiguinhas, á família próxima. Não é uma tarefa fácil, há sempre uma qualquer playstation em ebulição, uma jogo de computador que "está no melhor", um filme na Tv que não se pode deixar de ver, a praia que está “fixe”, os amigos que estão a tocar lá em baixo, os primos que estão a chegar para irem tomar um mergulho “lá em baixo”.Mas, mais dia, menos dia, mais autoridade, menos autoridade, seguem os postais.
As palavras dos postais são para sempre. As fotos podem gastar-se e ficar sem cor, os cantos dobrados, mas um dia, um dia qualquer, vamos gostar muito de as ler e olhar com enlevo, para a escrita da escola primária, para o pôr-do-sol “piroso” do postal. Já muita coisa a vida me levou. Deixou-me os postais e as palavras cheias de colo, que me escreviam. São o meu tesouro.
Outro ritual de férias é a escolha de livros que levamos. Muitos policiais, romances. Fugir de livros que tenham a ver com o que andamos todo o ano a trabalhar. E durante as férias, levar os livros no saco da praia, misturados com os bronzeadores e protectores solares para cara, corpo, olhos, de diversas marcas e níveis de protecção, cremes de protecção para o cabelo, escova e espelho, carteira de moedas para os gelados e bolos, toalha, bikini, saída de praia, bocados de guardanapo, garrafa de água. E o livro fica com as pontas dobradas, a capa queimada do sol, as páginas lambuzadas do creme da bola de Berlim, areia entre as páginas. Mas sempre que mais tarde o virmos na estante, ele vai ter um cheiro ao mar e de certeza que, em qualquer página terá grãos da areia clara da minha praia e eu vou lembrar –me do tempo sereno e feliz do meu mês de Agosto.E os leitores deste blog, que livros levam para férias?
