07/05/2007

SHOW DE GINGA NO GRAMADO (?)



Guacira Maciel


A solicitação do Joaquim Jorge para que escrevesse alguma coisa sobre o futebol brasileiro na atualidade, dizendo, inclusive, o que achamos do futebol português, se configurou um desafio para alguém como eu; se ele tivesse pedido um poema sobre o assunto, teria me causado menos sofrimento (risos).
Na verdade, custa-me reconhecer que o nosso futebol tem, hoje, pernas claudicantes, como conseqüência de muitos fatores, que tecnicamente não ouso avaliar. Entretanto, está acontecendo, como de resto em todo o mundo, um conhecido “fenômeno” que vem interferindo de forma altamente nociva na atuação dos clubes de futebol, que é a ingerência, e eu diria enfaticamente, a hegemonia do poder econômico na vida dos grandes times e da nossa seleção, quanto à escalação e “performance” dos seus jogadores. A equipe técnica já não tem autonomia para avaliar as condições físicas, técnicas e emocionais, ou seja, as chances de participação de um jogador; quem o faz, basicamente, são os grupos econômicos que detêm o direito de utilização de sua imagem, contando com a anuência do próprio profissional, em função dos lucros auferidos, uma vez que ele tem aguda consciência do seu poder imagético.
Em sendo assim, já não temos um futebol de equipe; já não temos times, mas ícones! Temos imagens pessoais fortes, num jogo absolutamente individual e ridiculamente solitário, cujo mundo se reduz ao próprio umbigo, o que prejudica o envolvimento na partida e atrapalha o clima psicológico necessário.
Além dessas mazelas, em relação à copa do mundo, temos ainda outro lobby , grave, constituído por interesses econômicos, que direcionam os resultados, em função, entre outros, do local /sede daquele ano.
Sem contar que convivemos com uma revoada geral, visto que os nossos melhores jogadores, como aves de arribação, migram para os grandes times de outros países, seduzidos pelo dinheiro. Nossos rapazes já não vestem a camisa como se fora uma segunda pele; já não há paixão no nosso futebol. Hoje, no Brasil, já não vemos em campo, aquele garoto pobre, saído da periferia, dar show de ginga no gramado e chorar emocionado, dando graças a Deus... Os nossos jogadores são “ciborgs” fabricados em série, nas escolinhas de futebol; não se lapida um carbonato (diamante bruto), que é puro talento e paixão. Esse futebol/arte, que deu ao Brasil tantas glórias, ficou para sempre gravado nos corações brasileiros, através da imagem de gente como Didi, Pelé, Garrincha, Tostão, Rivelino, Zico (Galinho de Quintino) e muitos outros.
Ufa! Falou mais alto a minha indignação de brasileira...
Quanto ao futebol português, creio que passa por algumas das nossas agruras, sim. Porém, percebo que é um futebol que vem crescendo sistematicamente, inclusive na última copa, com a ajuda técnica de Luis Felipe, e que tem investido na questão técnica e tática (que era muito rígida), assim como, inteligentemente, na preparação psicológica do grupo, que poderá ser um diferencial, uma vez que as equipes, que eram o “bicho papão”, como o Brasil, se perderam nas ruas estreitas das vaidades individuais.


PS. Muitas das informações técnicas aqui referidas, foram fornecidas pelo Professor de Educação Física da Rede Pública de Educação do Estado da Bahia, Profº Jorge Matos.




poetisa ,membro do clube, vive em Salvador da Bahia