Extracto do livro publicado
Quando, aos dezesseis anos, meus pais me disseram que naquela quinta-feira eu teria de lanchar com uma senhora chamada Júlia, meus joelhos amoleceram e entrei infeliz no carro por não ter comigo um pequeno frasco de veneno (nessa época, eu era dramática). Eu não era o exemplo ideal de feminilidade e popularidade entre as meninas da minha idade e não tinha absolutamente nada para fazer naquela tarde, e já havia escorrido pelo ralo a esperança de ser convidada para integrar o seleto grupo das divas do Minas Tênis Clube e do colégio onde meus pais me matricularam assim que nos mudamos para Belo Horizonte.
De belo o horizonte não tinha nada. Aliás, nem horizonte tinha. De repente ele fora comido por montanhas gulosas que circundavam a cidade e me provocavam a incômoda sensação de que de uma hora para outra também me comeriam, espremendo-me, quebrando meus ossos, engolindo-me lentamente tal qual uma sucuri sonolenta.
Não havia mais o mar a se estender até os confins do imaginário, e muito menos a pedra negra que me servia de cais. De pedras agora só havia as do meio do caminho. Pedras incômodas que me faziam tropeçar e cair como um saco de batatas bêbado defronte cabras que escalavam ladeiras em leveza de organdi.
Belo Horizonte revelava-se o meu pior pesadelo, agora assombrado por um lanche com uma velha senhora que se chamava Júlia. Uma visita que a mim me pareceu um encontro com a Medusa, um encontro que revelaria com todas as letras de todos os alfabetos vivos ou não o meu cruel destino: eu seria para sempre outsider, uma rejeitada tanto pelos meninos como pelas meninas. Não havia jeito: o Olimpo não me queria e eu teria que viver para todo o sempre nas profundezas dos deuses ctônicos, esquecida como eles por todos os mortais e deuses radiantes e empanturrados de beleza.
E foi com esses pensamentos que cheguei ao velho casarão onde dona Júlia morava, um casarão no limite da calçada de uma grande avenida que me pareceu o Rio Letes, guardado por um barqueiro e pelo cão medonho de Hades, o senhor infernal.
No portão, a Medusa me aguardava, disfarçada em gentil senhora. Não me deixei enganar; a altura, a postura ereta e o olhar penetrante não eram os mesmos que eu me acostumara a ver nas anciãs mortais. Lá estava a Medusa, a mulher que a humanidade esquecera e substituíra por pin-ups cultuadas em templos erguidos nos fundos das garagens e nas paredes dos quartos. Lá estava a mulher que em tempos remotos, na época em que a humanidade convivia com os deuses, guardava a sacralidade feminina.
Lembrei-me então de sua cabeça cortada por lança afiada, tombada ao chão como uma bola à espera de um chute, e de quando Pégasus saiu voando de sua cabeça para logo depois ser montado por Perseu. Mas agora ela estava ali, intacta em todo o seu esplendor, pronta para me revelar os antigos mistérios.
Olhando-a ereta à porta, eu me perguntava sobre o porquê de tal associação. Embora o potro indomável da minha imaginação dispensasse explicações lógicas, desta vez algo me dizia que era necessário me ater à realidade. Afinal, eu não estava diante de uma mulher comum: era dona Júlia, a mãe de um presidente!
Quando, aos dezesseis anos, meus pais me disseram que naquela quinta-feira eu teria de lanchar com uma senhora chamada Júlia, meus joelhos amoleceram e entrei infeliz no carro por não ter comigo um pequeno frasco de veneno (nessa época, eu era dramática). Eu não era o exemplo ideal de feminilidade e popularidade entre as meninas da minha idade e não tinha absolutamente nada para fazer naquela tarde, e já havia escorrido pelo ralo a esperança de ser convidada para integrar o seleto grupo das divas do Minas Tênis Clube e do colégio onde meus pais me matricularam assim que nos mudamos para Belo Horizonte.
De belo o horizonte não tinha nada. Aliás, nem horizonte tinha. De repente ele fora comido por montanhas gulosas que circundavam a cidade e me provocavam a incômoda sensação de que de uma hora para outra também me comeriam, espremendo-me, quebrando meus ossos, engolindo-me lentamente tal qual uma sucuri sonolenta.
Não havia mais o mar a se estender até os confins do imaginário, e muito menos a pedra negra que me servia de cais. De pedras agora só havia as do meio do caminho. Pedras incômodas que me faziam tropeçar e cair como um saco de batatas bêbado defronte cabras que escalavam ladeiras em leveza de organdi.
Belo Horizonte revelava-se o meu pior pesadelo, agora assombrado por um lanche com uma velha senhora que se chamava Júlia. Uma visita que a mim me pareceu um encontro com a Medusa, um encontro que revelaria com todas as letras de todos os alfabetos vivos ou não o meu cruel destino: eu seria para sempre outsider, uma rejeitada tanto pelos meninos como pelas meninas. Não havia jeito: o Olimpo não me queria e eu teria que viver para todo o sempre nas profundezas dos deuses ctônicos, esquecida como eles por todos os mortais e deuses radiantes e empanturrados de beleza.
E foi com esses pensamentos que cheguei ao velho casarão onde dona Júlia morava, um casarão no limite da calçada de uma grande avenida que me pareceu o Rio Letes, guardado por um barqueiro e pelo cão medonho de Hades, o senhor infernal.
No portão, a Medusa me aguardava, disfarçada em gentil senhora. Não me deixei enganar; a altura, a postura ereta e o olhar penetrante não eram os mesmos que eu me acostumara a ver nas anciãs mortais. Lá estava a Medusa, a mulher que a humanidade esquecera e substituíra por pin-ups cultuadas em templos erguidos nos fundos das garagens e nas paredes dos quartos. Lá estava a mulher que em tempos remotos, na época em que a humanidade convivia com os deuses, guardava a sacralidade feminina.
Lembrei-me então de sua cabeça cortada por lança afiada, tombada ao chão como uma bola à espera de um chute, e de quando Pégasus saiu voando de sua cabeça para logo depois ser montado por Perseu. Mas agora ela estava ali, intacta em todo o seu esplendor, pronta para me revelar os antigos mistérios.
Olhando-a ereta à porta, eu me perguntava sobre o porquê de tal associação. Embora o potro indomável da minha imaginação dispensasse explicações lógicas, desta vez algo me dizia que era necessário me ater à realidade. Afinal, eu não estava diante de uma mulher comum: era dona Júlia, a mãe de um presidente!
escritora brasileira

