05/05/2007

Futebol: o maior espectáculo de massas populares



Mário Russo

Na maior parte do mundo o futebol é um desporto de massas e de grande emoção como jamais qualquer outra actividade consegue ser. É também no futebol que se tem encontrado o maior congraçamento entre povos, pese embora rivalidades. Propicia as maiores movimentações de pessoas nos campeonatos internacionais e movimenta uma indústria de biliões de dólares, empregando milhões de pessoas em todo o mundo (industria, comércio, turismo, serviços). Ao movimentar tanta paixão, obviamente transporta muita comoção e até alguma violência. Porém, generalizar esta violência é exagerado e não corresponde à verdade, face aos milhares de pessoas envolvidas. Há também algumas pessoas que não gostam de futebol, com toda a legitimidade, que desatam a rotular a actividade do pior que há, assim como aos aficcionados do futebol. Acham que é deprimente gostar-se de futebol, coisa própria de gentalha. São os “intelectuais” que primam por não gostar de futebol para mostrarem que o são. Como dizia Óscar Wilde, é a opinião que não interessa, porque emitida por quem não tem paixão e interesse não está de lado nenhum (os ditos imparciais/independentes). Seria o mesmo que alguém que não gosta de ópera se arvorasse em seu crítico. Alguém daria valor a essa crítica? Há os que se espantam e escandalizam pelos elevados salários de alguns dos “artistas da bola”, sugerindo que deviam jogar por amor à camisola, como no tempo do Matateu. Não sei porquê? Também são saudosistas de uma sardinha para dois? E não ficam escandalizados com o Tom Hanks que ganha 38 milhões de US$ por um simples filme? E os tenistas de top, os golfistas de top e os condutores de Formula 1? Ganham pouco? Não são eles que alegram, divertem e entretêm milhões de pessoas e movimentam somas astronómicas dessas indústrias? Porquê o preconceito contra o futebol? Porque é do povo? e o “povo” da favela que pode chegar a estrela no futebol e ser milionário causa repulsa aos “ricos”? O futebol é o espectáculo mais democrático que conheço, juntando na mesma arena ricos e pobres, ignorantes e sábios, analfabetos e letrados, poetas e operários, civis e militares, cristãos e judeus, muçulmanas e católicos, negros e brancos, chineses e americanos. O futebol é de facto uma paixão e a sua discussão também leva o mesmo caminho, mas devemos ser mais racionais e menos passionais. Assistimos ao crescimento e à profissionalização deste desporto, com todos os erros que se cometem nas outras áreas de actividade. O Futebol, contra a “inteligentzia instalada” não é nem mais nem menos corruptor que outras actividades. Emana da sociedade que se move muitas vezes por caminhos enviesados. Por acaso não existe lobby dos “homens” das farmácias, ou da construção civil, ou dos comerciantes, ou da indústria e de tantas outras corporações? Ou será que o meu lobby é melhor que o do vizinho? Não se lance nenhum anátema sobre o futebol. Há que organizá-lo adequadamente, fazer que o sistema/industria cumpra como qualquer outra industria tem de cumprir a lei. Tem que se punir os prevaricadores, tal como em outras actividades. Mas temos de exaltar o que há de melhor, os artistas e a bola que dão espectáculo e são a alegria do povo… por vezes a única fonte de choro de alegria, num mar de lágrimas de tristeza. Se as mais diversas actividades nacionais se nivelarem em termos europeus ao que o futebol, mesmo assim, já atingiu (muito acima da média), Portugal estaria entre os mais ricos da União Europeia. Viva o futebol de verdade.