16/04/2007

Especulação


RICARDO ARROJA


Guerra Comercial



Numa altura em que tanto se fala no conflito do Médio Oriente e em que tanto se debate a possibilidade de um ataque norte-americano ou britânico ao Irão, acaba de estalar uma outra guerra – a comercial, entre os Estados Unidos e a China. Esta semana, a representante norte-americana na Organização Mundial do Comércio (OMC), Susan Schwab, apresentou uma queixa formal contra o Estado chinês. Os Estados Unidos acusam a China de nada fazer para combater a pirataria e a violação dos direitos de propriedade intelectual. É a segunda vez, este ano, que os norte-americanos recorrem à OMC para, formalmente, acusarem a China de concorrência desleal. Começou a guerra – nesta, ao contrário da outra, a América tem razão.
O crescimento da China, desde a sua adesão à OMC, tem sido extraordinário. A sua economia cresce a mais de 10% ao ano. A sua balança de transacções correntes apresenta um saldo muito positivo – face aos Estados Unidos registou em 2006 um saldo favorável de 232 mil milhões de dólares. A sua divisa, após anos de manipulação estatal, finalmente evidencia uma tendência de alta e atrai o apetite de especuladores cambiais de todo o mundo. A sua bolsa vive um ambiente de euforia, tal a dimensão dos ganhos nas cotações das acções que dela fazem parte – em 2006, uma valorização de 130%, e este ano, ao fim do primeiro trimestre, um ganho adicional de mais 19%. A classe média, ainda a germinar, começa a ganhar os hábitos de consumo próprios do Ocidente – apenas entre Janeiro e Fevereiro deste ano, os bancos chineses emprestaram 130 mil milhões de dólares (cerca de dois terços do PIB português) aos seus conterrâneos. Fantástico.

Contudo, a China não tem sabido lidar com as responsabilidades que advêm da sua nova condição de potência económica. É evidente que os Estados Unidos têm razão nas suas queixas, como também a Europa as terá se seguir o mesmo caminho. Não é aceitável que a China, um país que exibe tamanhos excedentes comerciais, continue, de forma conivente, a permitir e a premiar os bandidos que se dedicam à contrafacção. O fenómeno é transversal à economia chinesa, vai da música ao vestuário, passando pelos automóveis e restantes sectores industrias. Até já houve quem tivesse tentado sequestrar uma marca por completo – no caso, a NEC, em que não só foram copiados produtos como até acordos de licenciamento e distribuição. Não pode ser. A China, como membro activo da economia mundial, não pode apenas querer as recompensas. Tem também de adoptar a ética do comércio internacional, sob o risco de, ela própria, se tornar na maior ameaça à Globalização da qual, de resto, tanto beneficia.

A queixa agora apresentada pelos Estados Unidos diz respeito à violação dos direitos de propriedade intelectual, vulgo pirataria, associados a filmes, música, software e livros produzidos e editados por empresas norte-americanas. Um grupo de lóbi, composto pela Microsoft, Walt Disney e Vivendi, estima que, em 2006, a pirataria chinesa custou às empresas especificamente afectadas mais de 2 mil milhões de dólares em vendas não consumadas. Os Estados Unidos defendem que as medidas recentemente introduzidas pela China não são suficientes para combater a pirataria de modo eficaz. No caso dos DVD’s, por exemplo, apenas são iniciadas investigações criminais contra alguém se essa pessoa for apanhada com pelo menos 500 unidades de produto contrafeito. Foi aliás, com algum sarcasmo à mistura, esse o número de DVD’s e CD’s piratas que Susan Schwab apresentou na conferência de imprensa onde denunciou a cumplicidade do Estado chinês em relação aos piratas.

Esta acção vem na sequência de outro protesto norte-americano, formalizado em Fevereiro, e cuja apreciação também foi requerida à OMC. Nessa queixa, a China é acusada de subsidiar indevidamente as exportações de têxteis, electrónica e brinquedos chineses para a América, através de isenções fiscais atribuídas aos seus fabricantes. As duas acções são encaradas como a resposta política da administração Bush às críticas do Congresso, de maioria democrata, que responsabiliza a China pela perda de competitividade internacional de certos sectores da economia norte-americana. Os políticos em Washington não aceitam que o défice de transacções correntes com a China continue a aumentar. Há quem diga que, já este ano, se atingirá um novo máximo histórico – cerca de 250 mil milhões de dólares. Do lado chinês, a reacção foi aquela que seria de esperar: assobiaram para o lado e ameaçam responder da mesma forma.


artigo publicado no jornal Vida Económica de 13/04/07
analista financeiro e membro do clube