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| Francisco Azevedo Brandão |
Decerto, numa terra onde homens como Antero de Quental, Camilo e Soares dos Reis têm de recorrer ao suicídio como solução final duma existência de luta inglória e sangrenta; numa sociedade onde o pensamento representa um capital negativo, um fardo embaraçoso para jornadear pelo caminho da vida; num povo onde essa minoria intelectual, que constitui o orgulho de cada nação, se vê condenada a cruzar os braços com inércia desdenhosa, ou a deixá-los cair desoladamente, sob pena de ser esterilmente derrotada num país onde a inteligência é um capital inútil e onde o único capital deveras produtivo é a falta de vergonha e a falta de escrúpulos - o diagnóstico impõe-se de per si.
O desalento e a descrença alastram. No ar respira-se o cepticismo. E à medida que o mal-estar colectivo se vai resolvendo quotidianamente em tragédias individuais, o sentido da vida, em Portugal, parece ser cada vez mais fúnebre e mais indicativo de que vamos arrastados, violentamente arrastados,por um mau destino, para a irreparável falência e de que nos afundamos definitivamente..
Mas porquê? O mal, na verdade, será de morte? Estará isto, irremediavelmente perdido? Estará a raça portuguesa, como agregado autónomo, como indivíduo colectivo, condenada a desaparecer integralmente, isto é, a ser dissolvida na massa comum da espécie humana? Será Portugal, na frase do lorde inglês - uma nação morta, destinada a ser devorada pelas nações vivas? Eu creio que não...O que se está passando em Portugal, o desalento que está pesando horrivelmente sobre a vida portuguesa não é o sinal infalível de que se aproxima a hora extrema. Não, isto não é o Crepúsculo de um Povo.
Mesmo,às vezes, parece que os povos, como os homens, por um instinto horror à morte, quando é chegada a sua hora crepuscular, não gostam de saborear dolorosamente esse venenoso sentimento de assistir à própria agonia e se deleitam a gozar numa beatitude semi-adormecida , a suprema ilusão da vida - a ilusão da imortalidade».
( Manuel Laranjeira - Pessimismo Nacional, - Jornal «O NORTE», 24 de Dezembro de 1907)
texto transcrito

