03/06/2018

Brasil: o caos por estes dias e as lições que se deveriam extrair




Mário Russo 

O Brasil viveu uma crise com a falta de abastecimento em todas as atividades do país. Faltou de tudo, numa cadeia vertiginosa. Faltou comida nos estabelecimentos comerciais, remédios nos hospitais, combustíveis para transportes, rações para o gado, comida para as aves, etc. O prejuízo é bilionário. Morreram centenas de milhões de aves e porcos por falta de comida. Estragaram-se milhões de toneladas de produtos alimentares perecíveis. O leite produzido nas fazendas foi derramado por falta de transporte para escoar. Fábricas pararam completamente. As escolas também. O Brasil quase parou de funcionar.
Já se sabe que as opções dos vários governos desde a crise do petróleo de 1970 se previa dificuldades no setor dos transportes e era preciso diversificar. O Brasil não o fez. Teimou continuar com o transporte rodoviário, num país continental, em que apenas 13% das rodovias é pavimentada. Não há ferrovia e o transporte marítimo e fluvial é incipiente e restringe-se muito no norte, Pará e Amazonas, devido à rede hidrográfica extensa e, porque não há condições de transporte rodoviário, caso contrário, até estas autoestradas de água seriam relegadas para segundo lugar.
Os custos com o transporte rodoviário são 10 vezes superiores aos da ferrovia e 13 vezes o marítimo, não deixando margem para dúvidas não só financeiras e económicas, como ambientais. Mas nada foi feito. As rodovias são de má qualidade. Apenas o Estado de São Paulo tem uma malha rodoviária com autoestradas dignas desse nome e um pouco também em Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. O resto, infelizmente, é quase um deserto.
A segurança do transporte nas rodovias é precária. Os camionistas são heróis nas estradas, sujeitos às armadilhas de más estradas e de bandidos que os assaltam, como os bandidos faziam no velho oeste americano às carruagens. No Rio de janeiro, nas barbas da polícia.
No meio deste caos, o governo federal mostrou toda a sua fraqueza. Equívocos atrás de equívocos. Primeiro por reagir tarde ao terrorismo perpetrado pelos patrões dos transportes, que conseguiram iludir a opinião pública, de que o movimento era popular e em benefício dos motoristas, acompanhado pelas redes sociais acríticas e com rejeição ao governo Temer, embalaram o movimento como se fosse uma redenção para o Brasil.
Depois, quando se sentou para negociar com grevistas, evidenciando o mais crasso erro de um governo: prostrando-se diante de grevistas, que por mais justas que sejam as suas posições, jamais se permite sentar para negociar sem o levantamento da greve. Porque se os grevistas não souberem que têm do outro lado um governo forte, fazem uma farra de reivindicações sem fim. Mais grave ainda, o governo ofereceu de bandeja tudo o que foi reivindicado pelos patrões dos transportes, com as consequências que se conhecem.
Por outro lado, qual a justiça e racionalidade de medidas que transfere o pagamento da conta de todos os Brasileiros para os bolsos dos patrões dos transportes? Pois foi o que o governo acabou por fazer, achando ter feito um grande negócio, ao eliminar impostos sobre o diesel e a folha de pagamento das empresas, compensando o rombo bilionário com o agravamento de outros impostos, que incidem sobre todos os brasileiros, cortando na saúde, educação e infraestruturas. Pura irracionalidade. É que não há almoços grátis.
Ficou evidente que o governo não conseguiu acabar com a greve e saiu a perder em toda a linha, juntamente com o Brasil como um todo. Baderneiros conotados com partidos políticos radicais e políticos populistas, infiltraram-se no movimento e coagiram violentamente os camionistas que queriam trabalhar. Patrões coagiram os trabalhadores para que estes não trabalhassem, mesmo após os ditos acordos terem sido rubricados pelas lideranças, para aumentar o caos no país.
A pergunta que perpassa é a seguinte: o Brasil não esteve preparado para este evento, mostrando uma evidente fragilidade de governantes e de empresas, sem um plano B. Como é que o Brasil está preparado para eventos extraordinários que as alterações climáticas “já mostraram”, poder vir a acontecer, sem aviso prévio de data, paralisando abastecimentos, destruindo infraestruturas e bens produzidos: podendo o país ficar períodos sem comunicações, sem combustíveis, sem eletricidade, sem água potável, sem comida.
Como está o Brasil preparado para estes eventos? Muito mal. Não há planos de segurança nem de emergência. Esta greve/lock-out, deveria, pelo menos, depois de tantos prejuízos, servir de exemplo para uma reflexão séria dos governantes de todas as esferas, as empresas e população, e não esperar que os acontecimentos se precipitem, antecipando soluções.
Sem falar nas consequências que o terrorismo pode introduzir neste conturbado mundo de incertezas. Pois bem, há que preparar Planos de Segurança da Água (PSA), para todas as cidades e centros de produção e de abastecimento do país, sobretudo as áreas mais vulneráveis e já identificadas. Planos de emergência nos transportes, comunicações, telecomunicações, energia, alimentação e saúde, entre outros. Reservas estratégicas para enfrentar as consequências dos eventos e treinamento adequado de dirigentes e das populações.
Este aviso serve para muitos países e governantes. O que aí vem, só não se sabe quando, não é para amadores.

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