12/03/2018

Pedro Passos Coelho convidado para dar umas aulas na Universidade de Lisboa



Mário Russo 

O Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa contratou (ou pretende contratar) o ex-Primiero Ministro Pedro Passos Coelho para dar aulas na instituição como Prof. Catedrático Convidado a tempo parcial. Este tipo de contratação é muito comum em muitas universidades no mundo inteiro, para trazer para a academia a experiência relevante de personalidades que podem dar uma mais-valia ao ensino, com resultados relevantes para a aprendizagem.
Como se sabe, Passos Coelho não é um académico, no entanto, foi o líder de um dos tradicionais maiores partidos políticos do país e foi Primeiro-ministro de Portugal por uma legislatura inteira (um português entre 10 milhões). Tem, por isso, uma experiência riquíssima que nenhuma universidade do mundo pode propiciar. Gostemos ou não, negar que PC não seja uma personalidade de prestígio é negar a realidade. Negar que tem uma experiência que pode ser transmitida porque a viveu na primeira pessoa é uma fantasia e um preconceito que nada tem a ver com a liberdade do ensino, nem com a sua qualidade, pelo contrário.
Estou à vontade porque escrevi muitas vezes contra as posições de PC como governante de Portugal, pessoa que não me desperta simpatia, mas isso não me turva o discernimento.
Acontece que um grupo de alunos do ISCSP está contra e pôs em circulação um abaixo-assinado que se opõe à contratação de Passos Coelho. Segundo o documento, os alunos consideram que esta contratação “representa a materialização de uma afronta à transparência e à meritocracia da instituição", entre outros disparates.
O que me preocupa é este tipo de posicionamento dos alunos que ainda têm um percurso académico a trilhar e se acham verdadeiros justiceiros e recrutadores de docentes, sábios, à boa moda do PREC após o 25 de Abril. Só falta agora os alunos ditarem que matérias querem que os docentes ministrem e como serão avaliados.
O primado da independência da Universidade é posto em causa por um grupo de ditadorzinhos de plantão, certamente ungidos pelo radicalismo intolerante de um qualquer Partido Comunista, caso a Direção da Universidade recue na contratação.
Outro argumento deste grupo de alunos é que Passos Coelho não tem experiência académica e que ele não pode dar aulas a alunos que terão um grau superior ao seu (mestrado e doutoramento). Em primeiro lugar, Passos Coelho tem um grau superior a qualquer dos alunos que ainda não tem o respetivo diploma. Mesmo o atual Mestrado (Pré-Bolonha) é equivalente à antiga licenciatura. Por outro lado, esta visão é medíocre, redutora e reveladora do quanto os alunos têm a aprender. Ser detentor de um Mestrado e Doutoramento (eu tenho ambos), não confere nada mais que especial conhecimento nas matérias de cada um dos detentores do grau. Nada mais. A aprendizagem e o conhecimento não são exclusivos da Universidade (ensino formal).  Hoje ainda mais, porque podemos aprender de várias formas e é na prática que mais se aprende.
Aristóteles, Ptolomeu, Sócrates, Leonardo Da Vinci, Fernando Pessoa, Camões, Newton, não tinham mestrado nem doutoramento. Pelos vistos não poderiam ensinar aos sábios do ISCSP.
Outra preocupação dos alunos “tolerantes” do ISCSP é com o salário extraordinário que Passos Coelho vai ganhar, revelador de mediocridade desses “ditadorzinhos” de araque, da inveja e hipocrisia. O salário é o que o estatuto prevê e é igual a qualquer outro da mesma categoria. Nos EUA e no Reino Unido, por exemplo, as Universidades contratam personalidade a preços mais elevados que o das carreiras, em função do prestígio e da mais-valia que cada um possa agregar. Só os medíocres olham para um salário “miserável “ como se fosse uma afronta e não conseguem ver a valia que uma experiência excecional possa trazer ao aprendizado.
Não sei o que diriam esses alunos do salário que outros ex-politicos foram auferir em empresas privadas, como Durão Barroso, Paulo Portas ou Jorge Coelho.
Espero que a Universidade de Lisboa não se encolha a esta provocação dos justiceiros e controladores de costumes, digna de uma Coreia do Norte. Repito, estou à vontade porque não sou simpatizante de Passos Coelho, mas sou adepto e combatente pela liberdade em todas as suas formas, respeitando a diferença e diversidade.

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