01/09/2016

Crónica da Ásia I



Mário Russo

Os chamados tigres asiáticos continuam a crescer e exibir saúde, ao contrário da maioria dos países e sobretudo da Europa, estagnada há cerca de 10 anos. Vale a pena tentar perceber a razão deste sucesso e socorro-me apenas de Singapura e Malásia, que acabo de visitar.
Quer Singapura, quer Kuala Lumpur (capital da Malásia) surpreendem pela organização, modernidade, segurança e beleza. Outrora vilarejos de pescadores, transformaram-se ao longo dos tempos em colossos. Cidades limpas, muito verdes e seguras com um fluxo turístico impressionante. Aqui não se fala de crise, mas de crescimento económico.
Singapura é um caso paradigmático de organização e excelência. Baseou o seu desenvolvimento em 3 pilares: (i) educação de alto nível, (ii) justiça célere e rigorosa e (iii) respeito e ordem, quando há 51 anos os pais da independência assim decidiram, como forma de serem de facto independentes.
O sistema judicial é imaculado, onde a impunidade tem tolerância zero. A cidade é um jardim onde não se vê um papel no chão, onde não há paredes ou edifícios e monumentos pichados de grafitis. A arte é exercida nos locais próprios e não nas paredes da propriedade alheia, seja pública ou privada. Quem prevarica arrepende-se para a vida. A segurança é total em qualquer lado. Deixamos uma carteira ou mala por momentos e voltamos e ninguém mexeu. Os carros podem ficar de portas abertas que não vão mexer.
Uma cidade com mais de 5 milhões de habitantes poderia ter um trânsito caótico, mas em Singapura não. O governo sabendo disso adotou medidas estruturantes e legais. Vias de comunicação rápidas, bons e eficientes transportes públicos, carros a preços 4 vez mais elevados do que na Europa. Viaturas no máximo com 10 anos de vida útil, sendo, por isso, o 2º país que mais veículos usados vende no mundo (em proporção à população é o maior). Viaturas com mais de 10 anos, são sujeitas a um imposto extra tão elevado que desencoraja qualquer um a manter o velho carro (ineficaz e mais poluidor). E todos cumprem, porque a tolerância é zero. Aqui não há a latina filosofia do “tadinho” dele. Prevaricou, seja quem for, é punido para não se esquecer. Levou algum tempo, mas é sucesso total.
A base, sem dúvida, é a educação esmerada e de alta qualidade a partir da qual tudo o resto resulta, em que o segredo é o ensino pré-primário e primário da mais elevada qualidade em que se forma o cidadão para o resto da vida. Uma escola primária tem turmas de 15 a 20 alunos no máximo e mais que um professor de várias especialidades, com artes, desporto entre outros. O infantil (pré-primário), as turmas são de 10 a 15 alunos e também mais de um professor e atividades altamente motivadoras. As famílias são chamadas a sério, a responder pelos seus filhos e velhos. A responsabilização, ordem e respeito são valores olímpicos. Por isso é uma sociedade em que 10 % da população é multimilionária.
Os trabalhadores têm direito a habitação, pagando rendas sociais, vivendo próximo dos locais de trabalho para evitar gastos com viagens longas. Têm, por outro lado, a garantia de mudar para outra habitação mais próxima do trabalho se entretanto mudarem de empresa. Pode demorar uns meses a alteração, mas o Estado consegue soluções dentro do seu vasto parque de edifícios sociais.
É bom sairmos deste canto para constatarmos que não somos o centro do mundo.
Não custa nada aprender com quem faz bem. Não é o facilitismo e o “tadinho dele”, tipicamente latino, que nos vai levar a lado algum que seja bom. A cultura dos direitos adquiridos e, pior que isso, dos direitos sem deveres é que vem minando Portugal.

2 comentários:

  1. Um retrato muito interessante de quem este do outro lado do Mundo. Obrigado.
    JJ

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  2. As experiências exteriores são sempre positivas, para se constatar que existe alternativas ás nossas opções como sociedade e com êxito.Contudo estar de férias e passar alguns dias é bem diferente de viver o dia a dia e ter a noção real do País.

    Achei bastante engraçado a sua última frase, " A cultura dos direitos adquiridos e, pior que isso, dos direitos sem deveres é que vem minando Portugal.", que não é condizente com opiniões suas demonstradas em anteriores textos sobre os "tais" direitos adquiridos que estavam a ser postos em causa no tempo da Troika.
    Nos tempos que correm, está tudo bem e não existe contestação nas ruas, o que indica que as classes que votam e têm interesse nas eleições estão satisfeitas. Portugal continua com esta mentalidade não do facilitismo mas do comodismo e inoperância perante os factos evidentes de rutura na sociedade e economia, mas como alguns estão satisfeitos então está tudo bem!

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