19/01/2016

Abastardamento da língua Portuguesa



Mário Russo
Quem ler os documentos preparados por instituições governamentais, no caso foi do Governo PPC, referentes aos programas comunitários de apoio, designado de Portugal 2020, vai ficar especado com a falta de vergonha e o provincianismo no seu pior, com os estrangeirismos (anglicismos) absolutamente em excesso utilizados pelos redatores dos programas.

Lamentável não ter havido uma análise crítica para pôr na linha e responsabilizar quem comete tamanho dislate. Para vossa apreciação fica apenas um pequeno exemplo no Norte 2020:

iv. Capital Humano e Serviços Especializados
O domínio Capital Humano e Serviços Especializados é um dos wildcards da estratégia regional de especialização inteligente. Por outras palavras, trata-se de um domínio emergente, em que a região detém massa crítica de recursos e ativos que podem, potencialmente, responder a uma tendência internacional de nearshoring de operações de Business Process Outsourcing (BPO), de fábricas de software, de centros de engenharia e, crescentemente, de Knowledge Process Outsourcing (KPO).

Pergunto se as pessoas que prepararam os textos apenas copiaram os originais da UE e não sabem traduzir aquelas expressões ou se é mesmo a arrogância e desprezo pela nossa língua.
Provavelmente são pessoas que bramem contra o atual acordo ortográfico. Tal como várias pessoas que se recusam a utilizar o novo acordo, porque se “orgulham de falar o puro português, o português de Camões, de Pessoa e de Eça de Queiroz”…(como se todos escrevessem da mesma maneira e como se escreve no pré-acordo).

1 comentário:

  1. Grande amigo Mário Russo na nossa acesa discussão sobre o AO em tempos idos. Eu compreendo em parte a tua posição és angolano e tens familiares brasileiros. Estás mais aberto e propenso a um novo AO. Eu não desculpa . Vou recuperar excerto de um texto que escrevi sobre o AO.

    "Não me podem obrigar a adoptar uma ortografia que não se justifica e não é uma necessidade premente. Podem ser simplificadoras mas não são uma necessidade de uso. A ortografia é a parte mais artificial de uma língua e rege-se pela etimologia. O acordo de 1990 por exemplo mantém algumas grafias , com o "h" inicial., por exemplo. Corre na net um abaixo assinado contra o acordo ortográfico , a ideia é reunir 35000 assinaturas para tentar travar este acordo. Não vou escrever "ótima seleção" , mas sim óptima selecção. Não vou escrever "creem" mas sim crêem , heroico mas heróico , pera mas pêra , joia mas jóia. Vou usar sempre o hífen e escrever há-de e não ha de , anti-depressivo e não antidepressivo . Vou continuar a escrever sector e não setor , característica ,e não, carateristica Os meses do ano sempre com maiúscula , Janeiro e não janeiro , etc. Desculpem sou português e defendo a minha língua e como me a ensinaram . Não tentem na secretaria mudar algo que não serve para nada. Esta unificação é ilusória . Quando se muda não quer dizer que se vá para melhor . Deixemos que a língua evolua naturalmente . Veja-se que estamos no euro mas continuamos muitos de nós ainda a falar em escudos , respeitemos o nosso passado .

    Um episódio exemplar como nunca haverá unificação de coisa nenhuma. Um dia , em Portugal , o brasileiro Ruy Castro , autor do livro Carnaval no Fogo teria dito à sua secretária : « Isabel , por favor, chame o bombeiro para consertar a descarga da privada». Perante o espanto da Isabel , teve que ser ajudado por um amigo que fez a "tradução": «Isabel, por favor,chame o canalizador para reparar o autoclismo da retrete»."

    Abraço para ti e para a minha, nossa língua portuguesa
    JJ

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