04/11/2014

TRAUMA DE DISCURSO




Tereza Halliday
Quando recebo convite para ritual de posse em alguma academia que não seja de ginástica, envio presente e/ou cartão como assertiva de meu apreço, mas não compareço à solenidade. Minha ausência sistemática tem origem num trauma de discurso sofrido há muito anos e para o qual não procurei cura.

A nova acadêmica era Estephânia Nogueira, poeta ensaísta, minha ex-professora de inglês, que me introduziu a belos poemas de Elizabeth Barrett Browning, Archibald Mc.Leish, Emily Dickinson, Robert Frost... Por afeto e gratidão, lá fui eu assistir a sua posse na Academia Pernambucana de Letras. Estava ansiosa por ouvi-la.  O presidente da mesa alongou-se e dilatou seu discurso desmesuradamente, somente para abrir a sessão. O designado para saudar o novo membro da Casa castigou-nos com outra exposição oral quilométrica. Quando chegou a vez do discurso cerimonial da empossada – a estrela da celebração daquela noite – nós, da plateia, estávamos exaustos. A mais importante oradora da noite foi botada para trás pela incontinência verbal de bem intencionados saudadores, talvez carentes de uma audiência cativa.

 Pesquisas antigas atestam que só conseguimos prestar atenção plena a uma fala por, no máximo, 20 minutos. Palestras atuais de alto nível, procuradíssimas na Internet,  em programa chamado TED, duram 18 minutos e dizem o que importa. No inditoso caso que me deixou traumatizada, foi um despautério roubarem o tempo de gala da nova acadêmica e massacrarem a plateia com excesso de falação. Soube que foi bem diferente, muitos anos depois, na posse de Luzilá Gonçalves, com gerenciamento perfeito dos discursos, significativos e de bom tamanho. E que perdi uma bela festa.   Será que a fala enxuta em rituais de posse de acadêmicos passou a prevalecer? Ainda tenho medo de ir lá conferir.


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