08/10/2014

Costa versus Seguro




 A nobreza da política reside na luta por defender aquilo em que se acredita e animar os outros a lutar por isso, procurando manter a chama acesa.
Não sei se é possível ser diferente na política, sem entrar na maquinaria partidária.
Há quem queira entrar na política e gostaria de intervir, mas paga um peso enorme e é visto como persona non grata se não ficar na defensiva e evitar expor-se com as suas ideias. Influir, criticar, pensar, reflectir na política é algo mal visto.
Os outsiders permanentemente sonham em participar no jogo político, mas não é fácil. Quem lá está não aprecia muito a ideia e entende que está em causa o seu feudo. Por outro lado, a política requer uma série de habilidades específicas e nem todos conseguem fazê-lo. Há truques que têm que se aprender. Por exemplo não dizer tudo que se pensa. Não se pode responder ao que lhe perguntam, sim ao que gostariam que lhe tivessem perguntado. Neste aspecto António Costa é exímio e Seguro nem tanto.
Por outro lado, não se pode repetir algo negativo. Há que dar a volta e expressar-se pela positiva. O dilema de dizer copo meio vazio ou copo meio cheio.
É naïf pensar que quem vem de fora pode proceder de outra forma e de outra maneira. Foi que aconteceu a António José Seguro, cheio de boas intenções.
 A política é a arte do possível. Mas agora, nem mais tarde ou amanhã. Não chega ter ideias que é o caso de Seguro, é necessário actuar no momento certo, foi o que aconteceu com António Costa.
A arena política tem destas coisas. De outro modo, os jornalistas não têm o perfil adequado para tratar de assuntos de política. A política converteu-se em algo trivial, muito pessoal e desagradável. Quando estás na política activa vives num mundo à parte, em que só lês os jornais onde és referido, apesar de cada vez menos gente ler esse tipo de notícias.
Em vez de procurarem governar, vivem obcecados com histórias que não são importantes e tentam controlar tudo e todos. Vieram quase todos da oposição mas confundem inimigos com adversários. Assiste-se a um circo romano e a espectáculos desagradáveis e degradantes de como se deve fazer política com golpes baixos e insultos, Esta é uma das razões porque as pessoas estão enojadas com a política.
Esquecem-se que a política tem regras. A democracia é o dissenso e o antagonismo não é uma guerra. A luta é entre adversários com ideias diferentes não é uma luta entre inimigos em que alguém tem que sair ferido ou morto.
Hoje é teu adversário amanhã pode ser teu aliado numa coligação. As pessoas nem sempre estão de acordo. A democracia tem de acomodar desacordos. O importante é manter o nível numa disputa democrática e não ser uma guerra civil.
A forma de fazer política e a classe política tradicional estão démodé. A crise económica, desemprego, o estado social têm acentuado esse problema. Os partidos tradicionais não nos têm oferecido soluções mas somente cortes. A democracia não sobrevive sem soluções aos problemas.
Os vícios da política e a deriva populista que começa a corroer o sistema. Um dos eixos do mandato de António José Seguro foi a separação da política dos negócios, outro foi a revisão do sistema eleitoral. Não tenho dúvidas que no futuro vai-se converter em temas centrais na vida política portuguesa.
Outro problema grave é a desigualdade. A falta de reforma fiscal leva a que a classe média suporte um peso excessivo das obrigações do Estado levando ao descontentamento e ao apoio de derivas populistas. Assim está acontecer com o furacão Marinho Pinto. Se não há justiça social o sistema simplesmente não funciona. As grandes empresas e as grandes fortunas têm que ter uma maior carga fiscal. O combate à evasão fiscal deve ser um desígnio nacional, sendo ainda um flagelo social.
Os direitos humanos assim como um simples direito de um cidadão - ser informado pelo governo, como aplica os seus impostos. Esses direitos são a redenção do poder.
Os políticos têm uma legítima ambição de poder e o seu campo de jogo mas as suas acções devem incidir com rapidez e uma forma positiva na vida dos cidadãos para que estes possam reconhecer o seu mérito e que algo se está a fazer.
Um político deve saber mover-se entre os interesses, não tem tempo para o estudo e grandes criações, necessitando de repouso e solidão. Todavia deve escutar, fazer ou não caso do que escuta, mas deve sempre escutar. É o caso de António Costa perito em criar pontes e acordos.
O meu receio é o mesmo que Michael Ignatieff, «os populistas oferecem soluções falsas a problemas reais».
Os portugueses estão fartos destes políticos e desta política. Estão fartos de dar oportunidades. Quando se deixa de acreditar na democracia pode acabar-se a acreditar noutras coisas.
Sofro porque os políticos não são uma esperança, sim um problema. Há um enorme desprezo pela política e pelo compromisso. A maioria dos cidadãos acha que é uma perda de tempo que todos os políticos são corruptos, uns mais outros menos, mas cada um à sua maneira.
Portugal é o pais do " vamos ver", " agora é que vai ser". Não sei se é António Costa a solução num país em que os cidadãos já não crêem em nada, em figuras, muito menos em partidos ou qualquer governo, nem temos a menor ideia do que vai ser o nosso futuro.

JJ

*artigo publicado no PT Jornal

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