23/09/2014

Ribeiro e Castro: um dissidente político no Clube dos Pensadores




Ribeiro e Castro foi o convidado do Clube dos Pensadores que Joaquim Jorge trouxe para abrir o ciclo de debates de 2014/15, para fazer o seu balanço da legislatura PSD/CDS.
O convidado foi apresentado por JJ, logo no início do debate, como habitualmente feito pelo anfitrião, realçando o seu percurso político no CDS, governo e no Parlamento Europeu. Ou seja, estávamos diante de mais uma figura nacional que foi Presidente do CDS. Ribeiro e Castro fez um diagnóstico da situação de Portugal, que considerou ser difícil e porque aqui chegamos. Elogiou Vitor Gaspar e Maria Luis Albuquerque, que têm cumprido com o mandato da Troika, que foi a única alternativa que o país teve depois de ter gasto o que tinha e o que era dos outros (credores). Aliás, foi um dos aspetos que correu bem ao Governo, esta relação com a Troika (pudera, foi feito o que eles ordenaram, digo eu).
No entanto, criticou o facto do Governo estar a vender tudo e deu o exemplo dos Correios, “alguém algum dia imaginou que os Correios seriam privados”? Estamos a ficar sem nada e a dívida não diminuiu, concluiu. O que correu mal na legislatura foi a falta de coesão da coligação PSD/CDS, que face à gravidade da situação nacional, deveria ter um desígnio tipo AD.
Não se sabe nada sobre a política europeia, sendo certo que o espaço de manobra é conquistado no palco europeu, onde Portugal está ausente. A Reforma do Estado correu mal, pois não foi feita e tem faltado coragem para a impor ao país, porque não se pode viver com permanentes défices estruturais, razão da vinda da Troika, que evitou que o país desse um mergulho de chapa no fundo do poço. Criticou o facto do documento apresentado apresentar como palavra-chave “reformar não é cortar”, que pode parecer bonito, mas um erro político, porque reformar tem de significar cortar. Precisa-se de políticos com clareza  para reformar o Estado de modo que o país tenha capacidade de o suportar. Reformar é introduzir racionalidade ao Estado e permitir que a sociedade possa crescer. É preciso a cultura do exemplo.
Lembrou o discurso da tanga, de Durão Barroso, já lá vão 12 anos, para concluir que o problema não é recente, mas ninguém quis saber disso. Reformar é preciso e não só o Estado, mas também o sistema político. Os eleitos têm de ter mais independência das chefias políticas, mais próximos dos cidadãos. Hoje os partidos, sem exceção cultivam a “consumadocracia”, ao contrário do passado em que havia debate e só depois a decisão. Hoje são os chefes que decidem e comunicam aos restantes “yes-man”.
Ribeiro e Castro disse que hoje os partidos políticos afastam quem queira participar, porque pessoas válidas e com boas intenções, ao fim de 3 reuniões abandonam porque não estão para aturar o que vêm (a mediocridade reinante, digo eu).
Sobre o comportamento dos dois partidos da governação não se entenderem acerca da coligação para as próximas eleições, Ribeiro e Castro foi cáustico, sugerindo que é porque ambos estão a preparar caminho para possível coligação com outro (o PS), o que é muito mau.
Joaquim Jorge fez algumas perguntas diretas a Ribeiro e Castro, como a sua candidatura à liderança, negada pelo convidado. Também questionou acerca do custo da democracia.
Ribeiro e Castro lembrou o caso da Alemanha, em que os partidos estão baseados em Fundações, que garantem uma certa qualidade no “recrutamento”, respondendo também a uma questão colocada pela plateia. Esclareceu outra questão colocada por JJ, a de ser deputado pelo Porto, sendo ele de Lisboa. Gosta do Porto e quer fazer trabalho de círculo, mas a estrutura do seu partido no Porto dificulta-lhe a vida. Da plateia veio uma pergunta semelhante, se um deputado não deveria representar a sua terra.  Ribeiro e Castro concordou, mas também discordou, pois ele já representou outras cidades e sempre com sentido de responsabilidade. Mas na verdade o seu entendimento de proximidade com o eleitor desfaz esta questão e responde.
Ainda sobre a reforma do Estado, diz que o falhanço é do governo e em especial de Portas que a não concretizou, quando tinha a seu cargo o guião da reforma, sem que o documento fosse claro.
Ribeiro e Castro diz que é otimista, mas que o falhanço é dos partidos, todos, que afastam as pessoas. Os partidos são nas várias regiões do país, delegações franchisadas dos chefes, que os representam. Os partidos deixaram de respirar a sociedade e o país precisa de um sobressalto cívico em 2015.
À questão colocada sobre a falta de qualidade da política e dos políticos, a falta de credibilidade dos políticos e a crescente crise agravada, pese embora as medidas de austeridade, se não tem medo que o povo se canse e redunde numa revolução, Ribeiro e Castro disse que estamos no fim de linha e de facto pode acontecer, só não acontecendo porque estamos na UE. Caso contrário já teria acontecido. A Europa amortece a crise, mas é preciso fazer mais. Ribeiro e Castro enalteceu o papel do Clube dos Pensadores e do seu dinamizador, Joaquim Jorge.
Um bom debate a iniciar mais um ciclo que se antevê de qualidade, à guisa do que tem sido esta marca ao longo dos últimos quase 9 anos.


Mário Russo

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