26/04/2014

Agricultura de Portugal e agricultura de Espanha



Miguel Mota 
No Linhas de Elvas da semana passada (17-4-2014), o economista José António Contradanças faz  uma excelente análise da diferença entre as agriculturas de Portugal e de Espanha. Com base no que sabe e no que vê de um e de outro lado da fronteira de Elvas, mostra o chocante atraso da agricultura portuguesa em contraste com o bom desenvolvimento da agricultura espanhola.
Pedindo desculpa de ter de referir a minha pessoa, não posso deixar de dizer que, ao longo de dezenas de anos, em centenas de escritos, alguns no Linhas de Elvas, tenho chamado a atenção para as erradíssimas políticas de sucessivos governos e indicado o que, na minha opinião, é necessário fazer para o desenvolvimento da nossa agricultura. No Público de 6ª feira passada (18-4-2014) está o último desses artigos.
O que proponho não tem nada de original. Está mais que provado em todo o mundo e alguns casos pontuais em Portugal bem o demonstram. Os elvenses, pelo menos alguns dos agricultores que não sejam dos mais jovens, também o devem saber. Elvas tem uma instituição de investigação agronómica que, até ao início da destruição da agricultura (que incidiu fortemente sobre os organismos do Ministério da Agricultura necessários ao seu desenvolvimento), tinha grande projecção internacional e deu muito dinheiro à agricultura, principalmente do Alentejo. Refiro-me à Estação de Melhoramento de Plantas, mais tarde designada Estação Nacional de Melhoramento de Plantas.
Alguns dos citados agricultores talvez se lembrem das muitas variedades de cereais e forragens ali “fabricadas” e que, pela sua maior produtividade, deram muito dinheiro à agricultura do Alentejo. O primeiro trigo lançado na lavoura foi o ‘Pirana’, a que se seguiram o’Lusitano’, o ‘Restauração’ e muitos outros. Das forragens creio que a primeira foi o ‘Grão da Gramicha’, que também teve grande expansão. Já lembrei várias vezes (e perdoem-me que o repita) as palavras do então Secretário de Estado da Agricultura, na sessão comemorativa dos 25 anos da Estação, em 1967, quando disse que, em troca das escassas dezenas de milhar de contos investidos no organismo, a lavoura colhera a mais um valor estimado em um milhão de contos.
Hoje, a investigação no Ministério da Agricultura está reduzida a uma pequena amostra do que foi, consequência da destruição deliberada e criminosa (do ponto de vista da ciência e da economia) a que foi sujeita. E temos o país no estado em que está.
Do nível científico da Estação de Melhoramento de Plantas falam, além das publicações dos que lá trabalharam, os numerosos cientistas estrangeiros que a visitavam. Em 1970, por indicação do então Secretário de Estado da Agricultura, o Eng.º Vasco Leónidas, tive o honroso e agradável encargo de receber e de o acompanhar a Elvas, esse muito ilustre agrónomo que era o Dr. Norman Borlaug, na sua primeira visita a Portugal. Uns dois meses depois, o Dr. Borlaug recebia o Prémio Nobel da Paz, pelos seus notáveis trabalhos de combate à fome no mundo, precisamente através da investigação agronómica. Essa foi apenas a primeira de várias visitas que fez à Estação.
O actual governo travou a destruição geral que a agricultura vinha sofrendo. Mas, tanto quanto sei, a investigação continua aquém do que podia ser, mesmo nestes tempos de extrema penúria. E a solução dos problemas não cai do céu. Sem a investigação agronómica não seremos capazes de desenvolver significativamente e continuadamente a nossa agricultura.

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