26/08/2013

DOMINGO TERAPÊUTICO

Tereza Halliday
Alguns médicos e psicoterapeutas “descobriram a pólvora”: recomendam reservar um dia por semana, sem trabalho nem perturbações, como terapia para os exauridos e estressados. Uma prática de higiene da alma, embutida há milhares de anos na observância religiosa do shabbat judaico e do domingo cristão. “Santificar” um dia para recuperar energias físicas e espirituais tornou-se recomendação de saúde.

            Infelizmente, estamos habituados a tratar o domingo como um contêiner que tem de ser enchido até a borda com atividades, diversões,  convivência barulhosa. Esta prática distorce um das funções terapêuticas do dia de descanso: desacelerar.  Curtir o dia, mas sem ceder às pressões do marketing de entretenimento, ou do grupo de amigos para participar do que quer que seja, a não ser que você esteja realmente “a fim”. Desfazer-se da noção deletéria de que não fazer nada, uma vez por semana, é uma perda de tempo. É legal preguiçar.  Precisamos desse tempo de qualidade para tratar feridas e calos provocados pelas cobranças diárias no desempenho de tantas funções. Nem que seja por apenas 12 horas semanais – metade de um dia para restaurar a força interior, no silêncio e na atenção às pequenas coisas que desaprendemos a curtir: cheiros, cores, sabores, texturas, sons naturais, música - violão, flauta, pandeiro,  sem microfone, pode! Tomar banho sentindo a água e o sabonete, dançar no meio da casa, atentar para o vapor emitido pela chaleira, os dedos das mãos se mexendo, o ritmo da respiração.

O domingo deveria ser dia de recolhimento para religiosos e não religiosos. Pausa para desintoxicar-se das tecnologias do trabalho e do lazer: TV, computador, sistemas de som, pluguezinhos de ouvido, telinhas diversas que respondem ao toque dos dedos. Os pais se desprendam da compulsão de levar os filhos a algum lugar para distrai-los, porque durante a semana não houve tempo para sair com eles.  Fiquem com eles! Somente isto.  Façam coisas juntos em casa, deem uma volta a pé, leiam um livro de papel.  Conversem, joguem, brinquem, sem i-pads, i-phones,  mouses e controles remotos de permeio -  olho no olho, voz ao vivo, abraços. Nem que seja apenas uma vez por semana!

    O domingo terapêutico nos chama a prestar atenção à mudança de formato das nuvens, os tons da agua do mar, lagoa ou rio, acompanhar com o olhar uma fileira de formigas, deter-se nos detalhes das folhas de plantas e árvores ao redor. A Natureza acontecendo e nós nem-nem... justamente por estarmos assoberbados, dispersos, de cabeça entulhada e reféns das expectativas dos outros, inclusive dos promotores de eventos. Não admira que sejamos adoecidos pela falta de contato com a Natureza e conosco mesmos.  Entre as reivindicações, um dia de descanso sossegado, para higienização da mente, alma e espírito. Tão simples,  tão nutritivo e reparador!    

(Diário de Pernambuco, 26/8/2013)