13/12/2012

Justiça no Clube dos Pensadores

Manuel Cruz
No dia 10, também com uma noite televisiva de futebol – Sporting-Benfica – a sala habitual dos debates do CdP estava cheia para receber a procurador geral adjunta do Ministério Público, Cândida Almeida e directora do DCIAP e ouvir falar da justiça no nosso país.
Depois da apresentação da oradora por Joaquim Jorge , a primeira mulher magistrada portuguesa, esta começou por dizer que se sentia em casa, pois havia nascido há 63 anos na cidade do Porto.

Várias foram as questões abordadas por Cândida Almeida e as respostas às perguntas formuladas pelos presentes, que no final recebeu uma prolongada salva de palmas.

É um pouco esquizofrénica a ideia de que é o Ministério Público que passa as informações, violando assim o segredo de justiça, quando a manutenção deste foi uma exigência e uma pressão feita pelo Ministério Público aquando da última revisão do Código do Processo Penal, que prevê a publicidade do processo. Nós dissemos não, pois sobretudo nos processos mais complexos, dá cabo da nossa investigação e rejeitamos qualquer ideia de que é o MP a patrocinar essas fugas.

Os magistrados são pessoas conscientes

No caso do BPN, afirmou que o mesmo já deveria estar julgado, desconhecendo as razões pelas quais isto ainda não aconteceu. O que sei é pela imprensa que dá conta da existência de apenas duas sessões semanais, que considero poucas para a sua resolução, afirmando que no tocante ao DCIAP a investigação foi muito rápida, pois demorou cerca de um ano.

Os julgamentos deveriam ser mais céleres e defendo que tem de haver uma intervenção para evitar os muitos abusos que apenas servem para protelar as decisões judiciais, que levam até à prescrição de alguns processos. Os cidadãos deverão ter o dever de colaborar com a justiça, denunciando situações que conhecem, pois o MP não tem uma varinha de condão para saber onde e como há corrupção.

Embora tenha sido aberta uma linha para a recepção de denúncias anónimas, o MP não actuar somente pelo diz-se diz-se , recordando que desde Novembro de 2010 foram recebidas mais de duas mil denúncias e nem dois por cento se referiam a corrupção, sendo os maiores volumes os respeitantes a fraudes fiscais e até a pedidos de ajuda. Não podemos ir atrás da corrupção se ela não nos chegar por via da denúncia.

Quando os tribunais recebem mais de 400 mil processos por ano, aqueles que saltam cá para fora são cerca de 30, que são os mais difíceis e complexos por envolverem, normalmente nomes sonantes. Muita coisa está mal, principalmente na família e nos menores, mas estamos a tentar resolver isto.

Ainda sobre o recente caso de Medina Carreira, a procuradora recordou que o processo passa não só pelo MP, por funcionários, pela polícia criminal, pelo juiz e por outros agentes. É muita gente que a ele tem acesso. Nós sabemos de onde surgem essas fugas, mas não as podemos provar, porque a lei nos proíbe e nós cumprimos a lei.

A uma pergunta sobre a justiça nos Estados Unidos, respondeu que a mesma não é mais célere que a nossa, porquanto a investigação do caso Murdoch demorou 8 anos e que o processo do assassinato de Carlos Castro teria tido solução mais rápida em Portugal, referindo ainda que em cerca de 95% dos casos neste país são decididos por acordo ou negociação.

A sua presença numa iniciativa política a convite do PSD foi de índole pessoal, no exercício da minha cidadania, tal sucedeu ou pode suceder com qualquer outros partidos. Embora já me tivessem colocado no PCP aquando do caso Otelo (FP25), no PS (caso Sócrates) ou no CDS(caso dos submarinos) sou uma cidadã independente e não estou colada nem aos partidos nem aos governos. Ainda sobre Otelo considerou-o como “uma pessoa que se enleva com ele próprio”.

Fechou com chave de ouro este ano de debates do CdP, cuja continuidade, segundo Joaquim Jorge, ainda não está garantida, o que se espera e deseja não venha a ser consumado.