Ricardo Arroja
Vivemos num mundo estranho. À superfície tudo parece estar bem. Quem analisa os lucros das empresas conclui que, com maior ou menor oscilação, é tudo um mar de rosas. Mas não é. A evidência empírica mostra que essa riqueza não está a chegar aos bolsos das famílias de forma igualmente proporcional. Existem algumas razões que justificam o acentuar das desigualdades na distribuição do rendimento. A Globalização é a principal. Este fenómeno colocou pressão no emprego de baixo valor acrescentado. E todos os dias pressiona na alta o preço das matérias primas, contribuindo para a redução do poder de compra da generalidade das famílias. Assim, para uma boa parte da população, os salários nominais crescem pouco – quando crescem. E os salários reais, isto é, os vencimentos ajustados pela taxa de inflação, não crescem de todo – em alguns casos, têm até regredido bastante. Uma parte cada vez maior do rendimento das famílias vai para a alimentação e combustíveis. E há ainda os créditos que têm de ser pagos.
Os leitores que acompanham esta coluna sabem que, de forma recorrente, regresso a certos temas. A inflação é um desses tópicos. Todos os dias, assistimos a episódios, relatados pela imprensa escrita ou pela televisão, que testemunham a situação débil de muitas famílias portuguesas. Houve uma reportagem recente, suponho que num telejornal, que me impressionou particularmente. Dizia respeito ao preço do pão. Discutia-se o aumento do preço do trigo e da farinha, e o consequente impacto no preço da carcaça. De facto, no mercado de futuros norte-americanos, que serve de bitola mundial, o preço do trigo já valorizou mais de 50% desde o início do ano. O preço do pão só pode mesmo aumentar. E não aumenta mais porque os profissionais da panificação ainda não passaram para o consumidor os custos integrais associados ao aumento da matéria prima. Confesso que não gostei nada de ver aquela interessante reportagem. Porque, pareceu-me, quando se começa a discutir o preço do pão, é sinal de que algo vai realmente mal.
De resto, as valorizações dos preços das matérias primas não se resumem ao trigo. Ainda no segmento das agrícolas – também chamadas de “soft commodities” – a soja regista este ano uma valorização que aproxima os 50%. Por sua vez, o cacau está a ganhar cerca de 20% desde o início. No domínio dos combustíveis, a situação é igualmente trágica. Desde o início deste ano, o preço do petróleo já valorizou mais de 50%. O preço do gás natural regista um aumento próximo dos 30%. E o preço do “heating oil”, utilizado nos Estados Unidos para aquecer as casas durante o Inverno, já ganhou quase 60% desde Janeiro. Com estas oscilações não há carteira que não arrefeça na altura de ir ao supermercado ou de abastecer na bomba mais próxima de si. O problema, e é aí que reside a carga dramática da realidade actual, é que falamos de despesas em não há grande forma de reduzir a sua incidência. Em maior ou menor grau, as pessoas têm de abastecer para se mover. E certamente têm de comer para viver.
A situação no terreno é camuflada pelas estatísticas oficiais. A taxa de inflação, que organismos como o Banco de Portugal e outros divulgam, está a 2%. Excluindo a alimentação e os combustíveis. Mas a taxa de inflação que a maioria da população sente é superior. Bem superior. Como não podia deixar de ser. O dinheiro que entra nas carteiras dos portugueses é aéreo. Voa. Desaparece. Esfuma-se num golpe de magia. E a situação nos tempos mais próximos não deverá melhorar por aí além. Enquanto não se esgotar o potencial de convergência económica entre o mundo emergente e os países ocidentais. Enquanto não se investir a sério em nova capacidade produtiva no sector agrícola. Enquanto não forem exploradas energias alternativas que permitam acomodar a procura adicional que agora vem de países que até aqui viviam na miséria. Os bancos centrais e organismos públicos, através das armas de que dispõem (a taxa de juro e a impressão de papel), nada podem fazer quanto ao preço das matérias primas. Mas também não devem cair na tentação, como se está a fazer na América, de imprimir papel, esventrar a moeda, e esperar que os problemas desapareçam. Porque com essas medidas populistas apenas criarão um problema ainda maior: a aparente ilusão de que é tudo uma maravilha. E que, se calhar, até nem é má ideia contrair mais um pequeno crédito, qualquer dia, quiçá, até para poder comer.
Pedro Arroja Gestão de Patrimónios S.A , membro do clube
Vivemos num mundo estranho. À superfície tudo parece estar bem. Quem analisa os lucros das empresas conclui que, com maior ou menor oscilação, é tudo um mar de rosas. Mas não é. A evidência empírica mostra que essa riqueza não está a chegar aos bolsos das famílias de forma igualmente proporcional. Existem algumas razões que justificam o acentuar das desigualdades na distribuição do rendimento. A Globalização é a principal. Este fenómeno colocou pressão no emprego de baixo valor acrescentado. E todos os dias pressiona na alta o preço das matérias primas, contribuindo para a redução do poder de compra da generalidade das famílias. Assim, para uma boa parte da população, os salários nominais crescem pouco – quando crescem. E os salários reais, isto é, os vencimentos ajustados pela taxa de inflação, não crescem de todo – em alguns casos, têm até regredido bastante. Uma parte cada vez maior do rendimento das famílias vai para a alimentação e combustíveis. E há ainda os créditos que têm de ser pagos.
Os leitores que acompanham esta coluna sabem que, de forma recorrente, regresso a certos temas. A inflação é um desses tópicos. Todos os dias, assistimos a episódios, relatados pela imprensa escrita ou pela televisão, que testemunham a situação débil de muitas famílias portuguesas. Houve uma reportagem recente, suponho que num telejornal, que me impressionou particularmente. Dizia respeito ao preço do pão. Discutia-se o aumento do preço do trigo e da farinha, e o consequente impacto no preço da carcaça. De facto, no mercado de futuros norte-americanos, que serve de bitola mundial, o preço do trigo já valorizou mais de 50% desde o início do ano. O preço do pão só pode mesmo aumentar. E não aumenta mais porque os profissionais da panificação ainda não passaram para o consumidor os custos integrais associados ao aumento da matéria prima. Confesso que não gostei nada de ver aquela interessante reportagem. Porque, pareceu-me, quando se começa a discutir o preço do pão, é sinal de que algo vai realmente mal.
De resto, as valorizações dos preços das matérias primas não se resumem ao trigo. Ainda no segmento das agrícolas – também chamadas de “soft commodities” – a soja regista este ano uma valorização que aproxima os 50%. Por sua vez, o cacau está a ganhar cerca de 20% desde o início. No domínio dos combustíveis, a situação é igualmente trágica. Desde o início deste ano, o preço do petróleo já valorizou mais de 50%. O preço do gás natural regista um aumento próximo dos 30%. E o preço do “heating oil”, utilizado nos Estados Unidos para aquecer as casas durante o Inverno, já ganhou quase 60% desde Janeiro. Com estas oscilações não há carteira que não arrefeça na altura de ir ao supermercado ou de abastecer na bomba mais próxima de si. O problema, e é aí que reside a carga dramática da realidade actual, é que falamos de despesas em não há grande forma de reduzir a sua incidência. Em maior ou menor grau, as pessoas têm de abastecer para se mover. E certamente têm de comer para viver.
A situação no terreno é camuflada pelas estatísticas oficiais. A taxa de inflação, que organismos como o Banco de Portugal e outros divulgam, está a 2%. Excluindo a alimentação e os combustíveis. Mas a taxa de inflação que a maioria da população sente é superior. Bem superior. Como não podia deixar de ser. O dinheiro que entra nas carteiras dos portugueses é aéreo. Voa. Desaparece. Esfuma-se num golpe de magia. E a situação nos tempos mais próximos não deverá melhorar por aí além. Enquanto não se esgotar o potencial de convergência económica entre o mundo emergente e os países ocidentais. Enquanto não se investir a sério em nova capacidade produtiva no sector agrícola. Enquanto não forem exploradas energias alternativas que permitam acomodar a procura adicional que agora vem de países que até aqui viviam na miséria. Os bancos centrais e organismos públicos, através das armas de que dispõem (a taxa de juro e a impressão de papel), nada podem fazer quanto ao preço das matérias primas. Mas também não devem cair na tentação, como se está a fazer na América, de imprimir papel, esventrar a moeda, e esperar que os problemas desapareçam. Porque com essas medidas populistas apenas criarão um problema ainda maior: a aparente ilusão de que é tudo uma maravilha. E que, se calhar, até nem é má ideia contrair mais um pequeno crédito, qualquer dia, quiçá, até para poder comer.
Pedro Arroja Gestão de Patrimónios S.A , membro do clube

