17/06/2007

ROMPENDO SILÊNCIOS...



Guacira Maciel



Por solicitação do querido Joaquim Jorge, hoje desvisto-me de mistério... e saio à luz .
Muitos deverão estar sem compreender bem a minha participação neste espaço, vez que é um “locus” de discussão de um Portugal íntimo; doméstico (apesar dessa incongruência chamada globalização).
Entretanto, como poeta que sou, não tenho muitos limites, em se falando de cultura, e a essa dimensão se restringe a minha participação, devendo acrescentar que muito prazerosa... sentimentos também não nos impõem limites ; logo, também devo dizer que estou conhecendo caminhos reais e mais íntimos dessa terra que não conheço, na dimensão que nos impõe o cotidiano. Quero dizer, também, enquanto não me entrego a divagações, que senti muita alegria quando o referido gestor, em seu espírito cosmopolita, na acepção filosófica da palavra, me convidou à participação; lembro que eu houvera feito tímido comentário a uma das postagens, pedindo tolerância pelo fato de ser estrangeira.
Escrever aqui é um prazer que até agora foi privativamente meu; só meu. Mas hoje divido-o com vocês e poderão me conhecer um pouco, pois estou me dirigindo, humanamente, a cada um, deixando de ser uma subjetividade de além mar. Agora estou aqui e lhes pertenço um pouco, embora uma profunda selva oceânica nos separe por entre verdes e azuis de úmido e concreto. Não sou especialista em solidão, ao contrário, sou muito comunicativa; preciso vaguear pelas cabeças, dar voltas à imaginação; esta é a missão do poeta. A solidão só lhe é bem vinda em criação, por ser este um ato solitário, semelhante ao parir, para as mulheres, vez que um e outro têm a mesma gênese (expelir, pôr alguma coisa para fora de si).
O Joaquim Jorge referiu pelo MSN, haver alguma curiosidade em relação a mim; pois, agora poderemos romper nossos silêncios: quem sou eu para vocês? Como entendem o que aqui escrevo? E quem são vocês? Como vivem essas pessoas que desvendam um pouco a minh’alma, através do que escrevo? Será que chego, um pouco que seja, aos seus corações? Apenas eu, nada sei de vocês... não vejo a reação que têm quando lêem um poema meu ou um texto mais afeto à educadora, que sou...causa-lhes alguma perplexidade a minha forma de mostrar o que penso e como digo isso?
Ao que já sabem, acrescento ter nascido numa terra morena, com praias que dormitam brancas e azuis, embaladas à sombra de coqueiros, plena de sons ancestrais; samba no pé; de sensualidade à flor da pele, salpicada com gotas de outros sangues planetários que se aderem e se misturam. Uma terra em que os quadris se acostumaram ondular, como as marolas da preamar, pelas ruas penduradas como bandeirolas em suas ladeiras que se estendem preguiçosamente. Cujos sorrisos são queixumes e o estar é som e cor!...
Apesar de tudo, não me sinto aqui uma estranha, ainda que pertencendo a outro espaço físico, vez que me acompanham todos os mitos culturais que sobrevivem em minha memora remota, invocando Jung, que fala do nosso imaginário coletivo. “Falando” com vocês, não me desloco fisicamente no espaço, mas o faço indo ao seu encontro num espaço contido nessa memória; se muito do que aqui digo, lhes é endereçado, logo, ao pensar em vocês estou um pouco no seu espaço físico, acompanhada da minha memória. Então, me desloco no tempo e no espaço. Complicado?
continua