05/06/2007

O Poder da repulsa social




Rui Pinto


Estes últimos dias tenho mergulhado nas profundezas da minha consciência democrática. Nasci ainda “no tempo da outra senhora”, cresci no tubo de ensaio do pós- 25 de Abril e vi florescer uma democracia tímida, regada por águas turvas, poluídas por uma selvajaria sem escrúpulos ávida de dinheiro. Para os “self made men” revolucionários não há meios que os impeçam de chegar aos fins. A educação dos tempos da Mocidade Portuguesa está entranhada nas suas consciências e isso fez deles “Salazarinhos”, são os filhos da ditadura que jubilaram com a liberdade de poderem eles próprios pôr em prática as lições do todo-poderoso ditador. Ainda hoje vivemos amordaçados por esse fantasma, que recentemente foi eleito o “Grande Português” de todos os tempos. Imaginem o que não vai na cabeça do “Patrãozinho” que saca da empresa tudo o que pode, foge ao fisco como ninguém, e dá esmola a meia dúzia de lambe botas que se vendem em troca de queixinhas ignóbeis – Eu sou o Grande Empresário – pensam eles… E o pior é que se gabam aos filhos e amigos, e estes batem palmas e admiram-no, querem ser como ele, imaginem só! “Empresários de Sucesso”. O que mais me incomoda é que a tão falada nova geração de empresários tarda a chegar, porque estes velhos caducos não largam o poder e pior, passaram os maus exemplos aos seus seguidores.
Este é o estado do nosso país, este é o cancro que nos vai tornando nos mais pobres e mais atrasados da Europa.
Que fazer? Esta pergunta atormenta-me e sinceramente só vejo uma solução.
A força da repulsa social, o poder da repulsa social.
Ora vejamos, se um destes medíocres patrões durante um almoço de negócios, pura e simplesmente “larga-se umas farpas mal cheirosas”, ou “tira-se umas catotas do nariz e as saboreasse”, provavelmente era recriminado e até abandonado. Se no final do almoço, em plena via pública este senhor urinasse contra a porta de um automóvel estacionado por ali, sem se incomodar com quem passava, o mais normal era ser julgado e condenado na hora pelos seus pares, talvez os seus negócios não corressem tão bem. Então porque é que continuamos a admirar esta corja de trapaceiros que rouba o estado, todos nós, que corrompe políticos, funcionários públicos e tudo o que os impeça de conseguir os seus objectivos? Porque não sentimos repulsa? Porque não sentimos repulsa quando alguém deixa o seu carro em 2ª fila incomodando tudo e todos, ás vezes para ir a uma missa proclamar o amor pelo próximo. Porque não sentimos repulsa quando alguém saca de um cigarro dentro do automóvel onde transporta os seus filhos? Porque não reagimos? Porque não apontamos o dedo?
Mais poderosa que as leis, mais poderosa que as notícias sensacionalistas, mais poderosa que a autoridade distraída… É nossa indignação, a nossa repulsa. Temos que nos indignar e mostrar o NOJO que sentimos pelo desrespeito das regras básicas da nossa sociedade. Temos que virar a cara aos prevaricadores. Temos que reclamar, quando somos atacados por comportamentos que agridem a nossa dignidade como cidadãos. Temos que os condenar e deixa-los sós. Sintam NOJO e não admiração, sintam VÓMITOS, e não inveja. Usem a repulsa social como uma arma para salvar a nossa democracia social, porque a democracia politica, essa está condenada.


Consultor SI.