26/05/2007

Sociedade acrítica e amordaçada



Mário Russo

Acompanhei pela imprensa a caso da suspensão preventiva de um professor em serviço na DREN, alegadamente por ter feito comentários em privado que nos remeteria às condições especiais da obtenção do diploma de licenciatura do nosso PM José Sócrates na Universidade Independente. Também assisti ao espectáculo que Mário Lino, engenheiro, deu num almoço na Ordem dos Economistas, acerca da localização da OTA. E fiquei muito inquietado. Aproveitei a minha participação num congresso internacional para comentar com dois colegas estrangeiros de nacionalidades diferentes, também engenheiros, investigadores e professores em reputadíssimas universidades, estes dois casos e explanar-lhes tecnicamente quanto possível, as condições reais da OTA e da margem sul do Tejo e os argumentos que têm sido esgrimidos pelo governo para impor a solução OTA, colhendo a sua opinião. Ficaram estarrecidos no que respeita à atitude anti-democrática da “zelosa” directora e imprópria de um país democrático. E perfeitamente incrédulos quanto aos argumentos técnicos do governo socialista quanto à localização da OTA. Estes dois casos, completamente diferentes, parecem não ter conexão, mas na realidade têm e é preocupante. No primeiro caso, não tenho dúvidas que José Sócrates é a pessoa que menos queria que tal sucedesse, porque vem à ribalta um episódio que ele quer esquecer o mais rápido possível, mas é o resultado da sua política autoritária e autista a fazer discípulos. O segundo caso, revela o desespero de governantes que utilizam os argumentos mais insólitos, inclusive o do terrorismo, utilizado por Almeida Santos, presidente do partido, para nos impor uma má solução a qualquer custo e sem dar “cavaco” a ninguém. Margem sul “jamais” – é o traço da ditadura.
A directora da DREN, é o rosto de um exército de “yes-man/woman” que interiorizou a “ditadura” do partido no governo, tão bem secundado pelo “bufo” que delatou o seu colega, qual informador da Stazi ou PIDE, em busca de dividendos. Quanto à OTA, não precisando da caução técnica de meus colegas estrangeiros, é sempre reconfortante ter confirmação tão veemente de que é uma barbaridade a decisão, com a falsa bênção da defesa do ambiente (que tem costas largas).
Qualquer dos acontecimentos preocupa-me muito e, pese embora a monstruosidade que é a decisão OTA, o episódio do “bufo” e da Directora “Job for the boys” não só me revolta como me preocupa seriamente. Sei o que foi a PIDE e o que era ter falsos “colegas” Pidescos na Faculdade (descobertos depois do 25 de Abril). Por isso, parafraseando Manuel Alegre: eu não me calo, porque não tenho medo, caso contrário, como escrevia Maiakovski, poeta russo assassinado pela sanguinária revolução leninista, não teremos direito à solidariedade:
Permitam-me reproduzi-lo:

Na primeira noite, eles aproximam-se
e colheram uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.

Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam o nosso cão.
E não dizemos nada.

Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz,
e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.

engenheiro e membro do clube