13/05/2007

SÉGONÈLE ROYAL



Joaquim Jorge *





Esta senhora, filha do tenente-coronel Jacques Royal, foi incrível no esforço e na coragem para se bater e contrapor a Sarkozy, que enquanto ministro do Interior viu aumentar a violência urbana, com as agressões pessoais e a queima de automóveis. Encarnou como ninguém o que é a função da política, que deve procurar no dia-a-dia o bem-estar dos cidadãos.Não podemos continuar a fingir que se pode tomar decisões sem saber o que as pessoas pensam delas, sem as envolver. A política tem de ser mais transparente e mais aberta. A política lá, em França, como cá, atravessa uma série crise de confiança. Os cidadãos deixaram de acreditar em parte, pelo menos em parte, na sua utilidade. É necessário fazer ver que a política é necessária, e que existe para resolver os problemas concretos das pessoas e que muitos problemas só se resolvem mudando o contexto em que fazemos as coisas. Temos que nos envolver mais nos debates e no diálogo com os cidadãos. O exemplo de Ségo, em que o seu programa presidencial inspirou-se em 6.200 debates e 130.000 mil contribuições de “internautas – eleitores”, é elucidativo.Esteve na defesa do poder aquisitivo, luta sem quartel contra a exploração – sobretudo juvenil, protecção da família e educação. Estes foram os principais pilares da candidata socialista. Foi inovadora ao propor a criação de “júris populares”, para julgar as acções políticas. A criação de observatórios (independentes do poder político), para fazerem a avaliação da aplicação dos programas e das promessas da campanha eleitoral. Isto é que é, um exemplo de participação cívica que conta com a colaboração activa dos cidadãos. A avaliação deve ser para todos, assim como a sua responsabilização. É importante para os políticos saberem como os eleitores sentem as políticas seguidas.Todavia estas propostas e outras arrojadas foram vistas com desconfiança, por parte do eleitorado assim como do próprio partido. No fundo Royal esteve contra todos. Contra o seu adversário Sarkozy e o seu partido não lhe perdoou que se tenha imposto no debate interno sem ter recorrido a nenhuma das grandes famílias. Não contou durante a campanha com a máquina do PS, mas sim com uma equipa alternativa. Isso parece que não, mas contou na contagem final. A inimizade de alguns dos seus dirigentes foi por demais evidente, bastava olhar para as plateias dos seus comícios. Nas plateias, um público jovem heterogéneo e multicolor, bem distinto do engravatado e uniformemente branco que respaldava com Sarkozy.Contudo esta derrota amarga e sentida pode ser o começo da renovação da esquerda, a busca de novas convergências. A promessa de luta contra todas as discriminações mostrou o seu fervor e a sua força de carácter. Perdeu uma batalha mas não perdeu a guerra. A sua próxima luta será as legislativas em meados de Junho. Vamos ver até onde vai a ambição dos seus rivais socialistas. O PS Francês tem que inevitavelmente fazer o seu trabalho de casa. Se tal acontecer não foi uma derrota em vão.



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* Biólogo .Escreve, semanalmente aos domingos