Portugal está cada vez mais numa encruzilhada sem
precedentes na sua história. Provavelmente vive-se o momento mais negativo e
perigoso da nossa existência como nação. Não é exagero. A dívida pública
simplesmente não é pagável nas condições draconianas impostas, reconhecidas à
surdina ou à voz baixa, pelo próprio FMI, o triturador de países frágeis.
A receita continua a mesma, a de ajustar o regabofe de 3
décadas em apenas 2 anos, alargado agora para 3. A receita é criminosa, pois é redundante
e cai num círculo vicioso de empobrecimento galopante, sem dar espaço à
economia, essa sim, geradora de receita para sair da crise.
O problema não é apenas português, que seria mais um trunfo
em negociações com os credores, desde que conduzido por gente competente, mas
do modelo depredador de casino da economia mundial. A Europa está quase toda
ela a entrar na vertiginosa deriva ciclónica do furacão e as lideranças insistem
em misturar café com leite para dar vinho. Pensam que é a crise dos países do
sul. Ledo engano. A contaminação é evidente e os resultados serão um desastre,
se nada se fizer em contrário à doutrina vigente.
Portugal carece de um Governo com experiência e competência
para lidar com esta complexa equação. O Governo ainda não conseguiu uma única
vitória nas previsões que tem feito sobre os resultados das políticas que vem
encetando. De derrota em derrota, insiste na mesma receita de destruição
económica e desagregação social do país. Teima em não negociar, como Miguel Cadilhe
diz, com honra, enquanto é tempo. Exibe uma miopia que nos assusta. Pedro Passos Coelho (PPC) é um
homem perigoso com as suas convicções fanáticas, pois não houve ninguém, nem a
evidência dos factos.
Por outro lado, António J. Seguro ( AJS), que poderia protagonizar
uma real alternativa, também não está à altura dos acontecimentos, colocando-se
numa posição de populismo gratuito e fácil, esquecendo-se que corre o sério
risco de ser governo mais cedo que julgam e com um enorme problema para
resolver e sem solução para o mesmo, correndo o risco de novamente ser considerado
tão mentiroso como Sócrates o foi e agora PPC se transformou.
Se há um momento em que não só os partidos, mas a sociedade toda,
deveria estar a dialogar e discutir alternativas, é exatamente esta. É um
imperativo patriótico que ninguém se deveria furtar.
Pese embora não reconhecer qualquer credibilidade a este
governo, que enganou milhões de portugueses, também não posso aceitar que
apenas se rejeite o que é proposto, por vezes sem se saber o que é, sem dar uma
única solução credível. Não basta dizer que se é contra a revisão da
constituição, como se isso fosse suficiente para defender um estado social
excelente, porque se assim fosse, os portugueses não estariam na penúria e na
eminente situação de não terem dinheiro para as pensões de reforma daqui a uns
anos, porque a constituição não foi mudada e não impediu esta falência
generalizada.
Com efeito, é preciso definir o que queremos de estado
social. Quais as funções do Estado e qual o nível de prestação que deve ter.
Como proteger os mais desfavorecidos e evitar injustiças sociais, bem como com
que meios se financia este Estado Social. Este é o que considero, há muito, o
trabalho de casa. É a grande reforma por fazer, pois se define o que queremos
de Estado Social, o seu âmbito, a extensão da sua ação e o modo como é
financiado, com o que produzimos. Se queremos mais, temos de produzir mais. Só
assim se pode sair da crise com dignidade e mostrar aos credores que somos
portadores de boa-fé, mas queremos oportunidade para honrar os compromissos de
um povo digno e sério, mesmo que alguns dos que nos governam o não sejam.
E é por isso que não se pode evocar a falta de educação de
PPC ao convidar AJS fora de tempo, para não participar desta mãe de todas as discussões,
porque no mínimo servirá para denunciar o que está a ser preparado à sorrelfa
por este grupo de autistas trituradores do povo português.
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| Mário Russo |

