Joaquim Jorge *José Sócrates foi recebido em Abrantes com vaias de centenas de manifestantes contra a anunciada redução do número de valências do hospital. Há dias, no 10 de Junho, também foi vaiado, ao contrário de Cavaco Silva. Nesse dia saiu sem dizer nada. Porém desta vez procurou minimizar os estragos, recuando e indo ao encontro dos manifestantes. Só lhe fica bem, ouvir as pessoas e entender o que dizem, olhos os olhos. Os cidadãos querem viver com um mínimo de dignidade e de condições, estando contra as atrocidades e injustiças cometidas pela máquina monstruosa do Estado.Esta postura contrasta com a tida há algum tempo, com os professores na sua recepção na Madeira em que foram identificados vários docentes na esquadra (numa atitude intimidatória), por alegadamente terem proferido impropérios ou coisa que o valha. Ou ter fugido de várias manifestações aquando da sua visita a algumas localidades do país. Insurgindo-se contra este tipo de acções, mostrando desprezo, altivez e desdém, procurando desvalorizar o argumento dos manifestantes, atacando não os seus argumentos mas as pessoas que o sustentavam.Esta mudança táctica, não é alheia ao discurso do Presidente da República que apela ao inconformismo, lembrando tempos passados, do apelo de Mário Soares à indignação. Sócrates se continuasse, neste autismo, daqui a pouco estava incompatibilizado com todos os grupos sociais e económicos restando-lhe a Presidência da República.Um pouco de humildade é bonito mas isso deve–se exclusivamente à verificação que não tem outra saída , senão será o seu isolamento total. Mário Soares, em Setúbal enviou vários avisos que devem ser tidos em conta, no sentido de alertar para os perigos se prosseguirem estas políticas de asfixia e estrangulamento económico a qualquer preço. As eleições em Lisboa , apesar do PS poder vencer, será sempre um resultado insuficiente.Esta mudança é mais pela conjuntura política do que de «motu proprio». O que não deixa de definir o carácter do nosso ilustre primeiro-ministro … Recentemente, no início da presidência portuguesa da EU, a história repetiu-se e José Sócrates entrou pela porta lateral, evitando assim a “recepção”.
Mais: Uma comissão técnica de peritos sustentou, ou diria, preparou a opinião pública, sobre a eventualidade de não se usar tantas vezes os cuidados de saúde. Põe a hipótese de acabar com a ADSE , alegando que é injusto este sistema em relação aos privados. Mais uma vez dividir para reinar. Os desgraçados dos funcionários públicos são sempre os maus da fita. Toda a vida ganharam mal em relação à mesma categoria dos privados e agora no final da sua vida profissional, ficam do pé para a mão, sem direito a serem tratados. Meus amigos a saúde das pessoas e a sua vida não se compadecem com relatórios ou directrizes de quem quer que seja, muito menos de governantes que brincam com este tipo de coisas. Se é preciso eficiência nos recursos comece-se por cima na contenção de despesas: menos assessores para controlar a imprensa e outros serviços; não ser permitida a compra de carros para a administração central e autarquias; redução salarial de quem manda e respectivas mordomias; não permitir que se ganhe eleições com determinado tipo de promessas que depois não se cumprem; etc, etc. A culpa é dos portugueses que votam em pessoas que têm atitudes persecutórias. Ao perscrutar os “factores microscópicos”, que não aparecem nos relatórios e nos inquéritos, mas que explicam em grande medida, enquanto atitude mental, o nosso atraso secular, há a ingenuidade de acreditar, que agora é que é (por acaso está-se a ver!), o facto consumado, a cobardia, o medo e o aceitar tudo de ânimo leve, são factores que obstruem ao progresso. É pena, mas não existe uma sociedade interventiva
*Biólogo
artigo publicado no JANEIRO
