28/07/2007

Os partidos precisam de um abanão


Joaquim Jorge

Quanto mais os partidos demorarem a reformar-se, mais provável será que se tornem desnecessários ao sistema

A vida política atravessa um ciclo de desinteresse da parte dos cidadãos e desconfiança nas instituições. A democracia está a viver uma crise de confiança, os cidadãos acreditam cada vez menos nos políticos, sendo prova disso a fraca participação nos actos eleitorais. Há um divórcio entre os cidadãos e a política. É necessário um reforço regulador, para restabelecer os laços de aproximação com os cidadãos. Tem de se dar resposta às expectativas e restabelecer a sua confiança nos mecanismos da democracia representativa, que está abalada. É necessário reinventar a democracia, criar novos espaços de activismo cívico, que importa integrar, para aproximar os eleitos dos eleitores. A democracia participativa deve servir de complemento à representativa, mas a evolução dos partidos tarda em se verificar. Os laços entre representantes e representados deverão tornar-se menos contratualizados e mais participativos. Os partidos precisam de um abanão, de um sobressalto, urge a sua renovação, aprofundada nas suas estruturas partidárias.Estão a aumentar os centros do poder fora da lógica partidária: candidaturas independentes; ONG (organizações não-governamentais); grupos de pressão; movimentos; grupos de reflexão política.A dificuldade é muito grande, porque os partidos são máquinas de "tachos" e de carreiras, exímios em afastar quem tenha valor ou luz própria, quem pense pela sua cabeça e quem não precisa da política para viver. Quanto mais os partidos demorarem a reformar-se, mais provável será que se tornem desnecessários ao funcionamento do sistema. O que caracteriza a vida dos partidos é o pragmatismo radical e indiferente a valores da sua elite dirigente. Os partidos só motivarão de forma sólida e consistente o eleitorado, se os seus quadros dirigentes forem credíveis, se forem melhores que os eleitores em termos éticos e intelectuais, exemplos de civismo e cidadania, respeitados e admirados e não apenas temidos. A qualidade da democracia passa por partidos que não estejam orientados para viver de acordo com normas que podem ter sido úteis numa realidade que já não existe. É necessário observar e interagir, é necessário ousadia, curiosidade, não-acomodação, agilidade, incrementar a velocidade de resposta às solicitações, dar o exemplo em vez de se ficar só pelo discurso, ter espírito empreendedor, determinação e objectivos. São precisos "líderes 360º". As pessoas gostam de ser respeitadas, desafiadas, reconhecidas e recompensadas. É preciso uma verdadeira alquimia entre eleitos e eleitores.A qualidade da democracia passa por desalojar os chefes partidários entrincheirados e os donos dos aparelhos, mas também por uma oposição sólida e consistente, do mesmo modo que um PS não agachado e não receoso de fazer ondas. É preciso acabar com a falta de debate e espírito crítico que demonstra este Governo, com a crispação que atravessa a nossa sociedade, os tiques de autoritarismo. Esta prepotência e abuso do poder, mostrando uma insensibilidade absoluta por quem menos tem e quem menos pode, exige uma mudança de atitude. Actualmente, o lema é "não penso e deste modo existo", pois, se pensar e falar, posso ser zurzido.

Público, 27-7-2007