
Maria Teresa Goulão
Os Partidos têm que sair do casulo
Estas eleições para a CM de Lisboa mostraram-nos bem o afastamento do eleitorado dos partidos políticos e o desinteresse pela sua cidade. Peter Mair qualifica esta situação como um "povo não soberano", para mostrar a hostilidade, a indiferença dos cidadãos perante as suas instituições democráticas.
O mundo mudou e a política também. Os partidos não acompanharam esta mudança e alimentam-se do seu próprio sangue. Estão sitiados em Lisboa e arrastam-se penosamente para o país em épocas eleitorais, saem directamente da escola dos corredores do poder e as cúpulas emanam ordens para as bases, muitas vezes ininteligíveis. Foram anos e anos deste nó que gerou á esquerda e á direita, séquitos de gente voraz, sem preparação e sem pudor que ocupa lugares conquistados em panaceias palacianas.
A política tem coisas muito improváveis. Sarkozy ganhou as “eleições com um discurso que desafia o consenso ideológico politicamente correcto socialista/social-democrata, falando da reforma do estado social, do liberalismo, reabilitando noções democráticas de autoridade”.
Em Lisboa, os independentes já não competem com os partidos político, antes venceram-nos. Ultrapassaram-nos. Mas, diga-se que os seus programas políticos não entraram em ruptura com o convencional. Os independentes antes tiveram o que se chama a racionalidade do aproveitamento da oportunidade. E se bem que não tenhamos visto ideias novas, ouvimo-las de forma diferente, numa linguagem combativa e mais próxima do cidadão.
Nem os partidos políticos nem as candidaturas independentes mostraram projectos e conceitos que os distinguissem uns dos outros.
A população de Lisboa diminuiu 300 mil habitantes nos últimos 25 anos, uma estrutura etária envelhecida, já que tem 24% de idosos, quando a média nacional é de apenas 17% Onde estiveram as propostas para este problema? que é o verdadeiro problema? Todos os candidatos se desdobraram contra a Administração do Porto de Lisboa, argumentando que é necessário devolver o rio á cidade. Mas, pragmaticamente, apresentaram soluções? Alguém propôs uma bolsa de terrenos, gerida de uma forma transparente e integrada com os terrenos da CM? Nada se ouviu sobre as repercussões do TGV que arrasa a zona oriental de Lisboa. Alguém quis perceber qual foi a causa de Lisboa não ter 7 ha de terreno disponível para as novas instalações do IPO?
Perguntaram o que se passa com o projecto Belém Redescoberta? Lembraram-se de propor á semelhança de Madrid a criação de uma Agência de Apoio ao investidor, já que Madrid recebe mais de metade do total do investimento estrangeiro espanhol? Lisboa é a pior capital europeia em termos de mobilidade. Qual a solução que nós lemos? Porque é que os candidatos não exigiram do Governo o novo quadro legal para agilizar as sociedades de reabilitação urbana, prometido há quase um ano, e porque não lhe lembraram a promessa de, até final de 2006, Portugal ter uma politica integrada de cidades?
Há hoje muitos lugares onde podemos falar e agir. A blogosfera revolucionou a forma de comunicar, multiplicam-se clubes de pensadores que, autênticos think tanks (laboratórios de ideias), sabem bem que o pensamento não pode ser divorciado da acção, e difundem as suas opiniões, tentam influenciar os actores do processo de decisão política. Os partidos políticos têm que sair do seu casulo. Se não, morrem.
artigo publicado no SOL , 21 Julho 2007
Os Partidos têm que sair do casulo
Estas eleições para a CM de Lisboa mostraram-nos bem o afastamento do eleitorado dos partidos políticos e o desinteresse pela sua cidade. Peter Mair qualifica esta situação como um "povo não soberano", para mostrar a hostilidade, a indiferença dos cidadãos perante as suas instituições democráticas.
O mundo mudou e a política também. Os partidos não acompanharam esta mudança e alimentam-se do seu próprio sangue. Estão sitiados em Lisboa e arrastam-se penosamente para o país em épocas eleitorais, saem directamente da escola dos corredores do poder e as cúpulas emanam ordens para as bases, muitas vezes ininteligíveis. Foram anos e anos deste nó que gerou á esquerda e á direita, séquitos de gente voraz, sem preparação e sem pudor que ocupa lugares conquistados em panaceias palacianas.
A política tem coisas muito improváveis. Sarkozy ganhou as “eleições com um discurso que desafia o consenso ideológico politicamente correcto socialista/social-democrata, falando da reforma do estado social, do liberalismo, reabilitando noções democráticas de autoridade”.
Em Lisboa, os independentes já não competem com os partidos político, antes venceram-nos. Ultrapassaram-nos. Mas, diga-se que os seus programas políticos não entraram em ruptura com o convencional. Os independentes antes tiveram o que se chama a racionalidade do aproveitamento da oportunidade. E se bem que não tenhamos visto ideias novas, ouvimo-las de forma diferente, numa linguagem combativa e mais próxima do cidadão.
Nem os partidos políticos nem as candidaturas independentes mostraram projectos e conceitos que os distinguissem uns dos outros.
A população de Lisboa diminuiu 300 mil habitantes nos últimos 25 anos, uma estrutura etária envelhecida, já que tem 24% de idosos, quando a média nacional é de apenas 17% Onde estiveram as propostas para este problema? que é o verdadeiro problema? Todos os candidatos se desdobraram contra a Administração do Porto de Lisboa, argumentando que é necessário devolver o rio á cidade. Mas, pragmaticamente, apresentaram soluções? Alguém propôs uma bolsa de terrenos, gerida de uma forma transparente e integrada com os terrenos da CM? Nada se ouviu sobre as repercussões do TGV que arrasa a zona oriental de Lisboa. Alguém quis perceber qual foi a causa de Lisboa não ter 7 ha de terreno disponível para as novas instalações do IPO?
Perguntaram o que se passa com o projecto Belém Redescoberta? Lembraram-se de propor á semelhança de Madrid a criação de uma Agência de Apoio ao investidor, já que Madrid recebe mais de metade do total do investimento estrangeiro espanhol? Lisboa é a pior capital europeia em termos de mobilidade. Qual a solução que nós lemos? Porque é que os candidatos não exigiram do Governo o novo quadro legal para agilizar as sociedades de reabilitação urbana, prometido há quase um ano, e porque não lhe lembraram a promessa de, até final de 2006, Portugal ter uma politica integrada de cidades?
Há hoje muitos lugares onde podemos falar e agir. A blogosfera revolucionou a forma de comunicar, multiplicam-se clubes de pensadores que, autênticos think tanks (laboratórios de ideias), sabem bem que o pensamento não pode ser divorciado da acção, e difundem as suas opiniões, tentam influenciar os actores do processo de decisão política. Os partidos políticos têm que sair do seu casulo. Se não, morrem.
artigo publicado no SOL , 21 Julho 2007