04/07/2007

Ler Poesia

Nuno Júdice

Na Sala

Ouvia-se o barulho do mar à noite.
Talvez não estivesse ninguém na praia (que
poderia alguém estar a fazer, numa praia,à noite?) - mas
era como se o barulho do mar tivesse, por trás,
as vozes de alguém que contasse uma história
de viagens e de ventos.
Onde se estava bem, no entanto,
era dentro de casa, onde o barulho do mar
parecia trazer as conversas de alguém,
na praia, com o vento.É verdade
que a janela estava aberta e, por trás
do muro de pedra e das árvores,a luz de um candeeiro
chegava até à praia onde não devia estar ninguém,
nessa noite de ondas e de vento.
Podia ser o tempo das férias com efeito,era o tempo
em que se tinha fériassem se saber bem qual a distinção
entre o tempo de férias e o outro tempo.
O que se sabia, por outro lado, era se estava alguém
na praia ou não e, de noite,ninguém devia estar na praia,
embora o vento trouxesse um ruído de conversas
que se confundia com o barulhodo vento.